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Ciência

Uma chuva invisível de químicos persistentes está caindo sobre a Terra e a origem surpreende

Um estudo rastreou a origem de uma substância química extremamente persistente que vem se espalhando pelo planeta em silêncio. E a resposta aponta para compostos que, durante anos, foram tratados como heróis ambientais.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Durante décadas, a história parecia exemplar: o mundo identificou uma ameaça à camada de ozônio, reagiu, baniu compostos perigosos e adotou substitutos considerados mais seguros. Era um raro caso de cooperação global que realmente funcionou. Só que a ciência agora começa a mostrar que esse roteiro talvez tenha deixado um efeito colateral incômodo no ar, na chuva e até em regiões remotas do planeta. O que parecia uma correção bem-sucedida pode estar alimentando outro tipo de contaminação, muito mais discreta e difícil de conter.

Os gases que salvaram a camada de ozônio e agora voltam ao centro do debate

Uma chuva invisível de químicos persistentes está caindo sobre a Terra e a origem surpreende
© https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=515654

Quando os clorofluorcarbonetos, os famosos CFCs, começaram a ser eliminados por causa de seu impacto devastador sobre a camada de ozônio, a substituição parecia um triunfo da política ambiental. O Protocolo de Montreal virou um símbolo de sucesso internacional: os compostos mais nocivos saíram de cena, novos gases entraram em refrigeradores, aparelhos de ar-condicionado e processos industriais, e os sinais de recuperação da camada de ozônio começaram a aparecer.

Parecia, enfim, uma daquelas raras histórias em que a humanidade identifica um erro, corrige a rota e segue adiante. Os substitutos dos CFCs, principalmente os HCFCs e HFCs, passaram a ser vistos como alternativas mais seguras, e durante anos o debate ficou centrado em seus efeitos sobre o clima e sobre a atmosfera.

Agora, porém, um novo estudo liderado pela Lancaster University sugere que essa transição pode ter deixado um rastro menos visível e potencialmente muito mais persistente. Segundo os pesquisadores, esses compostos não desapareceram do problema ambiental. Eles apenas mudaram a forma dele.

A descoberta gira em torno do ácido trifluoroacético, conhecido como TFA, uma substância química extremamente persistente que vem sendo detectada em diferentes partes do planeta. O ponto mais desconfortável da pesquisa é a origem desse composto: ele estaria sendo formado justamente pela decomposição atmosférica de gases usados como substitutos dos CFCs, além de certos gases anestésicos.

A substância “eterna” que está voltando à Terra com a chuva

O TFA pertence à família dos PFAS, grupo de compostos sintéticos apelidados de “químicos eternos” por uma razão simples e preocupante: eles resistem à degradação e podem permanecer no ambiente por períodos muito longos. Isso significa que, uma vez liberados, tendem a se acumular em água, solo, organismos vivos e ecossistemas inteiros sem desaparecer com facilidade.

Os pesquisadores estimam que, entre 2000 e 2022, substitutos dos CFCs e alguns anestésicos tenham depositado cerca de 335,5 mil toneladas de TFA sobre a superfície terrestre. Para chegar a esse número, a equipe usou modelos de transporte químico capazes de acompanhar o caminho desses gases pela atmosfera, observar como eles reagem com outros compostos e calcular como seus subprodutos retornam ao planeta, seja por meio da chuva, seja por deposição direta.

Depois, os resultados foram comparados com medições reais, incluindo amostras de água da chuva e de gelo do Ártico. Foi justamente nessa região remota que surgiu um dos achados mais simbólicos do estudo. Os modelos indicaram que praticamente todo o TFA detectado no gelo ártico poderia ser explicado pela ação desses gases substitutos, mesmo que eles sejam usados a milhares de quilômetros dali.

Esse detalhe importa porque mostra o alcance global do fenômeno. Não se trata de uma contaminação restrita aos locais onde há grande uso de refrigerantes ou sistemas de climatização. Como esses compostos têm vida longa na atmosfera, eles conseguem viajar por grandes distâncias antes de se decompor e formar TFA. Em outras palavras, o problema não fica onde começa.

Segundo a autora principal do estudo, Lucy Hart, pesquisadora de doutorado em Lancaster, os resultados oferecem a primeira evidência conclusiva de que praticamente todos esses depósitos em regiões remotas podem ser explicados pela ação dos gases que substituíram os CFCs. É uma conclusão que muda o tom da conversa: o que antes parecia uma troca ambientalmente resolvida agora se revela parte de uma cadeia química muito mais longa.

Por que o TFA preocupa tanto e o que ainda pode piorar

O incômodo em torno do TFA não vem apenas de sua origem, mas do fato de ele já estar aparecendo em lugares cada vez mais sensíveis. Nos últimos anos, a substância foi detectada em sangue e urina humanos, e a discussão regulatória em torno dela começou a ganhar força na Europa. A agência ambiental alemã propôs classificá-la como potencialmente tóxica para a reprodução humana, enquanto a Agência Europeia de Substâncias Químicas já a considera nociva para a vida aquática.

É verdade que algumas autoridades afirmam que os níveis atualmente observados ainda estão abaixo dos limites considerados perigosos. O problema é outro: o TFA não é uma contaminação pontual e passageira. Ele continua sendo gerado, continua se acumulando e, uma vez no ambiente, é extremamente difícil de remover. É esse caráter cumulativo que assusta pesquisadores.

A situação fica ainda mais complexa porque a produção de TFA a partir desses gases provavelmente nem atingiu seu pico. Como alguns dos compostos substitutos permanecem por décadas na atmosfera, os cientistas estimam que o ápice dessa formação pode ocorrer em algum momento entre 2025 e 2100. Ou seja, parte relevante do problema ainda está em curso.

E há um novo ingrediente nessa história. Os HFOs, promovidos como uma geração mais moderna de refrigerantes com menor impacto climático, também entram na equação. Um deles, o HFO-1234yf, hoje amplamente usado em sistemas de ar-condicionado de veículos, também se decompõe formando TFA. Isso adiciona mais incerteza ao cenário futuro, porque a substituição dos HFCs por HFOs, embora faça sentido do ponto de vista climático, pode manter ou até ampliar a produção desse subproduto persistente.

O que essa pesquisa coloca sobre a mesa é um dilema cada vez mais comum na crise ambiental contemporânea: soluções pensadas para um problema específico podem abrir portas para outro, mais silencioso e difícil de detectar no curto prazo. O planeta conseguiu reagir à ameaça dos CFCs e salvar a camada de ozônio de um colapso ainda maior. Mas agora a conta pode estar chegando de outra forma, dissolvida na chuva, carregada pelo vento e espalhada por lugares tão distantes que já não dá para fingir que o problema pertence só a quem o criou.

[Fonte: meteored]

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