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Ciência

Vale do Silício vai transformar esgoto em água potável a um ritmo de 757 litros por minuto

Nova instalação na Califórnia testará tecnologias capazes de transformar águas residuais municipais em uma fonte segura e constante de abastecimento
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Tempo de leitura: 4 minutos

Transformar água que passou pelo esgoto em água potável ainda pode causar estranhamento. No Vale do Silício, porém, essa ideia está prestes a ganhar um importante laboratório. Uma nova instalação será capaz de purificar até 757 litros de águas residuais por minuto usando diferentes etapas de tratamento avançado.

O projeto Pure Water Silicon Valley pretende demonstrar a viabilidade da chamada reutilização potável direta. A tecnologia recupera água que já circulou pelas cidades, passa por tratamento convencional e depois recebe uma purificação muito mais rigorosa.

O objetivo não é criar água nova, mas aproveitar várias vezes aquela que já está disponível. Em uma região pressionada por secas, mudanças climáticas e crescimento da demanda, isso pode representar uma fonte de abastecimento mais previsível.

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© Pexels

A Valley Water contratou a AECOM para projetar a Pure Water Silicon Valley Demonstration Facility. A instalação será construída no atual Silicon Valley Advanced Water Purification Center, na Califórnia.

A capacidade máxima será de aproximadamente 757 litros por minuto. Caso operasse continuamente nesse ritmo, seriam cerca de 1,09 milhão de litros por dia.

Apesar dos números, inicialmente não será uma enorme fábrica destinada a enviar toda essa água diretamente para as torneiras.

Trata-se de uma planta demonstrativa. Sua missão será testar tecnologias, analisar a qualidade da água e gerar dados para uma futura instalação comercial muito maior.

A água não vem diretamente do esgoto

Um ponto importante é entender de onde vem a água utilizada no processo.

A instalação receberá águas residuais municipais que já passaram por tratamento secundário. Portanto, o conteúdo do esgoto não será simplesmente enviado diretamente para membranas de osmose reversa.

Primeiro, sistemas convencionais removem sólidos, matéria orgânica e diversos contaminantes. Depois começa uma etapa muito mais avançada de purificação.

O centro já existente utiliza tecnologias como microfiltração, osmose reversa e desinfecção com radiação ultravioleta para produzir água altamente purificada.

Atualmente, parte desse recurso é combinada com água reciclada destinada a aplicações não potáveis, como irrigação e alguns processos industriais.

A nova instalação pretende avançar para outro nível.

O salto para a reutilização potável direta

Existem diferentes maneiras de reinserir água purificada no sistema de abastecimento.

Na reutilização potável indireta, ela pode passar primeiro por um reservatório ou aquífero. Essa etapa funciona como uma barreira ambiental antes de uma nova captação e tratamento.

A reutilização direta reduz essa separação.

Depois de atravessar múltiplas barreiras de tratamento e sistemas de controle, a água pode ser incorporada ao abastecimento público ou à água bruta imediatamente antes de uma estação de tratamento.

Isso permite criar sistemas mais compactos e aproveitar um recurso produzido continuamente pelas próprias cidades.

A Califórnia abriu caminho para essa possibilidade ao aprovar, em dezembro de 2023, suas regulamentações para reutilização potável direta. As normas entraram em vigor em outubro de 2024.

Segurança não depende de um único filtro

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© Alfred Kenneally- Unsplash

Um dos pontos centrais do projeto será testar diferentes tecnologias de purificação.

Nesse tipo de sistema, a segurança depende de várias barreiras sucessivas. Cada etapa remove ou neutraliza determinados microrganismos, produtos químicos e outros contaminantes.

A osmose reversa desempenha um papel importante. Suas membranas conseguem separar sais dissolvidos, compostos orgânicos e diversas outras substâncias presentes na água.

Outros processos físicos e de desinfecção complementam o tratamento. Sensores e controles contínuos também precisam identificar rapidamente qualquer desvio.

A filosofia é simples: a segurança nunca pode depender de apenas uma etapa.

O maior projeto ainda está por vir

A planta demonstrativa representa apenas uma parte de um plano muito maior.

Valley Water e as cidades de San José e Santa Clara estudam uma futura instalação de reutilização potável direta em escala comercial.

Antes disso, ainda existem desafios técnicos. Um deles envolve o concentrado produzido pela osmose reversa.

O processo gera água purificada, mas também uma corrente na qual ficam concentradas muitas das substâncias removidas pelas membranas. Encontrar uma maneira ambientalmente adequada de gerenciar esse material será fundamental para ampliar a tecnologia.

A planta piloto permitirá estudar esse e outros problemas antes de investir em uma infraestrutura muito maior.

O projeto também precisará convencer a população

Além da parte tecnológica, o complexo terá um centro educacional de aproximadamente 929 metros quadrados, preparado para receber energia solar e buscar certificação ambiental LEED.

O espaço deverá explicar ao público como funciona a purificação e mostrar os controles utilizados para garantir a qualidade da água.

Essa transparência é especialmente importante porque a reutilização potável enfrenta uma barreira que não é tecnológica: a percepção das pessoas.

Mesmo quando a água atende aos requisitos sanitários, saber que sua origem envolve esgoto pode gerar rejeição.

Por isso, o projeto funcionará quase como dois laboratórios ao mesmo tempo: um para testar a tecnologia e outro para aumentar a confiança pública.

Uma fonte que não depende tanto da chuva

Reservatórios dependem das chuvas. Aquíferos precisam ser recarregados e a quantidade de neve acumulada nas montanhas pode diminuir com temperaturas mais altas.

As águas residuais urbanas possuem outra característica: enquanto cidades continuarem consumindo água, haverá um fluxo relativamente constante disponível para recuperação.

O sistema tradicional segue uma trajetória linear: captar, utilizar, tratar e descartar.

A reutilização avançada propõe um ciclo diferente: captar, utilizar, tratar, purificar e utilizar novamente.

Os 757 litros por minuto da instalação piloto são apenas o começo. Se os testes demonstrarem que o processo é seguro, estável e economicamente viável, o Vale do Silício poderá utilizar os resultados para construir uma instalação muito maior.

Em um futuro marcado por secas mais intensas e maior pressão sobre os recursos hídricos, talvez uma das fontes mais valiosas de água esteja justamente naquela que as cidades já usaram uma vez.

 

[ Fonte: EcoInventos ]

 

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