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Tecnologia

Uma câmera quase invisível está criando um novo problema para mulheres nas redes sociais

Óculos inteligentes prometem colocar inteligência artificial diante dos nossos olhos, mas uma pesquisa encontrou centenas de gravações que revelam um problema de privacidade difícil de perceber.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Uma câmera de celular é relativamente fácil de identificar: alguém precisa levantar o aparelho e apontá-lo. Com os óculos inteligentes, essa barreira praticamente desaparece. Basta olhar. Essa mudança aparentemente pequena está criando situações que preocupam pesquisadores e defensores da privacidade. Um estudo da Universidade de Sydney analisou centenas de vídeos publicados nas redes sociais e encontrou mulheres filmadas durante abordagens indesejadas, muitas vezes sem perceber que estavam sendo gravadas.

Uma câmera que praticamente desaparece diante dos nossos olhos

Os óculos inteligentes estão rapidamente deixando de ser acessórios experimentais. Equipados com câmeras, microfones e recursos de inteligência artificial, eles permitem tirar fotografias, gravar vídeos, ouvir música, fazer ligações, traduzir conversas e até receber informações sobre aquilo que o usuário está vendo.

Mas existe uma diferença fundamental em relação ao smartphone: a câmera fica posicionada praticamente no mesmo lugar dos olhos.

Isso permite registrar cenas em primeira pessoa sem realizar o gesto evidente de apontar um celular para alguém.

Foi justamente essa característica que chamou a atenção de pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália. O estudo analisou 350 vídeos públicos publicados no Instagram entre 2023 e 2026, muitos deles associados a comunidades de homens que produzem conteúdos sobre técnicas para abordar e conquistar mulheres.

Nas gravações, homens usando óculos inteligentes se aproximavam de desconhecidas em locais cotidianos, tentando obter números de telefone ou perfis em redes sociais.

As mulheres estavam em restaurantes, academias, supermercados, elevadores e até em seus locais de trabalho. Algumas vestiam roupas de banho ou de academia.

Depois, aquelas interações acabavam publicadas na internet.

O dispositivo mais presente nessa nova discussão é o produzido pela Meta em parceria com a Ray-Ban, marca da EssilorLuxottica. Os óculos ganharam participação expressiva no mercado justamente porque conseguem incorporar câmeras e IA em uma aparência próxima à de modelos convencionais.

Os números encontrados pelos pesquisadores chamaram atenção

Uma câmera quase invisível está criando um novo problema para mulheres nas redes sociais
© Pexels

A análise revelou que aproximadamente 60% das interações examinadas poderiam ser classificadas como potencialmente assediadoras. Em diversas gravações, as mulheres demonstravam desconforto, tentavam interromper a conversa ou procuravam deixar o ambiente.

Mas o problema nem sempre terminava quando a abordagem acabava.

Depois da publicação dos vídeos, a audiência podia começar uma segunda etapa de exposição. Em 43% dos casos, informações pessoais das mulheres acabaram reveladas, incluindo nomes, localização ou perfis em redes sociais.

A pesquisa também identificou gravações que destacavam partes específicas dos corpos femininos. Mulheres racializadas apareciam em parte do material e podiam posteriormente se tornar alvo de comentários racistas sobre seus corpos.

O fenômeno ganhou até um apelido nada agradável. Críticos passaram a utilizar a expressão “pervert glasses”, algo como “óculos de pervertido”, para denunciar situações em que a tecnologia é utilizada para registrar mulheres sem que elas compreendam imediatamente que existe uma câmera funcionando.

É justamente essa dificuldade de percepção que diferencia os óculos de outras tecnologias de gravação.

Uma pequena luz deveria avisar sobre a gravação, mas existe um problema

Os óculos da Meta possuem um indicador luminoso destinado a informar às pessoas próximas que uma gravação está acontecendo.

A empresa afirma que a privacidade é considerada desde a concepção do produto e vem implementando mecanismos para impedir gravações quando esse indicador é bloqueado.

Ainda assim, pesquisadores apontam limitações.

A luz pode ser discreta para alguém que não conhece o funcionamento do dispositivo. Além disso, fóruns online já discutiram maneiras de contornar determinadas proteções. Essa combinação pode dificultar que uma pessoa perceba rapidamente que está sendo registrada.

Para os autores do estudo, surge uma espécie de problema estrutural de consentimento.

Com um celular, sacar o aparelho e posicioná-lo diante de alguém produz sinais sociais bastante claros. Com óculos, a pessoa pode simplesmente manter uma conversa enquanto a câmera acompanha exatamente aquilo que ela está olhando.

Isso não torna o dispositivo automaticamente abusivo. Os mesmos equipamentos oferecem funções relevantes, inclusive recursos de acessibilidade capazes de ajudar pessoas com deficiência visual a interpretar o ambiente.

A preocupação está na facilidade com que uma tecnologia útil também pode tornar a gravação clandestina muito mais natural e difícil de identificar.

No Brasil, a discussão já chegou às autoridades

A controvérsia não permaneceu restrita às universidades.

Organizações brasileiras de defesa dos consumidores e dos direitos digitais solicitaram que autoridades investiguem possíveis riscos associados aos óculos inteligentes da Meta. Entre os órgãos acionados estão a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, o Ministério Público Federal e a Secretaria Nacional do Consumidor.

As entidades apontam preocupações relacionadas à LGPD, ao Código de Defesa do Consumidor e à proteção da privacidade, especialmente quando mulheres, crianças e adolescentes podem ser filmados.

O Brasil já possui normas que protegem imagem, intimidade e dados pessoais. O desafio está em determinar como aplicar esses princípios a um dispositivo que pode registrar continuamente aquilo que está diante do usuário sem provocar o mesmo alerta visual de uma câmera convencional.

Essa discussão tende a ficar ainda maior.

Óculos inteligentes estão evoluindo de simples acessórios capazes de fotografar para plataformas que combinam visão computacional, inteligência artificial, memória contextual e interação com o ambiente. Pesquisadores já descrevem essa categoria como uma potencial plataforma de “inteligência em primeira pessoa”.

Quanto mais capacidades forem incorporadas, mais importante será definir limites para aquilo que esses dispositivos podem registrar, reconhecer e armazenar.

A promessa dos óculos inteligentes sempre foi fazer a tecnologia desaparecer diante dos nossos olhos.

O estudo australiano revela o outro lado dessa ideia: quando a câmera também desaparece, talvez as pessoas ao redor deixem de saber quando estão sendo observadas.

[Fonte: O Globo]

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