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Tecnologia

Estamos fazendo a pergunta errada sobre inteligência artificial e máquinas, segundo esta nova visão

Inteligência artificial, robôs e automação despertam receios sobre o futuro, mas uma nova visão propõe inverter essa lógica e transformar a tecnologia em aliada das pessoas e do planeta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quase toda grande transformação tecnológica começou acompanhada pela mesma pergunta: o que acontecerá conosco quando as máquinas fizerem aquilo que antes dependia exclusivamente das pessoas? A inteligência artificial trouxe esse temor novamente ao centro das discussões. Mas há quem defenda que estamos fazendo a pergunta errada. Em vez de competir com máquinas cada vez mais capazes, o próximo salto tecnológico pode depender justamente de aprender a colocá-las a serviço das necessidades humanas.

O medo das novas tecnologias é muito mais antigo do que a IA

Estamos fazendo a pergunta errada sobre inteligência artificial e máquinas, segundo esta nova visão
© Pexels

Cada revolução tecnológica obrigou a sociedade a rever a maneira como trabalha, produz e se relaciona. Foi assim com as primeiras máquinas industriais, a eletricidade, os computadores e a automação. Agora, inteligência artificial, robótica e análise de dados inauguram mais uma etapa desse processo.

Para Jaime Alonso Restrepo Carmona, diretor-executivo da Rotorr-Motor de Inovação, existe um padrão histórico por trás dessas transformações. Primeiro surge a resistência ao desconhecido. Depois, as pessoas começam a se adaptar. Por fim, aparecem novas possibilidades e formas de progresso.

A questão central, portanto, não deveria ser simplesmente enxergar a tecnologia como ameaça, mas entender de que maneira ela pode ajudar a enfrentar problemas concretos da sociedade.

Essa perspectiva aparece com força no conceito de Indústria 5.0, que propõe uma relação diferente entre seres humanos e máquinas. Em vez de uma corrida para descobrir quem consegue produzir mais ou executar determinada tarefa melhor, a tecnologia passa a ser pensada como uma ferramenta capaz de ampliar as habilidades humanas.

Restrepo cita a abordagem japonesa como exemplo dessa mudança: deixar de competir com as máquinas e concentrar o desenvolvimento tecnológico nas necessidades das pessoas.

Isso muda significativamente a discussão sobre o futuro do trabalho.

A próxima revolução pode não ser apenas sobre produzir mais

Durante décadas, boa parte da inovação industrial esteve associada a produtividade, redução de custos e aumento da eficiência. Máquinas melhores significavam fábricas capazes de produzir mais em menos tempo.

Esse objetivo continua importante, mas já não parece suficiente diante dos desafios atuais.

Segundo Restrepo, tecnologias avançadas também podem ser utilizadas para enfrentar questões relacionadas à saúde, educação e empregabilidade. A inovação, nessa perspectiva, deixa de ser apenas uma ferramenta econômica para assumir uma dimensão social.

É nesse cenário que aparecem dois conceitos cada vez mais presentes nas discussões sobre o futuro: Sociedade 5.0 e Indústria 5.0.

A Sociedade 5.0, impulsionada pelo Japão, propõe colocar tecnologias avançadas a serviço das pessoas e utilizar recursos digitais para solucionar problemas sociais. Já a Indústria 5.0, promovida pela Comissão Europeia, acrescenta elementos como sustentabilidade, resiliência e valorização do talento humano à transformação industrial.

Embora tenham origens diferentes, as duas propostas compartilham uma ideia essencial: tecnologia não deveria ser desenvolvida pensando exclusivamente na capacidade de produzir mais.

Ela também precisa ajudar a construir sociedades capazes de enfrentar crises, melhorar a qualidade de vida e responder aos desafios ambientais.

Uma boa ideia no laboratório não basta para transformar a sociedade

Transformar essa visão em realidade exige algo mais complicado do que simplesmente desenvolver novas ferramentas.

Para a Rotorr-Motor de Inovação, um dos principais desafios está em aproximar universidades, empresas, governos e territórios. Uma tecnologia pode parecer extraordinária dentro de um laboratório, mas seu verdadeiro impacto aparece quando consegue responder a problemas encontrados fora dele.

Isso significa compreender as necessidades específicas de cada comunidade antes de desenvolver uma solução.

Questões ambientais, sociais e econômicas variam enormemente entre diferentes territórios. Uma inovação capaz de gerar impacto precisa considerar essas particularidades e incorporar também o conhecimento existente nas próprias comunidades.

A lógica muda: em vez de levar uma solução pronta para determinado lugar, pesquisadores, empresas e instituições podem construir respostas em conjunto com quem conhece aquela realidade diariamente.

Há, entretanto, outra transformação necessária e ela não depende de computadores mais rápidos ou algoritmos sofisticados.

Depende da maneira como lidamos com os erros.

Restrepo defende que sociedades interessadas em inovar precisam aceitar a experimentação como parte do processo. Criar algo novo envolve testar, falhar, aprender, corrigir e tentar novamente.

Em um ambiente acostumado a associar erro a fracasso, desenvolver essa cultura pode ser tão importante quanto dominar as próprias ferramentas tecnológicas.

O futuro não será decidido apenas por máquinas mais inteligentes

A velocidade das mudanças torna difícil prever exatamente como será o mercado de trabalho daqui a uma ou duas décadas. Algumas tarefas serão automatizadas, outras serão transformadas e profissões que hoje sequer existem provavelmente surgirão.

Mas o resultado dessa revolução não depende apenas do avanço das máquinas.

Depende também das escolhas feitas sobre como utilizá-las.

Colocar o ser humano no centro significa pensar a inteligência artificial, a robótica e os dados como instrumentos para ampliar capacidades, melhorar serviços, solucionar problemas ambientais e criar oportunidades, em vez de tratá-los exclusivamente como mecanismos de substituição do trabalho humano.

A sustentabilidade também passa a ocupar uma posição fundamental nessa equação. Não basta desenvolver sistemas mais eficientes se o progresso tecnológico ampliar desigualdades ou consumir recursos de maneira incompatível com os desafios ambientais.

É justamente nesse equilíbrio entre tecnologia, pessoas e sustentabilidade que pode estar uma das grandes questões das próximas décadas.

Máquinas cada vez mais inteligentes provavelmente continuarão surgindo. A pergunta decisiva não será apenas sobre aquilo que elas conseguem fazer, mas sobre aquilo que nós decidiremos fazer com elas.

Talvez o maior desafio da próxima revolução tecnológica, portanto, não seja aprender a competir com as máquinas. Pode ser descobrir como transformá-las nas aliadas que precisamos para construir uma sociedade mais resiliente, sustentável e preparada para o futuro.

[Fonte: Semana]

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