Durante anos, uma das promessas mais sedutoras da inteligência artificial foi simples: máquinas assumiriam tarefas repetitivas, a produtividade aumentaria e os humanos finalmente poderiam trabalhar menos. A semana de quatro dias parecia uma consequência quase natural dessa revolução. Mas justamente dentro das empresas responsáveis por desenvolver os sistemas mais avançados de IA, relatos de funcionários revelam outro cenário, com jornadas que podem ultrapassar facilmente as tradicionais 40 horas semanais.
A semana de quatro dias continua sendo uma promessa

Executivos do setor tecnológico defendem há anos que a inteligência artificial permitirá reduzir o tempo dedicado ao trabalho sem necessariamente sacrificar produtividade ou salários.
Há quatro anos, um diretor de engenharia do Google chegou a projetar que os avanços da IA poderiam levar empresas a adotar semanas de apenas quatro dias já em 2025.
No início de 2026, a OpenAI também incentivou publicamente organizações a experimentar jornadas de quatro dias sem redução salarial. O argumento era que sistemas de inteligência artificial tornariam o trabalho humano tão eficiente que as empresas precisariam começar a se preparar para uma nova realidade.
O problema é que, nos bastidores, essa transformação parece caminhar em outra direção.
Um ex-funcionário técnico da OpenAI contou à BBC que nunca encontrou uma semana de quatro dias durante sua passagem pela empresa. Segundo seu relato, a rotina envolvia jornadas exaustivas, reuniões emergenciais, trabalho nos fins de semana e avaliações de desempenho extremamente rigorosas.
Sábados e domingos podiam acabar sendo usados simplesmente para colocar tarefas em dia ou verificar se nenhum problema havia surgido.
A contradição é difícil de ignorar: enquanto a IA é apresentada como uma ferramenta capaz de devolver tempo às pessoas, quem está construindo essa tecnologia pode estar trabalhando mais do que antes.
Há funcionários chegando às 70 horas semanais

O fenômeno não parece limitado a uma única companhia.
A Anthropic, desenvolvedora do Claude, já destacou a capacidade de seu chatbot de trabalhar autonomamente durante aproximadamente sete horas, período comparável a uma jornada profissional completa.
Mark Zuckerberg também vem defendendo que a inteligência artificial modificará profundamente a maneira como as empresas trabalham. A expectativa é que equipes menores consigam realizar atividades que anteriormente exigiam muito mais funcionários.
Essa busca por eficiência, entretanto, também está acompanhada por cortes. A Meta eliminou cerca de um em cada dez postos de trabalho, enquanto Dario Amodei, CEO da Anthropic, já alertou que os enormes ganhos de produtividade proporcionados pela IA podem resultar em uma redução significativa dos empregos disponíveis.
Para aqueles que permanecem nas empresas, trabalhar menos nem sempre faz parte da equação.
O ex-funcionário da OpenAI ouvido pela BBC afirmou que chegou a trabalhar aproximadamente 70 horas por semana, muito acima da carga horária registrada em seus empregos anteriores.
Atualmente, ele trabalha em outra startup de inteligência artificial e considera que encontrou um equilíbrio melhor entre vida pessoal e profissional. Ainda assim, sua jornada habitual fica entre 50 e 60 horas semanais.
E isso acontece fora dos períodos mais intensos.
Os chamados “sprints” podem levar a jornadas ainda mais extremas
Na indústria tecnológica, períodos de esforço concentrado antes do lançamento de um produto ou de uma nova funcionalidade são conhecidos como “sprints”.
Durante esses ciclos, equipes trabalham intensamente para cumprir prazos, corrigir problemas e deixar novos sistemas prontos para chegar aos usuários.
Em empresas que disputam a liderança da corrida pela inteligência artificial, a pressão pode ser particularmente elevada.
Segundo testemunhos reunidos pela BBC, esses períodos em companhias como OpenAI e Anthropic podem durar várias semanas. Em situações extremas, a carga de trabalho pode ultrapassar 90 horas em apenas sete dias.
A corrida tecnológica ajuda a explicar parte dessa intensidade. Empresas investem bilhões de dólares para desenvolver modelos mais poderosos e enfrentam concorrentes que lançam novos recursos em intervalos cada vez menores.
Qualquer atraso pode significar perder terreno em um dos mercados mais disputados do mundo.
O resultado é uma situação paradoxal. As mesmas ferramentas que deveriam automatizar tarefas e liberar tempo também aumentam a velocidade esperada para desenvolver produtos, realizar testes e apresentar novidades.
Em vez de simplesmente eliminar trabalho, a inteligência artificial pode estar elevando aquilo que as empresas esperam que cada funcionário consiga produzir.
Na Meta, alguns funcionários foram enviados para projetos urgentes de IA
A pressão também aparece na reorganização das equipes.
Funcionários atuais e antigos da Meta relataram que trabalhadores foram transferidos de maneira abrupta para projetos considerados prioritários na estratégia de inteligência artificial da empresa.
Embora a companhia tenha posteriormente flexibilizado parte dessa política, muitos profissionais já haviam sido obrigados a assumir novas funções.
Os relatos descrevem trabalho durante a noite e nos fins de semana, além de uma sensação constante de permanecer de prontidão mesmo fora do horário tradicional.
Parte dessa dinâmica também é facilitada pelas regras trabalhistas dos Estados Unidos. O país não estabelece um limite federal geral para o número de horas que uma pessoa com mais de 16 anos pode trabalhar. Em partes da Europa, por outro lado, existem limites legais que normalmente restringem a semana de trabalho, incluindo horas extras.
Os projetos de IA desenvolvidos pela Meta abrangem desde ferramentas para engenharia de software até sistemas automatizados destinados a avaliar modelos capazes de reproduzir tarefas realizadas por seres humanos.
E é justamente aí que surge uma das maiores ironias dessa revolução.
A IA pode economizar tempo sem necessariamente devolvê-lo aos trabalhadores
Automatizar uma tarefa não significa automaticamente reduzir a jornada de quem trabalhava nela.
Uma empresa pode utilizar o ganho de produtividade de diferentes maneiras: diminuir horas trabalhadas, produzir mais com a mesma equipe ou simplesmente reduzir o número de funcionários necessários.
Até agora, os relatos vindos de algumas das maiores companhias de inteligência artificial sugerem que a segunda e a terceira possibilidades estão ganhando bastante espaço.
Isso não significa que uma semana de quatro dias impulsionada pela IA seja impossível. A tecnologia pode, de fato, eliminar tarefas repetitivas e acelerar atividades que anteriormente consumiam horas.
A questão é quem ficará com esse tempo economizado.
A promessa inicial dizia que a inteligência artificial permitiria às pessoas fazer o mesmo trabalho em menos horas. A realidade observada em parte do setor tecnológico apresenta uma possibilidade bem diferente: fazer muito mais trabalho durante as mesmas horas ou até trabalhar mais para acompanhar a velocidade das próprias máquinas.
Nesse cenário, a semana de quatro dias talvez dependa menos da capacidade da inteligência artificial e muito mais de uma decisão que nenhum algoritmo pode tomar sozinho: como as empresas escolherão distribuir os benefícios da produtividade que essa tecnologia promete gerar.
[Fonte: Infobae]