O Alzheimer costuma ser associado à velhice, e existe uma boa razão para isso: a idade é seu principal fator de risco conhecido. Entretanto, existem formas de início precoce que podem surgir antes dos 65 anos e, em circunstâncias extremamente raras, afetar pessoas muito mais jovens.
Um dos casos mais impressionantes foi descrito por médicos chineses em 2023. O paciente tinha apenas 19 anos quando recebeu o diagnóstico de provável doença de Alzheimer, embora seus primeiros problemas cognitivos tenham começado aproximadamente dois anos antes.
O caso levantou uma questão intrigante para os pesquisadores: quão cedo essa doença realmente pode começar?
Os problemas de memória começaram aos 17 anos

Segundo o relato médico, o jovem começou a perceber dificuldades de concentração e memória aos 17 anos.
Com o passar do tempo, os problemas se tornaram mais evidentes. Ele apresentava dificuldades para lembrar acontecimentos recentes, não conseguia recordar o que havia acontecido no dia anterior e começou a ter problemas para acompanhar seus estudos.
A perda gradual de memória levou o paciente a procurar uma clínica especializada.
Testes cognitivos, incluindo o WHO-UCLA Auditory Verbal Learning Test, utilizado para avaliar diferentes aspectos da memória verbal, confirmaram déficits significativos.
A idade do paciente, porém, tornava o quadro extremamente incomum.
Alzheimer precoce normalmente aparece muito mais tarde

Quando os sintomas da doença aparecem antes dos 65 anos, o quadro é classificado como Alzheimer de início precoce.
Mesmo dentro dessa categoria, porém, desenvolver sintomas durante a adolescência é algo excepcional.
Os casos precoces geralmente começam entre os 30 e 60 anos. Pacientes na faixa dos 20 anos já são extremamente raros.
Além disso, quando a doença aparece tão cedo, médicos costumam procurar uma explicação genética.
Algumas formas hereditárias estão relacionadas principalmente a alterações nos genes APP, PSEN1 e PSEN2. Determinadas mutações podem provocar o desenvolvimento da doença décadas antes do observado na maioria dos pacientes.
Foi justamente nesse ponto que o caso chinês ficou ainda mais intrigante.
Médicos não encontraram uma explicação genética
Os pesquisadores realizaram análises genéticas, mas não encontraram as mutações conhecidas normalmente associadas às formas familiares de Alzheimer de início extremamente precoce.
O jovem também não apresentava histórico familiar conhecido da doença.
Isso tornou difícil explicar por que alterações compatíveis com Alzheimer estavam aparecendo em uma pessoa tão jovem.
Os médicos realizaram então uma série de exames para procurar sinais biológicos relacionados à doença.
As análises revelaram alterações importantes.
Exames encontraram sinais compatíveis com Alzheimer
Os pesquisadores observaram atrofia bilateral do hipocampo, região cerebral fundamental para a formação e recuperação de memórias.
Também foi identificado hipometabolismo nos lobos temporais.
A análise do líquido cefalorraquidiano apresentou outras pistas. Entre elas estava uma concentração elevada de p-tau181, uma forma da proteína tau utilizada como biomarcador relacionado ao Alzheimer.
Os pesquisadores também encontraram uma proporção reduzida entre beta-amiloide 42 e beta-amiloide 40.
A combinação dos sintomas cognitivos, exames de imagem e biomarcadores levou a equipe a considerar o quadro compatível com provável doença de Alzheimer.
Ainda assim, devido à idade extraordinariamente baixa e às particularidades do caso, os próprios pesquisadores destacaram a necessidade de acompanhamento do paciente ao longo do tempo.
O recorde anterior era de um paciente de 21 anos
Antes desse relato, um dos casos mais precoces conhecidos havia sido descrito em 2021 por uma equipe de pesquisadores espanhóis.
O paciente tinha 21 anos.
Naquele caso, entretanto, havia uma diferença fundamental: os cientistas conseguiram encontrar uma explicação genética para o desenvolvimento excepcionalmente precoce da doença.
No paciente chinês de 19 anos, essa explicação não apareceu.
É justamente isso que torna o caso cientificamente tão relevante.
Ele sugere que ainda existem mecanismos envolvidos no desenvolvimento do Alzheimer que não compreendemos completamente e mostra que a doença pode, em circunstâncias extremamente raras, produzir alterações cognitivas muito antes da idade normalmente associada à neurodegeneração.
Isso não muda o fato de que Alzheimer em adolescentes ou jovens adultos continua sendo extraordinariamente raro. Porém, casos extremos como esse podem ajudar pesquisadores a entender melhor uma doença que, apesar de décadas de estudos, ainda guarda perguntas fundamentais sobre como e por que começa.
[ Fonte: Xataka ]