Pular para o conteúdo
Ciência

Um misterioso rio vermelho na Antártida revelou o que acontece sob quilômetros de gelo

Um dos fenômenos mais intrigantes da Antártida acaba de fornecer novas pistas sobre o que existe sob o gelo. A descoberta pode mudar a compreensão dos cientistas sobre esse ambiente extremo.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A Antártida continua escondendo alguns dos maiores mistérios do planeta. Sob quilômetros de gelo permanente, existem processos que permanecem praticamente invisíveis para a ciência. Um deles chamou atenção há mais de um século por causa de uma impressionante mancha vermelha que escorre sobre um glaciar. Agora, uma nova pesquisa conseguiu explicar melhor o que acontece nas profundezas desse cenário gelado e por que esse fenômeno é muito mais importante do que parecia.

A impressionante “cascata de sangue” não é o que parece

Localizada no glaciar Taylor, uma formação conhecida como Cataratas de Sangue desperta curiosidade desde sua descoberta.

À primeira vista, a impressão é de que um líquido vermelho escorre continuamente sobre o gelo branco da Antártida.

O aspecto incomum deu origem ao nome do fenômeno, mas a explicação está longe de envolver sangue ou qualquer substância biológica.

O tom avermelhado surge porque uma salmoura extremamente rica em ferro emerge do interior do glaciar.

Enquanto permanece confinada sob o gelo, essa água salgada fica isolada do oxigênio atmosférico. Quando finalmente alcança a superfície, o ferro reage com o ar, sofre oxidação e adquire a intensa coloração vermelha.

Durante anos, os pesquisadores sabiam apenas que esse líquido aparecia de forma intermitente.

Faltava entender o que desencadeava essas descargas e quais processos aconteciam sob a enorme camada de gelo.

O gelo revelou movimentos invisíveis

Um misterioso rio vermelho na Antártida revelou o que acontece sob quilômetros de gelo
© Pexels

Um estudo publicado na revista Antarctic Science trouxe respostas importantes ao analisar uma descarga registrada entre setembro e outubro de 2018.

Os cientistas combinaram diferentes instrumentos instalados na região.

Um sistema de GPS monitorava continuamente pequenos deslocamentos do glaciar, enquanto câmeras registravam diariamente o comportamento das Cataratas de Sangue.

Sensores também acompanhavam a temperatura nas proximidades do lago Bonney, localizado ao lado do glaciar Taylor.

Ao comparar todas essas informações, os pesquisadores perceberam algo inesperado.

Durante a liberação da salmoura avermelhada, a superfície do glaciar sofreu um rebaixamento de aproximadamente 15 milímetros.

Ao mesmo tempo, a velocidade de deslocamento do gelo diminuiu cerca de 10%.

Essas alterações forneceram uma das evidências mais claras já obtidas de que existe um sistema ativo de circulação de líquidos escondido sob o glaciar.

Um reservatório oculto permanece ativo há milhares de anos

Um misterioso rio vermelho na Antártida revelou o que acontece sob quilômetros de gelo
©

Os pesquisadores acreditam que a salmoura permanece aprisionada sob o gelo há um período extremamente longo.

Por causa da alta concentração de sal, esse líquido não congela completamente, mesmo sob temperaturas extremamente baixas.

Em determinados momentos, mudanças de pressão dentro do glaciar permitem que a água percorra fissuras e canais subterrâneos até alcançar a superfície.

Esse mecanismo explica por que as Cataratas de Sangue não escorrem continuamente.

As descargas acontecem em pulsos, quando as condições internas favorecem a movimentação da salmoura.

A descoberta mostra que o interior do glaciar Taylor está longe de ser uma estrutura imóvel.

Mesmo quando tudo parece completamente congelado na superfície, processos complexos continuam ocorrendo em seu interior.

A descoberta pode ajudar até na busca por vida fora da Terra

Além de ampliar o conhecimento sobre o funcionamento dos glaciares antárticos, o estudo desperta interesse em outras áreas da ciência.

A salmoura das Cataratas de Sangue permaneceu isolada da luz solar durante milhares de anos e apresenta baixíssimos níveis de oxigênio.

Apesar dessas condições extremas, pesquisadores já identificaram a presença de microrganismos adaptados a esse ambiente incomum.

Esses organismos servem como modelos para compreender como a vida pode sobreviver em condições semelhantes às encontradas em luas geladas do Sistema Solar, como Europa, de Júpiter, e Encélado, de Saturno, onde também existem fortes indícios da presença de oceanos subterrâneos.

Ao mesmo tempo, entender como a água circula sob grandes massas de gelo ajuda cientistas a aperfeiçoar modelos que explicam a dinâmica das calotas polares e sua resposta às mudanças climáticas.

Assim, as Cataratas de Sangue deixaram de ser apenas uma curiosidade visual da Antártida. Cada nova descarga funciona como uma janela para processos invisíveis que ocorrem sob quilômetros de gelo, revelando um ambiente muito mais dinâmico do que se imaginava e oferecendo pistas que podem ajudar a explicar desde a evolução dos glaciares terrestres até a possibilidade de vida em outros mundos.

[Fonte: MDZ]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados