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Ciência

Cinco impactos acidentais deram aos cientistas uma oportunidade rara para estudar o solo de Marte

Peças descartadas durante a chegada da Perseverance produziram cinco pequenos impactos. Como os cientistas sabem exatamente de onde vieram, elas se transformaram em um experimento inesperado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quase todo equipamento enviado a Marte tem uma função cuidadosamente planejada. Mas, em 2021, algumas peças usadas pela Perseverance simplesmente precisavam ser descartadas antes do pouso. Elas seguiram viagem sozinhas e atingiram a superfície marciana. O que parecia apenas lixo espacial ganhou uma segunda vida científica: cinco pequenas crateras estão permitindo testar, em condições reais, o que sabemos sobre o solo do planeta vermelho.

Tudo começou com peças que a Perseverance não precisava mais carregar

Durante sua viagem até Marte, a espaçonave utilizou diferentes massas para controlar seu centro de gravidade e manter a configuração necessária em cada etapa da missão.

Pouco antes da entrada na atmosfera, porém, essa distribuição precisava mudar para preparar o veículo para a descida.

Parte do hardware foi então descartada.

Entre essas peças estavam duas massas de tungstênio de aproximadamente 77 quilos cada, além de componentes relacionados à etapa de cruzeiro.

Alguns desses objetos continuaram em direção à superfície e acabaram colidindo com Marte.

Posteriormente, imagens obtidas pelo Mars Reconnaissance Orbiter permitiram encontrar cinco novas crateras. Havia uma vantagem importante para identificá-las: elas simplesmente não apareciam nas fotografias registradas antes da chegada da Perseverance.

Para os cientistas, isso criou uma situação bastante incomum.

Quando um novo impacto natural é encontrado em Marte, normalmente existe apenas a cratera. A partir de seu tamanho e formato, pesquisadores tentam reconstruir as características do objeto que a produziu.

Neste caso, aconteceu praticamente o contrário.

Cinco crateras transformaram o acidente em um experimento de escala real

Os pesquisadores já conheciam diversas características dos objetos que haviam atingido Marte e podiam compará-las diretamente com as marcas deixadas na superfície.

Era quase como realizar um experimento de impacto em escala planetária sem ter planejado um.

Um estudo publicado na Geophysical Research Letters combinou medições dessas crateras com simulações computacionais para investigar como o terreno havia reagido.

A análise estimou uma coesão próxima de 7 quilopascais para o material superficial daquela região.

Em termos práticos, o resultado aponta para um terreno relativamente fraco e granular, semelhante a um material arenoso que pode se desagregar com facilidade.

Curiosamente, essa característica lembra um problema enfrentado anos antes pela missão InSight, embora em uma região muito distante.

O instrumento HP³, apelidado de “toupeira”, deveria penetrar no subsolo marciano por meio de sucessivos golpes. As propriedades inesperadas do regolito, porém, dificultaram a operação e impediram que o equipamento alcançasse a profundidade originalmente planejada.

Isso não significa que todo Marte possua exatamente o mesmo tipo de terreno. Os locais são muito distantes e cinco crateras não permitem generalizar as propriedades de toda a superfície.

Mas os impactos trouxeram outra descoberta importante.

Algumas contas usadas para interpretar crateras podem precisar de ajustes

Os cientistas também aproveitaram o caso para testar os modelos que relacionam características de um objeto ao tamanho da cratera produzida.

Os resultados sugerem que algumas dessas equações podem precisar ser calibradas para representar melhor determinados impactos em Marte.

Isso não significa que as estimativas anteriores estejam simplesmente erradas.

Existe uma diferença importante: os objetos analisados eram peças artificiais, e massas de tungstênio não se comportam necessariamente como meteoroides rochosos ao atingir o solo.

Ainda assim, conhecer previamente propriedades como massa e composição transforma essas crateras em referências extremamente úteis.

As cinco peças descartadas pela Perseverance permitiram estimar características mecânicas do terreno marciano e testar modelos usados para interpretar crateras de impacto.

O lixo espacial pode ganhar uma função inesperada nas próximas missões

A descoberta também sugere uma ideia curiosa para futuras explorações.

Componentes que precisariam ser descartados durante uma missão poderiam, em determinadas circunstâncias, ser transformados deliberadamente em pequenos experimentos de impacto.

Se os cientistas conhecerem massa, composição, velocidade e trajetória aproximada da peça, poderão analisar posteriormente a cratera resultante para extrair informações sobre o terreno.

A Perseverance acabou fazendo isso por acidente.

Parte do hardware que deixou de ter utilidade para o pouso se transformou, anos depois, em uma espécie de instrumento científico improvisado.

Quanto melhores forem os modelos produzidos a partir dessas referências conhecidas, mais informações os pesquisadores poderão extrair dos milhares de impactos naturais espalhados pelo planeta.

Às vezes, até aquilo que uma missão deixa cair pelo caminho pode acabar ajudando a compreender melhor o mundo que foi enviada para explorar.

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