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Vitória trabalhista de Milei muda clima com empresários na Argentina

Vitória legislativa anima o governo e aproxima empresários, enquanto sindicatos já articulam reação — e o impacto da reforma pode redefinir o jogo econômico e social.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A aprovação de uma ampla reforma trabalhista abriu um novo capítulo na relação entre o governo argentino e o setor produtivo. Celebrada pelo presidente Javier Milei como uma vitória estratégica, a medida promete alterar regras históricas do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, sindicatos sinalizam que a disputa está longe do fim. O que se desenha é um cenário de ganhos políticos, tensões sociais e expectativas econômicas elevadas.

Governo comemora avanço e busca consolidar apoio

O presidente Javier Milei celebrou publicamente a aprovação da reforma trabalhista pela Câmara dos Deputados, ocorrida na madrugada de sexta-feira (20), antes mesmo de retornar de sua 14ª viagem aos Estados Unidos. Nas redes sociais, ele compartilhou mensagens elogiosas ao governo e ironizou críticos que duvidavam de sua capacidade de implementar mudanças estruturais.

A votação contou com 135 votos favoráveis e 115 contrários. A secretária-geral da Presidência, Karina Milei, irmã do presidente, acompanhou de perto a sessão que garantiu o avanço do projeto.

Com mais de 200 artigos, a proposta introduz mudanças profundas nas relações de trabalho. Entre os pontos centrais estão a redução das indenizações por demissão, a possibilidade de fracionamento das férias e a ampliação da jornada diária para até 12 horas, desde que respeitado o período de descanso.

O texto, porém, retornou ao Senado após a retirada de um artigo que previa redução na remuneração durante licenças médicas. A nova análise já está na Comissão de Trabalho e Bem-Estar Social. A líder governista Patricia Bullrich afirmou esperar aprovação na sessão prevista para a próxima sexta-feira (27).

Para a Presidência, a reforma representa um passo decisivo para estimular o emprego formal, reduzir a informalidade e modernizar a legislação trabalhista.

Empresários voltam a se aproximar do governo

A reforma era considerada uma das principais batalhas legislativas da atual gestão e tem potencial para reaproximar Milei de grandes grupos empresariais — relação que vinha marcada por momentos de tensão.

Apesar de ter construído parte da carreira na Corporación América, do empresário Eduardo Eurnekian, Milei já fez críticas públicas ao setor privado, chegando a acusar empresas de manter “negócios duvidosos” com o Estado. Também rebateu reclamações sobre seu programa de abertura econômica, sugerindo falta de competitividade de algumas companhias locais.

Antes mesmo da votação, o ministro da Economia, Luis Caputo, havia cobrado apoio mais explícito do empresariado, sobretudo às medidas que reduzem custos de contratação. Em uma publicação, ele afirmou ter ficado surpreso com a falta de celebração do setor após cortes de até 85% em encargos para novos empregos.

Com o avanço do projeto, o chamado Grupo dos Seis — que reúne as principais entidades empresariais do país — manifestou apoio à iniciativa e criticou a greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT).

As entidades destacaram que a nova legislação pode ampliar a formalização, dar previsibilidade jurídica e aumentar a competitividade da economia argentina. Organizações como Adeba, Bolsa de Valores de Buenos Aires, CAC, Camarco, SRA e UIA assinaram o posicionamento conjunto.

Posteriormente, a Câmara de Comércio e Serviços da Argentina (CAC) e a Copal também pediram que o Senado transforme a proposta em lei. Segundo Mario Grinman, presidente da CAC, a redução das contribuições patronais tende a estimular a geração de empregos formais.

Sindicatos se mobilizam e tensão continua

Do lado sindical, o clima é de alerta e preparação para novos confrontos políticos. A cúpula da CGT deve se reunir nos próximos dias para definir os próximos passos após a quarta greve geral realizada durante o governo Milei.

A paralisação testou a força da nova direção da central, que assumiu o comando em novembro. Inicialmente vista com desconfiança, a greve ganhou peso com a adesão dos motoristas de ônibus — categoria considerada chave para o impacto nacional do movimento.

Entre os pontos mais sensíveis da reforma estão:

  • Jornada de trabalho ampliada para até 12 horas diárias (com descanso correspondente)
  • Possibilidade de dividir férias em períodos mínimos de sete dias
  • Mudanças na indenização por demissão, sem inclusão de 13º e bônus
  • Ampliação das atividades consideradas essenciais durante greves (exigindo 75% de operação)
  • Flexibilização do banco de horas
  • Perda de validade automática de acordos coletivos vencidos, exceto cláusulas de condições de trabalho

Para os sindicatos, essas mudanças podem fragilizar direitos históricos dos trabalhadores. Para o governo e o empresariado, representam uma modernização necessária.

Com a nova votação no Senado se aproximando, a reforma trabalhista se consolida como um dos testes políticos mais importantes da gestão Milei — e seus efeitos podem redefinir o equilíbrio entre governo, empresas e trabalhadores na Argentina.

[Fonte: Jornal de Brasilia]

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