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União Europeia busca transformar o “inimigo marinho” do Caribe em uma nova fonte de energia limpa

Após uma década de invasão de sargaço nas praias caribenhas, a União Europeia aposta em investimentos bilionários para converter a alga em biomassa útil. Cientistas alertam: o tempo está se esgotando para evitar o colapso ambiental e econômico da região.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Caribe vive há mais de dez anos uma crise ecológica silenciosa. As águas turquesa que antes atraíam milhões de turistas agora se cobrem, a cada temporada, de uma espessa camada de sargaço, uma alga marrom que invade as praias, sufoca corais e causa prejuízos milionários.
Em resposta, a União Europeia organizou em Bruxelas a Terceira Conferência UE-Caribe sobre o Sargaço, com um objetivo ambicioso: transformar o desastre ambiental em oportunidade econômica, estimulando grandes investimentos em tecnologias capazes de converter a alga em biomassa e biocombustíveis.

Um problema que não para de crescer

“O tempo está acabando”, alerta a bióloga Brigitta van Tussenbroek, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
Especialista em ecossistemas marinhos, ela explica que o sargaço — originário do Mar dos Sargaços, no Atlântico Norte — começou a invadir as costas caribenhas em 2011 e se tornou um problema grave a partir de 2014.
Hoje, diz, as comunidades costeiras enfrentam riscos de saúde devido ao gás sulfídrico liberado pela decomposição da alga, enquanto os turistas fogem das praias tomadas por mau cheiro e toneladas de resíduos.

“Os moradores do Caribe já não podem passar o fim de semana na praia. Os aparelhos eletrônicos estragam com a corrosão, e a biodiversidade está desaparecendo”, explica a pesquisadora, que defende investimentos urgentes e coordenação internacional para conter a crise.

O custo de uma maré tóxica

Segundo a organização mexicana The Sea We Love, apoiada pela Associação de Hotéis da Riviera Maia, o custo anual da remoção do sargaço durante os meses de pico (entre seis e nove por ano) chega a 130 milhões de dólares.
Mas esse valor é apenas a ponta do iceberg. “Não inclui as perdas com o turismo, nem o impacto ecológico”, alerta Tussenbroek. “E esse cálculo é apenas para a Riviera Maia — muitas outras regiões do Caribe estão abandonadas.”

O acúmulo do sargaço sufoca os corais e agrava a morte em massa dos recifes, que protegem a costa de furacões. “Entre 80% e 90% dos corais mexicanos já estão mortos”, lamenta a bióloga.

Soluções que começam a dar frutos

Apesar do cenário alarmante, iniciativas locais mostram que é possível transformar o problema em oportunidade.
A plataforma Sargatech, criada por The Sea We Love, recolhe o sargaço e o converte em biometano, bioestimulantes e biogás.
Na República Dominicana, a empresa SOS Biotech coleta o material ainda no mar e o transforma em adubo orgânico.
Em Barbados, foi lançado o primeiro veículo movido a gás natural derivado do sargaço, enquanto Guadalupe monitora a qualidade do ar e Martinica desenvolve sistemas de compostagem e refino energético.
Já a Jamaica criou um sistema de alerta para ondas de sargaço, mobilizando as comunidades costeiras para a coleta e proteção da saúde pública.

Bruxelas quer escalar o modelo

Sargaso
© Brian Lapointe, FAU Harbor Branch

A União Europeia pretende ampliar essas soluções em larga escala. No marco do programa Global Gateway, o projeto “Cadeia de Valor do Sargaço” busca reunir governos, empresas, bancos e cientistas para criar parcerias público-privadas que financiem tecnologias sustentáveis e gerem renda local.
“Precisamos transformar o sargaço em valor econômico e, ao mesmo tempo, proteger o meio ambiente”, disse um porta-voz da Comissão Europeia.

Segundo Tussenbroek, o desafio está em passar das pequenas experiências ao investimento industrial. “Há projetos promissores, mas todos em escala reduzida. O que falta é confiança no retorno econômico. Por isso, a fase inicial precisa de investimentos altruístas, focados na sustentabilidade.”

Uma corrida contra o tempo

Enquanto as discussões avançam, o Caribe continua sofrendo. As praias erodidas, os recifes destruídos e as comunidades dependentes do turismo mostram que a janela de ação está se fechando.
“Se não houver compromisso real nesta conferência, perderemos não só a biodiversidade, mas também o modo de vida das pessoas que dependem do mar”, adverte Tussenbroek.

A mensagem da cientista é clara: o sargaço não é apenas um problema ambiental — é um alerta de colapso iminente. E a resposta da Europa pode definir se a região caribenha viverá uma nova era de inovação verde ou uma década perdida no mar de algas.

 

[ Fonte: DW ]

 

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