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Ciência

Como o cérebro toma decisões quando existem várias opções ao mesmo tempo

Um estudo publicado na Nature revelou que o cérebro não precisa abandonar um objetivo para perseguir outro. Em situações dinâmicas, ele consegue manter diferentes planos ativos e combiná-los enquanto avalia qual estratégia seguir.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando uma pessoa sai de casa para trabalhar, dificilmente todo o percurso acontece exatamente como planejado. Um engarrafamento, uma rua bloqueada ou qualquer outro imprevisto pode exigir uma mudança imediata de rota. Agora, pesquisadores descobriram que algo semelhante acontece dentro do cérebro.

Um estudo liderado por cientistas do Baylor College of Medicine mostrou como o cérebro mantém, combina e modifica diferentes objetivos enquanto uma pessoa toma decisões em ambientes que mudam constantemente.

Publicada na Nature, a pesquisa utilizou uma espécie de videogame de perseguição para descobrir o que acontece quando precisamos decidir e agir ao mesmo tempo.

Um videogame ajudou a revelar como o cérebro decide

Em vez dos experimentos tradicionais, nos quais uma pessoa normalmente escolhe entre opções estáticas, os pesquisadores desenvolveram uma situação mais parecida com a vida cotidiana.

Os participantes controlavam um avatar com um joystick e precisavam perseguir quadrados em movimento, chamados de “presas”. Cada alvo apresentava uma cor diferente, que indicava seu valor em pontos e sua velocidade.

Portanto, algumas presas eram mais valiosas, enquanto outras podiam ser mais fáceis de alcançar.

O experimento contou com 69 adultos divididos em dois grupos: 50 voluntários saudáveis e 19 pacientes com epilepsia grave que estavam hospitalizados para monitoramento cerebral.

Essa combinação permitiu aos cientistas estudar com mais detalhes os padrões de atividade cerebral relacionados às decisões.

O cérebro consegue manter dois planos ao mesmo tempo

Uma das principais descobertas foi que os participantes nem sempre escolhiam um objetivo e simplesmente abandonavam o outro.

Muitas vezes, eles permaneciam em uma espécie de estado intermediário, mantendo atenção e planos de movimento relacionados aos dois alvos.

Esse comportamento apareceu entre 36% e 41% do tempo quando as duas presas tinham o mesmo valor. Quando os valores eram diferentes, a proporção ficou entre 37% e 43%.

Os resultados indicam que o cérebro nem sempre trabalha seguindo uma lógica de “tudo ou nada”.

Em determinadas situações, ele mantém diferentes possibilidades disponíveis e ajusta nossas ações conforme as circunstâncias mudam.

É semelhante a dirigir em uma cidade movimentada enquanto seguimos uma rota, mas continuamos avaliando se será melhor virar, frear ou escolher outro caminho.

Estratégia combinada pode ser mais eficiente

Os pesquisadores também utilizaram modelos computacionais para descobrir qual estratégia explicava melhor o comportamento observado durante o experimento.

Os resultados favoreceram um modelo de controle combinado, com probabilidade de 84% ± 8% entre os participantes.

Essa estratégia apresentou desempenho superior ao chamado “winner-take-all switching”. Nesse modelo, uma pessoa concentra seus esforços completamente em um único objetivo e só depois muda de maneira abrupta para outro.

Na prática, os participantes fizeram algo diferente.

Eles conseguiam manter simultaneamente dois planos de movimento e combinar informações dos dois para determinar suas ações.

Isso sugere que tomar decisões em situações dinâmicas não significa apenas escolher a melhor opção disponível. O cérebro também precisa administrar diferentes possibilidades enquanto a situação continua evoluindo.

Três regiões do cérebro participam das decisões

Os pesquisadores identificaram três regiões cerebrais com funções diferentes durante esse processo.

O hipocampo acompanhava e atualizava o plano que estava sendo executado, especialmente durante as fases iniciais do planejamento. Embora seja bastante conhecido por seu papel na memória e orientação espacial, o estudo mostra sua participação no acompanhamento de estratégias em ambientes dinâmicos.

Já o córtex cingulado anterior esquerdo ajudava a identificar quando era necessário mudar de estratégia. Ele funcionava como uma espécie de sinal indicando que o plano atual poderia não ser mais a melhor alternativa.

Por fim, o córtex orbitofrontal estava relacionado à avaliação do valor de cada opção disponível.

Assim, enquanto uma região acompanhava o plano atual, outra sinalizava possíveis mudanças e uma terceira avaliava quais alternativas poderiam oferecer melhores resultados.

Decidir pode ser um processo contínuo

Grande parte dos estudos tradicionais de neurociência trata uma decisão como um acontecimento isolado: opções aparecem, a pessoa escolhe uma delas e o processo termina.

A nova pesquisa sugere uma dinâmica diferente.

Na vida real, muitas decisões continuam sendo modificadas depois que começamos a agir. O cérebro precisa atualizar informações, avaliar alternativas e alterar nossos movimentos enquanto o ambiente muda.

Essa capacidade pode ser importante em situações cotidianas, como atravessar uma avenida movimentada, dirigir no trânsito ou reagir rapidamente diante de um imprevisto.

Descoberta também pode ajudar robôs e sistemas de IA

Os pesquisadores agora pretendem testar o modelo em cenários ainda mais complexos, com maior número de objetivos, mais incerteza e situações envolvendo interações com outras pessoas.

Além de ajudar a compreender melhor o cérebro humano, os resultados podem ter aplicações na robótica e na inteligência artificial.

Sistemas capazes de manter diferentes planos simultaneamente, avaliar continuamente suas vantagens e modificar estratégias poderiam reagir de maneira mais flexível a ambientes imprevisíveis.

Em outras palavras, entender como o cérebro administra várias possibilidades ao mesmo tempo pode não apenas explicar melhor nossas decisões, mas também ajudar a criar máquinas capazes de se adaptar de forma mais eficiente ao mundo ao seu redor.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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