Imagine um lugar onde animais gigantes circulam livremente pela vegetação, praticamente sem interferência humana. Durante décadas, pesquisadores acompanharam esse ecossistema remoto, mas uma nova investigação revelou que sua população era muito maior do que se imaginava. O resultado não apenas estabeleceu um recorde científico, como também mostrou que uma espécie que esteve próxima da extinção conseguiu protagonizar uma das recuperações mais impressionantes da natureza.
Uma ilha remota abriga uma população que surpreendeu os cientistas

No oceano Índico, o atol de Aldabra, pertencente ao arquipélago de Seychelles, abriga aproximadamente 183 mil tartarugas-gigantes terrestres da espécie Aldabrachelys gigantea.
O número é extraordinário por um motivo: existem mais desses animais vivendo livremente no atol do que pessoas em todo o país de Seychelles.
A descoberta foi apresentada em um estudo conduzido pela Seychelles Islands Foundation (SIF), em parceria com pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido.
Publicado em outubro de 2026 na revista científica Ecology and Evolution, o trabalho apresenta a estimativa mais abrangente já realizada sobre a população da espécie em Aldabra.
Os pesquisadores analisaram cinco anos de observações, realizadas entre 2018 e 2022, para calcular quantos animais vivem nas diferentes regiões do atol.
O resultado superou amplamente a estimativa anterior, de aproximadamente 100 mil indivíduos, divulgada no final da década de 1990.
Entretanto, existe um detalhe importante: isso não significa que a população tenha praticamente dobrado em apenas algumas décadas.
Na realidade, os cientistas descobriram que os métodos anteriores provavelmente deixavam de contabilizar milhares de animais escondidos entre a vegetação.
Como os pesquisadores conseguiram contar tantos animais?
Contar tartarugas em um ambiente natural pode parecer uma tarefa relativamente simples. Afinal, esses animais se movimentam lentamente e possuem dimensões consideráveis.
Mas Aldabra apresenta desafios particulares.
O atol possui extensas áreas de vegetação densa, manguezais, arbustos e pastagens. Dependendo do ambiente, muitas tartarugas permanecem praticamente invisíveis aos observadores.
Para superar essa dificuldade, os pesquisadores combinaram registros de campo com um modelo estatístico conhecido como amostragem hierárquica bayesiana por distância.
Essa técnica permite estimar quantos animais provavelmente não foram detectados durante as observações.
Uma tartaruga em uma área aberta, por exemplo, tem maior probabilidade de ser vista do que outra escondida sob arbustos.
Ao considerar essas diferenças, os cientistas conseguiram produzir uma estimativa mais confiável da população total.
Segundo a pesquisa publicada na revista Ecology and Evolution, a população permaneceu relativamente estável durante o período analisado.
As maiores concentrações foram identificadas em pastagens conhecidas como tortoise turf, áreas de vegetação baixa frequentemente utilizadas pelos animais para alimentação.
Os resultados também oferecem uma referência científica importante para acompanhar possíveis mudanças populacionais nas próximas décadas.
A espécie chegou a ter menos de mil indivíduos
A abundância atual contrasta profundamente com a história desses animais.
Durante o século XIX, a exploração humana reduziu drasticamente a população de tartarugas-gigantes de Aldabra.
A caça e a captura intensiva fizeram com que restassem menos de mil indivíduos no atol.
A recuperação começou a ganhar força com medidas de proteção ambiental que restringiram a exploração da região.
Em 1981, Aldabra foi declarado reserva natural estrita. No ano seguinte, passou a integrar a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO.
O isolamento geográfico também contribuiu para preservar o ecossistema.
Localizado longe dos principais centros urbanos, o atol permaneceu relativamente protegido de algumas das transformações humanas que afetaram outros ambientes insulares.
De acordo com a UNESCO, responsável pelo reconhecimento de Aldabra como Patrimônio Mundial, a região representa um laboratório natural excepcional para o estudo da evolução e das relações ecológicas.
As tartarugas desempenham um papel importante nesse equilíbrio, consumindo vegetação e influenciando a distribuição das plantas.
A recuperação da espécie tornou-se um dos exemplos mais expressivos de conservação da biodiversidade no oceano Índico.
Mudanças climáticas e predadores ainda ameaçam as tartarugas
Apesar do resultado positivo, os pesquisadores alertam que a sobrevivência desses animais continua dependendo de medidas de proteção.
Uma das principais preocupações envolve as mudanças climáticas.
O aumento da frequência e da duração das secas pode reduzir a disponibilidade de alimentos e sombra, recursos essenciais para animais de grande porte.
A elevação do nível do mar também representa uma ameaça para as áreas mais baixas do atol.
Outro problema envolve espécies invasoras introduzidas por atividades humanas.
Durante décadas, cabras selvagens prejudicaram a vegetação local. Esses animais foram completamente erradicados em 2012, permitindo a recuperação de diferentes habitats.
Entretanto, gatos ferais e ratos-pretos continuam presentes na região.
Esses predadores podem consumir ovos e filhotes de tartarugas, dificultando a renovação da população.
Os cientistas consideram que a remoção dessas espécies invasoras poderia favorecer ainda mais a recuperação dos répteis.
Uma descoberta que pode ajudar a proteger outras espécies
A importância do estudo ultrapassa as fronteiras de Seychelles.
Aldabra abriga a maior população conhecida de tartarugas-gigantes terrestres vivendo livremente no planeta. Outro local emblemático onde esses animais ainda existem em populações selvagens é o arquipélago de Galápagos, no Equador.
Os resultados mostram como décadas de proteção ambiental podem permitir a recuperação de espécies que estiveram próximas do desaparecimento.
Ao mesmo tempo, demonstram a importância de utilizar métodos científicos capazes de estimar animais que não são facilmente observados.
Para os pesquisadores, os 183 mil indivíduos representam uma referência, não uma garantia de segurança permanente.
A continuidade do monitoramento será fundamental para identificar mudanças provocadas pelo clima, pela disponibilidade de alimentos e pela presença de predadores.
A história de Aldabra mostra que a recuperação de uma espécie ameaçada pode exigir muitas gerações, mas também revela que esforços prolongados de conservação podem produzir resultados extraordinários.