A imagem paradisíaca da Polinésia Francesa — praias de areia branca, águas turquesa, palmeiras — contrasta com um passado sombrio. Entre 1966 e 1996, a França realizou 193 testes nucleares nos atóis de Mururoa e Fangataufa. Hoje, quase três décadas após a última detonação, a radioatividade ainda deixa marcas na saúde das pessoas e no meio ambiente.
“Nos envenenaram”

A deputada Hinamoeura Morgant-Cross, de Tahiti, denuncia em fóruns internacionais que a população local segue pagando o preço da corrida nuclear francesa. Ela cita índices elevados de câncer, más-formações em recém-nascidos e contaminação da água e do solo.
“Durante 30 anos fomos cobaias da França. Nos envenenaram por sua obsessão em virar potência nuclear”, declarou em evento em Berlim, organizado pela IPPNW (Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear).
O mito da “bomba limpa”

Na época, o governo francês minimizou os riscos. O presidente Charles de Gaulle chegou a afirmar que a bomba francesa era “ecológica e limpa”, diferente da de Hiroshima. Mas a realidade foi outra: nuvens radioativas percorreram o Pacífico e atingiram até Tahiti, a mais de mil quilômetros dos locais de teste. Muitas comunidades nem sequer foram avisadas.
Sem desculpas oficiais
Os testes só terminaram em 1996, após protestos globais. Em 2021, Emmanuel Macron reconheceu a responsabilidade francesa, mas sem pedir desculpas formais. “Jamais teríamos feito esses testes em regiões como a Bretanha”, admitiu.
Enquanto isso, vítimas e descendentes seguem mobilizados. Na ONU e em redes sociais, jovens da região organizam iniciativas para cobrar reparações e manter viva a memória dos impactos.
Doenças que atravessam gerações
A radiação não afeta apenas os expostos diretos: pode causar mutações genéticas transmitidas por gerações.
“O perverso da radioatividade é que seus efeitos persistem. Aumenta o risco de câncer linfático, leucemia e outras doenças graves”, explica Jana Baldus, especialista em armas nucleares da European Leadership Network.
Casos de câncer em várias gerações de uma mesma família são comuns, segundo moradores.
Indenizações restritas e difíceis
Uma lei francesa de 2010 prevê compensações financeiras, mas a realidade mostra obstáculos. Para receber, vítimas precisam provar que estavam no local exato no momento da explosão — algo quase impossível décadas depois.
Além disso, a lista de doenças aceitas é limitada. Entre 2010 e julho de 2024, apenas 417 habitantes da Polinésia Francesa foram indenizados, segundo a ONG ICAN.
O risco de novos testes
França não foi a única: Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e China também realizaram centenas de explosões, mais de 2.000 no total. A radioatividade se espalhou pelo planeta inteiro.
Embora tratados internacionais e moratórias tenham freado os testes desde os anos 1990, a crise geopolítica atual levanta receios de que países possam voltar a recorrer a esse tipo de demonstração de poder. Coreia do Norte segue como exceção, realizando testes recentes.
Décadas após os testes nucleares, as vítimas na Polinésia Francesa continuam sofrendo com câncer, contaminação e falta de reparações. França admite responsabilidade, mas não pede desculpas oficiais. Enquanto isso, jovens ativistas exigem justiça e lembram ao mundo que a radioatividade não conhece fronteiras nem prazo de validade.
[ Fonte: DW ]