Durante décadas, a relatividade de Einstein foi considerada uma das teorias mais bem-sucedidas da história da ciência. Suas previsões foram confirmadas inúmeras vezes, desde a curvatura da luz causada pela gravidade até a existência das ondas gravitacionais.
Mas para Daryl Janzen, astrônomo e filósofo, existe uma questão que merece ser revisitada. Em entrevista ao The Conversation, o pesquisador argumenta que físicos e filósofos podem estar utilizando conceitos e palavras de forma confusa ao descrever a natureza do espaço-tempo. Sua crítica não questiona as equações da relatividade, mas a interpretação filosófica que foi construída em torno delas.
O problema do “universo em bloco”

O centro da argumentação de Janzen envolve uma ideia conhecida como eternalismo, frequentemente representada pelo conceito de “universo em bloco”.
Nessa interpretação, o espaço-tempo é uma estrutura fixa de quatro dimensões que contém simultaneamente todos os eventos do passado, do presente e do futuro. O tempo não flui como normalmente percebemos. Em vez disso, tudo já existe dentro desse grande bloco quadridimensional.
Segundo essa visão, o momento presente não possui um status privilegiado. O passado continua existindo, o futuro também, e a sensação de passagem do tempo seria apenas uma característica da nossa experiência consciente.
A ideia tem sido amplamente discutida tanto na física quanto na filosofia ao longo do último século.
Objetos existem, eventos acontecem
Janzen acredita que parte da confusão surge porque diferentes conceitos acabam sendo tratados como se fossem equivalentes.
Ele propõe uma distinção simples: objetos existem porque permanecem ao longo do tempo, enquanto eventos acontecem em momentos específicos.
Na avaliação do filósofo, o chamado universo em bloco deveria ser entendido mais como uma estrutura de representação da realidade do que como um objeto físico propriamente dito.
Essa diferença pode parecer apenas semântica, mas para ele tem consequências importantes. Se o bloco inteiro existe de uma única vez, como um todo completo, torna-se difícil explicar a experiência subjetiva de passagem do tempo.
O paradoxo do tempo que passa
Uma das críticas centrais de Janzen está relacionada justamente à percepção humana do tempo.
Se o universo em bloco já contém todos os acontecimentos possíveis de forma simultânea, de onde surge a sensação de que o tempo está avançando?
Segundo ele, para preservar essa experiência dentro da estrutura tradicional do universo em bloco seria necessário que o próprio bloco “durasse” de alguma forma.
E isso criaria um problema adicional: seria preciso introduzir uma nova dimensão temporal para explicar a duração do espaço-tempo de quatro dimensões.
Em outras palavras, uma quinta dimensão seria necessária para descrever o fluxo temporal do próprio bloco.
Uma questão de linguagem
Janzen argumenta que a física moderna acabou adotando termos como “atemporal”, “existir” e “devir” com significados técnicos muito específicos, frequentemente diferentes daqueles usados no cotidiano.
Para ele, ao longo dos anos, essa mudança de significado acabou misturando conceitos distintos e criando ambiguidades filosóficas.
O resultado seria uma interpretação do espaço-tempo que parece clara dentro do vocabulário científico, mas que pode esconder problemas conceituais mais profundos.
Isso pode afetar a física do futuro?

O filósofo não afirma que a relatividade esteja errada nem apresenta uma teoria alternativa para substituir os modelos atuais.
Seu objetivo é mais modesto — e ao mesmo tempo mais fundamental.
Ele sugere que esclarecer exatamente o que os físicos querem dizer quando falam sobre espaço-tempo pode influenciar futuras pesquisas, especialmente aquelas que tentam unificar a relatividade geral com a mecânica quântica, um dos maiores desafios da ciência moderna.
Afinal, se ainda existem dúvidas sobre a própria definição do espaço-tempo, talvez algumas dificuldades encontradas na busca por uma teoria unificada tenham origem em pressupostos conceituais que raramente são questionados.
Para Janzen, a pergunta mais importante não é apenas como o espaço-tempo se curva ou se comporta. Antes disso, é preciso entender algo ainda mais básico: o que exatamente queremos dizer quando usamos a expressão “espaço-tempo”.
[ Fonte: Huffpost ]