Sensibilidade, desatenção, organização rígida, hiperfoco, inteligência acima da média… Quando todos esses traços aparecem juntos, pode ser difícil entender o que está realmente acontecendo com a mente de alguém. Segundo o psicólogo Jean Alessandro, especialista em altas habilidades, confundir superdotação com TDAH ou autismo é mais comum do que parece — e o diagnóstico exige mais do que uma bateria de testes.
Semelhanças que confundem, diferenças que esclarecem

Durante entrevista no programa Mapa Mental, do canal GainCast, Jean explicou por que essas três condições — superdotação, TDAH e autismo — podem ser facilmente confundidas. Em comum, elas compartilham sinais como sensibilidade sensorial, dificuldade na adaptação escolar e reações emocionais intensas. No entanto, os mecanismos por trás desses comportamentos são bastante diferentes.
No TDAH, por exemplo, há uma busca constante por novidades e dificuldade em manter o foco em tarefas longas. O hiperfoco existe, mas é breve e volátil. Já no autismo, o hiperfoco é persistente: “Por décadas a pessoa pode estudar o mesmo assunto”, explica Jean. Além disso, autistas tendem a preferir rotinas estruturadas e previsíveis, o que os acalma diante da ordem.
Enquanto isso, pessoas com TDAH geralmente convivem com certa desorganização externa, ainda que muitas se forcem a manter alguma estrutura usando agendas ou ferramentas de planejamento.
Quando os mundos colidem: a sobreposição entre condições
O desafio se intensifica quando essas condições coexistem em um mesmo indivíduo. “Se o TDAH puxa para novidade e o autismo para a ordem, como fica a vida da pessoa? Fica complicado”, aponta Jean. Isso significa que, mesmo com inteligência acima da média, o funcionamento mental pode se tornar confuso e desgastante.
Ele alerta ainda para o risco de diagnósticos mal conduzidos, principalmente quando os instrumentos de avaliação não são adaptados à realidade da pessoa. “Às vezes recebo laudos enormes, mas percebo, em uma hora de conversa, que aspectos importantes foram ignorados”, critica.
Para ele, o autoconhecimento é uma ferramenta essencial nesse processo. Jean sugere que a pessoa registre diariamente suas percepções — por meio de diários ou aplicativos de voz — como forma de mapear seus próprios padrões mentais e emocionais. “Muita gente não percebe nem quando está em crise de ansiedade”, afirma.
Entre os traços mais comuns entre superdotados, Jean destaca o perfeccionismo, a autocrítica constante e uma forte sensibilidade ética e moral — elementos que, quando mal compreendidos, podem ser confundidos com outros transtornos.
Em resumo, compreender as nuances entre essas condições e como elas podem interagir é fundamental para um diagnóstico mais justo, eficaz e humano.
[Fonte: Infomoney]