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Tecnologia

Um estudo com 900 pessoas mostra o que realmente está por trás do uso excessivo da internet

Passar muitas horas conectado nem sempre indica um problema. Um novo estudo revela qual comportamento realmente diferencia um uso saudável de um padrão que pode afetar a qualidade de vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Redes sociais, jogos, compras online e plataformas de entretenimento fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Em muitos casos, essas atividades ajudam a relaxar, aliviar o estresse e manter contato com amigos e familiares. No entanto, especialistas alertam que existe uma diferença importante entre usar a internet com frequência e desenvolver um comportamento difícil de controlar. Uma pesquisa recente ajuda a entender onde está esse limite e quais sinais realmente merecem atenção.

O problema nem sempre está na quantidade de horas online

É comum associar muitas horas diante da tela a um possível vício em internet, mas pesquisadores indicam que essa relação é bem mais complexa. Um estudo realizado pela Universidade de Duisburg-Essen e publicado na revista científica PLOS One analisou como fatores emocionais e comportamentais influenciam o uso considerado problemático da internet.

A pesquisa reuniu 900 adultos que utilizavam regularmente pelo menos uma entre quatro atividades digitais: redes sociais, videogames, compras online ou conteúdo adulto. Antes do acompanhamento, os participantes passaram por entrevistas diagnósticas que permitiram classificá-los em três grupos distintos.

Ao todo, 419 pessoas apresentavam um padrão considerado saudável de uso, 242 foram classificadas como grupo de risco e 239 demonstravam características compatíveis com um uso patológico da internet.

Durante 14 dias consecutivos, todos responderam diariamente a questionários sobre humor, nível de estresse, tempo de uso da atividade digital favorita e intensidade da vontade de acessar aquela plataforma.

Os participantes também informavam se aquela atividade havia proporcionado prazer ou alívio emocional e se, por permanecerem conectados, deixaram de realizar tarefas importantes, praticar exercícios, descansar ou manter compromissos pessoais.

Os resultados mostraram diferenças claras entre os grupos. Pessoas com padrões mais problemáticos relataram níveis mais elevados de estresse, humor mais negativo, sessões mais longas de uso e maior frequência de abandono de outras atividades importantes.

Outro dado chamou atenção: enquanto indivíduos sem sinais de uso problemático utilizaram sua atividade favorita em cerca de cinco dias durante o período analisado, aqueles classificados com comportamento patológico permaneceram conectados em quase oito dias.

Apesar disso, os pesquisadores destacam que o estudo encontrou apenas uma associação entre esses fatores. Não é possível afirmar que o uso da internet tenha causado diretamente o aumento do estresse ou do mau humor. Também existe a possibilidade de que pessoas emocionalmente mais vulneráveis tenham maior tendência a desenvolver dificuldades para controlar esse comportamento.

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© Magnific

O principal alerta apareceu antes mesmo de a pessoa abrir o aplicativo

A descoberta mais interessante da pesquisa surgiu quando os cientistas analisaram o que realmente levava uma pessoa a passar mais tempo conectada em determinado dia.

Ao contrário do que muitos imaginam, nem o estresse nem o humor negativo foram os fatores mais importantes. O elemento que melhor antecipava um uso intenso era a chamada tentação momentânea — o desejo de acessar imediatamente a plataforma aliado à dificuldade percebida para resistir a esse impulso.

Nos dias em que essa vontade era mais intensa, os participantes tendiam a permanecer mais tempo online, relatavam maior sensação de prazer ou alívio durante o uso e, ao mesmo tempo, deixavam outras responsabilidades em segundo plano com maior frequência.

Esse padrão foi ainda mais evidente entre os participantes classificados como usuários patológicos.

Os pesquisadores explicam que esse comportamento pode criar um ciclo de reforço. A pessoa sente uma forte vontade de acessar determinado aplicativo, obtém uma recompensa emocional quase imediata e passa a repetir esse comportamento com cada vez mais frequência. Com o tempo, o hábito pode continuar mesmo quando já interfere no trabalho, nos estudos, nas relações pessoais ou na qualidade do sono.

O que realmente diferencia um uso saudável de um comportamento problemático

Os próprios autores reforçam que passar muitas horas conectado não significa, automaticamente, que alguém seja dependente da internet.

Muitas pessoas utilizam dispositivos digitais durante boa parte do dia por motivos profissionais, acadêmicos ou até para manter contato com familiares e amigos, sem que isso provoque prejuízos relevantes em suas vidas.

O sinal considerado mais importante é a perda de controle sobre o comportamento. Quando a pessoa continua conectada mesmo percebendo que está negligenciando obrigações, abandonando atividades saudáveis ou comprometendo seu bem-estar, o uso passa a merecer maior atenção.

Curiosamente, a pesquisa sugere que o tempo de tela funciona mais como consequência desse padrão do que como sua principal causa.

Os cientistas também reconhecem algumas limitações do estudo. Todas as informações foram fornecidas pelos próprios participantes, sem monitoramento automático dos dispositivos. Além disso, a amostra era composta principalmente por adultos jovens e foi selecionada para incluir um número elevado de pessoas com uso problemático, o que impede generalizações para toda a população.

Mesmo assim, os resultados indicam que simplesmente reduzir o tempo de tela pode não ser suficiente. Identificar os momentos em que surge o impulso quase automático de acessar aplicativos e desenvolver alternativas capazes de oferecer prazer, relaxamento ou bem-estar sem substituir outras áreas importantes da vida pode ser uma estratégia muito mais eficaz para manter uma relação saudável com a tecnologia.

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