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Tecnologia

A SpaceX já não está sozinha: a China acaba de superar um dos grandes desafios dos foguetes reutilizáveis

Um novo lançamento chinês terminou de uma maneira que pode mudar a economia dos voos espaciais. O mais difícil, porém, começa justamente depois desse primeiro sucesso.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, lançar um foguete significava aceitar que boa parte da estrutura seria perdida após apenas alguns minutos de voo. A SpaceX mudou essa lógica ao transformar o retorno dos propulsores em uma operação cada vez mais rotineira. Agora, uma empresa privada chinesa acaba de realizar uma demonstração que coloca o país em uma posição muito mais interessante nessa disputa — e o próximo teste será ainda mais difícil.

O foguete que voltou depois de colocar um satélite no espaço

A missão partiu do noroeste da China levando o satélite Honghu-03. Cerca de 137 segundos depois da decolagem, as duas etapas do foguete se separaram. Enquanto a segunda continuava sua trajetória para colocar a carga em órbita, o primeiro estágio iniciava uma sequência muito mais delicada: voltar para a Terra.

O propulsor precisou corrigir sua orientação, reduzir a velocidade e controlar cuidadosamente a trajetória durante a descida. Na etapa final, seus motores foram acionados novamente para reduzir a velocidade antes do contato com o solo.

Então aconteceu a parte que a indústria espacial chinesa vinha tentando dominar: o estágio abriu suas pernas de pouso e aterrissou verticalmente em uma área de recuperação localizada no condado de Minqin, na província de Gansu, aproximadamente 390 quilômetros do local de lançamento.

O foguete era o Zhuque-3, desenvolvido pela empresa privada chinesa LandSpace.

O resultado é especialmente relevante porque a tentativa anterior não havia terminado bem. Em dezembro de 2025, o primeiro voo do Zhuque-3 chegou ao espaço, mas o estágio acabou destruído durante a tentativa de recuperação.

Desta vez, porém, a empresa conseguiu completar a sequência.

E isso representa muito mais do que uma aterrissagem bonita para as câmeras: significa que a China demonstrou, na prática, que pode recuperar um propulsor orbital em terra.

Metano, aço e uma aposta em muitos voos

O Zhuque-3 foi desenvolvido pensando desde o início em reutilização. O lançador possui duas etapas e, na configuração divulgada, mede aproximadamente 66 metros de altura e 4,5 metros de diâmetro.

Seu primeiro estágio utiliza nove motores alimentados por metano líquido e oxigênio líquido, uma combinação que vem ganhando espaço entre os projetos de foguetes reutilizáveis.

O material escolhido para a estrutura também chama atenção. O Zhuque-3 utiliza principalmente aço inoxidável, uma opção que pode facilitar determinados processos de fabricação e oferecer boa resistência térmica. Em contrapartida, o material é mais pesado do que algumas alternativas utilizadas em foguetes modernos.

A LandSpace pretende que o primeiro estágio possa ser reutilizado muitas vezes. A empresa chegou a projetar o sistema para até 20 reutilizações.

Mas existe uma diferença enorme entre projetar um foguete para realizar 20 voos e demonstrar que ele consegue fazê-los.

Recuperar uma única vez é apenas o começo. Depois do pouso, é necessário verificar o estado da estrutura, revisar os motores, substituir componentes quando necessário e preparar o veículo para uma nova missão. Tudo isso precisa acontecer de maneira rápida, segura e economicamente viável.

É justamente nesse ponto que a comparação com a SpaceX fica inevitável.

A China está testando mais de uma maneira de fazer isso

O Zhuque-3 não está sozinho nessa corrida. A China também vem experimentando outras formas de recuperar seus propulsores.

Em 10 de julho, o Long March 10B realizou um teste no qual seu primeiro estágio retornou verticalmente até uma plataforma marítima e foi capturado por um sistema de redes. Foi uma abordagem diferente daquela utilizada pelo Zhuque-3.

Em pouco mais de um mês, portanto, o país demonstrou duas estratégias distintas para recuperar estágios de foguetes orbitais: uma baseada na captura sobre o mar e outra no pouso controlado diretamente sobre o solo.

Essa variedade mostra que a reutilização deixou de ser apenas um objetivo distante para a indústria espacial chinesa. Empresas e programas diferentes estão tentando descobrir quais métodos podem funcionar melhor em operações reais.

E existe uma razão econômica para tanta atenção.

Um foguete descartável precisa ser fabricado novamente praticamente do zero para cada missão. Um sistema reutilizável pode, pelo menos em teoria, distribuir os custos de fabricação por vários lançamentos e aumentar a frequência de voos.

Isso pode se tornar decisivo em uma época em que satélites, constelações de comunicação e missões comerciais exigem cada vez mais lançamentos.

O verdadeiro desafio ainda está por vir

Apesar do avanço, afirmar que a China já alcançou o nível da SpaceX seria exagerado.

A grande vantagem da empresa americana não está apenas em conseguir pousar seus foguetes. A diferença está na repetição.

Os Falcon 9 transformaram o retorno dos primeiros estágios em uma operação relativamente rotineira. Alguns propulsores já foram utilizados diversas vezes, mostrando que a reutilização pode funcionar como parte de uma cadeia industrial, e não apenas como uma demonstração tecnológica.

A LandSpace ainda precisa provar isso.

O Zhuque-3 conseguiu completar uma etapa fundamental: colocar uma carga em órbita e trazer seu primeiro estágio de volta intacto. Agora será necessário demonstrar que esse mesmo conceito pode ser repetido com frequência, segurança e custos suficientemente baixos.

É aí que estará o verdadeiro teste para a empresa chinesa.

A China já conseguiu fazer o foguete voltar. O que ainda precisa provar é que consegue fazê-lo voltar várias vezes — e transformar um feito extraordinário em uma rotina.

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