Uma pequena formiga originária da América do Sul protagoniza uma das invasões biológicas mais impressionantes do planeta. A Linepithema humile, conhecida como formiga-argentina, conseguiu se espalhar por diversos continentes e formar supercolônias gigantescas. Na Europa, uma dessas populações se estende por aproximadamente 6.000 quilômetros.
Originalmente encontrada no nordeste da Argentina e em outras regiões da América do Sul, a espécie também está presente naturalmente em países como Paraguai, Bolívia, Uruguai e Brasil. Com a ajuda involuntária dos humanos, porém, ela atravessou oceanos e hoje pode ser encontrada em praticamente todos os continentes, com exceção da Antártida.
A expansão europeia é particularmente impressionante. Ao longo da costa mediterrânea e atlântica, populações geneticamente e socialmente relacionadas formaram uma enorme supercolônia que atravessa Portugal, Espanha, França e Itália.
Formigueiros podem se transformar em verdadeiras cidades subterrâneas

As formigas estão entre os animais mais eficientes na construção de estruturas subterrâneas. Seus ninhos podem reunir túneis, câmaras de armazenamento, áreas destinadas às larvas e espaços utilizados para diferentes atividades da colônia.
O entomologista Richard Jones, especialista no estudo de insetos e outros artrópodes, analisou algumas dessas estruturas para a revista Discover Wildlife. Segundo o especialista, determinados formigueiros podem alcançar dimensões surpreendentes.
Outras espécies também são capazes de criar verdadeiras cidades abaixo do solo. A formiga-amarela-dos-prados, por exemplo, constrói ninhos protegidos pela vegetação e por materiais orgânicos acumulados no ambiente.
Na América do Sul e Central, as formigas-cortadeiras oferecem exemplos ainda mais impressionantes. Algumas espécies constroem redes interligadas de túneis e câmaras utilizadas como abrigo, armazenamento e cultivo dos fungos que servem de alimento para a colônia.
Estudos dessas estruturas indicam que alguns ninhos podem ocupar uma área comparável à de uma quadra de tênis.
Cientistas revelaram o tamanho de formigueiros usando materiais líquidos

Uma das técnicas utilizadas para estudar essas construções consiste em despejar materiais líquidos, como gesso ou compostos semelhantes, dentro da entrada de um formigueiro abandonado. O material percorre os túneis, endurece e cria uma espécie de molde tridimensional da estrutura.
Depois, pesquisadores escavam cuidadosamente o terreno ao redor.
O resultado permite visualizar a complexidade da construção escondida no subsolo. Algumas dessas redes podem ocupar volumes comparáveis aos de pequenos veículos recreativos e abrigar colônias formadas por milhões de indivíduos.
Em determinados casos, estima-se que uma única colônia possa reunir até seis milhões de formigas.
Mas a Linepithema humile conseguiu levar a organização coletiva a uma escala completamente diferente.
Uma supercolônia de formigas atravessa quatro países europeus

A formiga-argentina se tornou uma das espécies invasoras mais bem-sucedidas do mundo. Além da América do Norte, populações foram estabelecidas em regiões da Europa, Japão, Austrália e África do Sul.
Um dos segredos desse sucesso está no comportamento social da espécie.
Normalmente, formigas pertencentes a colônias diferentes reconhecem umas às outras como rivais e podem entrar em confrontos territoriais. Entre determinadas populações invasoras da Linepithema humile, entretanto, essa agressividade praticamente desaparece.
Isso permite que ninhos diferentes cooperem e funcionem como partes de uma enorme rede.
Na Europa, esse fenômeno resultou em uma supercolônia que acompanha aproximadamente 6.000 quilômetros do litoral, passando por Portugal, Espanha, França e Itália.
É importante destacar que isso não significa a existência de um único formigueiro contínuo com túneis subterrâneos ligando todos esses países. Trata-se de uma enorme rede de colônias relacionadas, cujas formigas apresentam pouca ou nenhuma agressividade entre si e podem funcionar como integrantes de uma mesma população.
A escala é difícil de imaginar. Para comparação, 6.000 quilômetros representam aproximadamente a distância em linha reta entre Washington, nos Estados Unidos, e Madri, na Espanha.
Uma rede gigantesca construída por insetos que medem apenas alguns milímetros — e que começou sua expansão global a partir da América do Sul.
[ Fonte: El País ]