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Ciência

Um buraco negro expeliu matéria a 20% da velocidade da luz — e o fenômeno lembra algo surpreendentemente parecido com o que acontece no Sol

Astrônomos registraram uma expulsão extrema de gás a partir de um buraco negro supermassivo na galáxia NGC 3783. O fluxo atingiu quase 20% da velocidade da luz e revelou um mecanismo inesperado, guiado por campos magnéticos — semelhante, em essência, às ejeções de massa coronal do Sol.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Universo costuma testar os limites da imaginação humana, mas alguns eventos conseguem ir além. Foi o que aconteceu no núcleo ativo da galáxia NGC 3783, onde cientistas observaram um jato de matéria lançado nas proximidades de um buraco negro supermassivo a velocidades relativísticas. O episódio não apenas impressionou pelos números, mas também pela física envolvida: o processo se assemelha a fenômenos magnéticos comuns em estrelas como o Sol, só que em uma escala colossal.

Um evento extremo observado em tempo real

Buracos Negros2
© AlexAntropov86 – Pixabay

A descoberta foi possível graças a uma campanha internacional de observação liderada pela missão XRISM (X-Ray Imaging and Spectroscopy Mission), um telescópio espacial dedicado ao estudo do Universo em raios X. Durante dez dias consecutivos de monitoramento, os instrumentos captaram uma sequência incomum de variações no brilho do núcleo da galáxia NGC 3783.

No auge do evento, uma massa significativa de gás foi expelida das regiões próximas ao buraco negro a velocidades que chegaram a cerca de 20% da velocidade da luz — aproximadamente 57 mil quilômetros por segundo. A ejeção coincidiu com uma intensa flare de raios X, o que permitiu aos pesquisadores acompanhar o fenômeno quase minuto a minuto.

Não foi radiação: foram campos magnéticos

Explosões e variações de brilho são relativamente comuns em buracos negros supermassivos, mas este episódio chamou atenção por um detalhe crucial. Diferentemente do que se observa em muitos fluxos de saída, o gás não foi acelerado principalmente pela pressão da radiação emitida pelo disco de acreção.

As evidências apontaram para um mecanismo diferente: uma reorganização abrupta dos campos magnéticos que envolvem o disco de gás ao redor do buraco negro. Esse processo, conhecido como reconexão magnética, libera enormes quantidades de energia quando linhas de campo magnético se rompem e se rearranjam.

O material foi expelido a partir de uma região localizada a cerca de cinquenta vezes o tamanho do próprio buraco negro, uma zona onde gravidade extrema e magnetismo interagem de forma violenta.

Um paralelo inesperado com o Sol

Buraco Negro
© X – @muyinteresante

O aspecto mais intrigante do estudo foi a semelhança com fenômenos bem conhecidos da física solar. No Sol, a reconexão magnética é responsável pelas ejeções de massa coronal — grandes bolhas de plasma que podem afetar o clima espacial da Terra.

Segundo Liyi Gu, autor principal do estudo publicado na revista Astronomy & Astrophysics, trata-se de “uma oportunidade única para investigar o mecanismo de lançamento de fluxos ultrarrápidos”. De acordo com ele, os dados são compatíveis com um impulso magnético repentino, e não com aquecimento extremo ou pressão radiativa.

Em termos físicos, o que muda é apenas a escala. Enquanto o Sol lança plasma capaz de causar tempestades geomagnéticas, o buraco negro de NGC 3783 produziu um evento bilhões de vezes mais energético.

Um fluxo ultrarrápido no momento exato

A análise detalhada dos dados do instrumento XRISM Resolve revelou a presença de um chamado fluxo ultrarrápido, conhecido pela sigla UFO (UltraFast Outflow). Esse fluxo apresentou uma velocidade radial de cerca de 0,19 c e surgiu exatamente quando uma flare suave de raios X e ultravioleta caiu abruptamente em menos de 12 horas.

O espectro mostrou linhas estreitas de ferro altamente ionizado, com dispersões de velocidade da ordem de mil quilômetros por segundo. Isso sugere que o gás expelido estava concentrado em um aglomerado denso dentro do próprio fluxo.

Para os pesquisadores, a coincidência temporal e a evolução rápida do fenômeno praticamente descartam explicações baseadas apenas em radiação.

Buracos negros como motores de mudança galáctica

O resultado reforça uma visão mais complexa dos buracos negros. Longe de serem apenas “aspiradores cósmicos”, eles também podem devolver enormes quantidades de energia e matéria ao ambiente ao seu redor.

Esses fluxos influenciam diretamente o meio interestelar, podendo aquecer o gás, dispersar nuvens e até regular a formação de novas estrelas. Em escala galáctica, esse tipo de retroalimentação ajuda a explicar por que muitas galáxias apresentam regiões centrais turbulentas e pobres em gás.

Se eventos de reconexão magnética como o observado em NGC 3783 forem comuns, eles podem representar uma peça-chave para entender como buracos negros moldam a evolução das galáxias ao longo do tempo.

 

[ Fonte: Infobae ]

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