Um ingrediente presente em praticamente todas as cozinhas pode oferecer uma oportunidade para melhorar a saúde pública. Pesquisadores estimam que substituir o sal comum por uma versão enriquecida com potássio poderia evitar quase 3 milhões de mortes por ano no mundo. A proposta mantém o uso do tempero, mas altera sua composição para enfrentar dois problemas da alimentação: o excesso de sódio e a baixa ingestão de potássio.
O que muda na composição do sal

O sal de cozinha convencional é composto principalmente de cloreto de sódio. Nas versões enriquecidas com potássio, o cloreto de potássio substitui parte desse ingrediente, diminuindo a quantidade de sódio no produto.
A mudança pode ajudar no controle da pressão arterial, um importante fator de risco para infartos, acidentes vasculares cerebrais e doenças renais. Segundo a Universidade de Nova Gales do Sul, que participou da pesquisa com o George Institute for Global Health, o substituto tem aparência e uso culinário semelhantes aos do sal comum.
A vantagem está na combinação: reduzir o sódio e aumentar o potássio. Isso permite modificar a alimentação sem depender apenas de convencer as pessoas a abandonar o saleiro.
De onde vem a estimativa de milhões de vidas
O estudo publicado na revista Nature Health avaliou diferentes cenários de substituição em 193 países. No mais abrangente, que inclui tanto o sal doméstico quanto aquele presente em alimentos industrializados e refeições de restaurantes, os pesquisadores projetaram cerca de 2,96 milhões de mortes e 10,17 milhões de novos casos de doenças cardiovasculares e renais evitados anualmente.
Esses números representam estimativas de um modelo. Portanto, não correspondem a mortes que os pesquisadores já observaram diminuir após uma troca mundial do produto.
Mesmo cenários mais limitados apresentaram benefícios potenciais. Substituir apenas o sal usado para cozinhar e temperar em casa poderia evitar aproximadamente 1,85 milhão de mortes por ano. Já a mudança restrita aos alimentos processados e às refeições de restaurantes teria potencial para evitar 1,56 milhão. Os resultados dos dois cenários não devem ser somados diretamente.
A mudança precisa chegar à indústria

O caminho depende dos hábitos alimentares de cada país. Onde as pessoas acrescentam grande parte do sal durante o preparo doméstico, trocar o produto da cozinha pode ter impacto expressivo.
Em outras regiões, a indústria e os restaurantes precisam participar. Na Europa e na América do Norte, mais de 70% do consumo de sal vem de alimentos processados e refeições preparadas fora de casa, segundo os pesquisadores. Ampliar a estratégia também exigiria aumentar a produção de cloreto de potássio.
O substituto não serve para todo mundo
A diretriz da Organização Mundial da Saúde sugere, de forma condicional, que adultos que usam sal de mesa adotem versões com menos sódio e que contenham potássio.
Essa orientação exclui pessoas com comprometimento renal ou condições que dificultem a eliminação de potássio, incluindo o uso de determinados medicamentos. Nesses casos, o mineral pode se acumular no sangue e causar problemas. A recomendação também não se aplica a gestantes e crianças, devido à insuficiência de evidências.
Além disso, trocar o produto não significa poder aumentar a quantidade. A OMS recomenda que adultos consumam menos de 5 gramas de sal por dia, considerando todas as fontes da alimentação. O substituto pode integrar essa redução, mas continua contendo sódio.