Depois de anos de confrontos, sanções e tentativas frustradas de mediação, a guerra na Ucrânia entra em um momento decisivo. Uma cúpula discreta, longe dos holofotes europeus, reúne representantes de Washington, Kiev e Moscou para tratar do que pode ser o último obstáculo antes de um acordo. Os documentos estariam próximos do fim, mas a definição de um território-chave ainda separa o conflito de um desfecho formal.
Uma mesa inédita após quase quatro anos de guerra

Estados Unidos, Ucrânia e Rússia iniciaram nesta sexta-feira a primeira reunião trilateral desde o início da guerra, que se aproxima de completar quatro anos. O encontro acontece em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e segue até sábado, marcando uma mudança significativa no formato das negociações.
Até agora, os contatos vinham ocorrendo de forma indireta, com mediações parciais ou diálogos bilaterais. Desta vez, porém, as três partes participam do mesmo processo, ainda que sem a presença direta de seus chefes de Estado. Para o governo americano, a nova rodada consolida o papel dos EUA como principal articulador de uma saída negociada para o conflito.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou que o foco central das conversas será o controle territorial da região de Donbas, no leste da Ucrânia. Segundo ele, trata-se do ponto mais sensível e também do último grande tema pendente antes de um acordo final.
Donbas: o território que trava o acordo
A região de Donbas ocupa posição estratégica tanto militar quanto simbolicamente. Desde o início da guerra, ela se tornou um dos principais palcos de confrontos e, ao longo do tempo, passou a representar mais do que uma simples linha no mapa.
Antes mesmo do início da reunião, Moscou voltou a deixar clara sua posição. O Kremlin reiterou que qualquer acordo de paz exige a retirada das forças ucranianas de toda a região. O porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, afirmou que essa condição é indispensável para que o presidente Vladimir Putin aceite encerrar o conflito.
A declaração reforçou a percepção de que, apesar do discurso de abertura ao diálogo, a Rússia continua disposta a negociar apenas sob seus próprios termos. Para Kiev, por outro lado, ceder territórios que ainda estão sob controle ucraniano é uma linha vermelha difícil de atravessar.
Quem negocia e o que ainda não se sabe
A cúpula em Abu Dhabi ocorre em um formato técnico e reservado. Até a última atualização, não foram divulgados todos os detalhes da pauta nem o conteúdo específico dos textos em discussão. Sabe-se apenas que os líderes dos três países não participam diretamente desta fase.
A delegação russa é chefiada pelo almirante Igor Kostyukov, enquanto os ucranianos e americanos enviaram equipes de alto nível ligadas à diplomacia e à segurança nacional. O objetivo declarado é reduzir as divergências técnicas antes de um eventual encontro político de maior peso.
Para os Estados Unidos, a questão territorial é o último grande entrave. Segundo negociadores americanos, todos os outros pontos — como cessar-fogo, garantias de segurança e mecanismos de monitoramento — já estariam alinhados em versões preliminares dos documentos.
Textos avançados e garantias de segurança
Zelensky afirmou que os documentos para encerrar a guerra estão “quase prontos”. A declaração veio após uma reunião com o presidente Donald Trump, realizada à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos.
Segundo o líder ucraniano, houve consenso sobre as garantias de segurança que os EUA ofereceriam à Ucrânia no cenário pós-guerra. Entre os temas discutidos estariam o fornecimento de sistemas de defesa aérea e compromissos para evitar uma nova escalada militar no futuro.
Zelensky também adotou um tom crítico em relação à Europa, acusando aliados de falta de ação mais efetiva ao longo do conflito. Para ele, a independência e a segurança da Ucrânia são fundamentais para que o continente consiga se defender de ameaças futuras.
Pressão diplomática em duas frentes
Enquanto a reunião em Abu Dhabi avançava, a diplomacia americana também atuava em Moscou. O enviado especial de Trump para a guerra, Steve Witkoff, encontrou-se com Putin em uma reunião noturna com o objetivo de destravar o impasse final.
Após o encontro, Witkoff indicou que um acordo pode estar próximo, mas evitou detalhar concessões ou prazos. Segundo ele, resta apenas uma questão central a ser resolvida entre russos e ucranianos — uma afirmação que reforça a centralidade do debate territorial.
Trump, por sua vez, voltou a sugerir que o fim da guerra pode estar próximo, embora declarações semelhantes já tenham sido feitas anteriormente. Ainda assim, o fato de negociações diretas ocorrerem em paralelo indica que o momento é tratado como especialmente sensível.
Um desfecho próximo, mas ainda incerto
Apesar do avanço inegável em relação a tentativas anteriores, o caminho até o fim da guerra permanece delicado. A combinação de documentos quase finalizados e exigências territoriais rígidas cria um cenário em que qualquer concessão pode ter alto custo político interno.
A reunião trilateral não garante um acordo imediato, mas representa um ponto de inflexão. Pela primeira vez, os três lados discutem simultaneamente os termos de um possível encerramento do conflito. Se Donbas deixará de ser o principal campo de batalha para se tornar parte de um compromisso diplomático, é algo que deve ficar mais claro nas próximas horas.
[Fonte: G1 – Globo]