Um menino sem rede de apoio
Gerson, conhecido como “Vaqueirinho”, cresceu em um ambiente marcado por pobreza profunda e ausência de cuidados básicos. Segundo a conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou o caso por oito anos, ele foi uma criança exposta a múltiplas violações. A mãe tinha esquizofrenia, os avós também apresentavam fragilidades de saúde mental e a família nunca conseguiu garantir proteção adequada.
A primeira vez que ele chegou ao Conselho Tutelar, aos 10 anos, foi levado pela Polícia Rodoviária Federal depois de ser encontrado caminhando sozinho em uma rodovia. A partir dali, entrou para a rede de acolhimento. Mesmo assim, buscava constantemente a mãe — que perdera o poder familiar, mas continuava sendo um ponto de referência afetiva para ele. “Ele amava a mãe e sonhava que ela pudesse cuidar dele”, relata Verônica.
A mãe, entretanto, não tinha condições de exercer o papel. “Ela pedia para que levássemos o menino de volta ao conselho. Também era vítima da própria condição mental”, diz a conselheira.
Entre os irmãos, Gerson foi o único que não encontrou uma família adotiva. Segundo Verônica, isso ocorreu por causa da suspeita de transtornos graves. “A sociedade quer adotar crianças perfeitas, o que é impossível no acolhimento institucional.”
O sonho fixo de “domar leões”
Desde cedo, Gerson repetia um desejo que parecia ingênuo, mas mostrava sinais de desorganização emocional: queria ir à África para “domar leões”. O tema aparecia com frequência nas conversas com a conselheira e se tornou uma espécie de fantasia persistente.
Em um episódio crítico, ainda adolescente, ele tentou entrar clandestinamente em um avião. Chegou a cortar uma cerca no aeroporto para alcançar o trem de pouso de uma aeronave. Funcionários o viram pelas câmeras antes que uma tragédia acontecesse. “Agradeci a Deus quando me avisaram”, contou Verônica.
Para ela, a morte do jovem representa o fim doloroso de uma trajetória marcada pelo desamparo. “Ele só queria conhecer a África para domar leões. Percebeu tarde demais que a leoa não era uma gata. Mas ele não tinha juízo suficiente para entender o risco.”
Diagnóstico chegou tarde demais
Mesmo com o acompanhamento do Conselho Tutelar, os transtornos de Gerson só foram oficialmente reconhecidos quando ele entrou no sistema socioeducativo. Até então, avaliações psiquiátricas apontavam apenas problemas de comportamento — diagnóstico contestado por Verônica durante anos.
“Ele era visivelmente uma criança com transtornos graves”, afirma. Segundo ela, os debates com profissionais de saúde mental eram constantes, mas o reconhecimento formal demorou a vir. Quando chegou, já era tarde para impedir a escalada de situações de risco.
A invasão da jaula e a investigação
No domingo em que morreu, Gerson escalou uma estrutura de mais de seis metros no Parque Arruda Câmara (Bica), ultrapassou barreiras de segurança, usou uma árvore como apoio e entrou no espaço da leoa. O ataque foi fatal.
A Prefeitura de João Pessoa informou que abriu investigação para apurar as circunstâncias do caso. A Polícia Militar e o Instituto de Polícia Científica foram acionados para os procedimentos oficiais. O zoológico foi fechado imediatamente e as visitas estão suspensas, sem previsão de retomada.
Um caso que exige reflexão
A história de Gerson revela falhas profundas na proteção de jovens em situação de vulnerabilidade, especialmente aqueles com transtornos mentais não tratados. A tragédia expõe, mais uma vez, como diagnósticos tardios, abandono familiar e falta de suporte podem levar a desfechos devastadores.
É um alerta duro, mas necessário — e que deve estimular reflexões sobre políticas públicas, cuidado continuado e a urgência de redes de atenção mais eficientes.
[Fonte: Metrópoles]