O pesquisador James Higgins, professor de Aviação na Universidade de Dakota do Norte, explica em artigo publicado no portal The Conversation que o segredo por trás da segurança aérea moderna não está apenas na tecnologia, mas em compartilhar dados e eliminar a competição em torno da segurança.
De acidentes a previsões: como a aviação aprendeu com os erros
Desde que os irmãos Wright realizaram o primeiro voo motorizado em 1903, estima-se que mais de 185 mil pessoas tenham morrido em acidentes de aviação civil. Hoje, porém, a chance de morrer em um voo comercial nos Estados Unidos é menor que 1 em 98 milhões — estatisticamente mais fácil ganhar na loteria do que sofrer um acidente aéreo.
Esse salto de segurança foi resultado de um processo longo e doloroso. Cada acidente foi estudado minuciosamente, suas causas identificadas e novas medidas implementadas para evitar repetições. No início, o sistema era totalmente reativo — aprendia-se apenas após as tragédias.
A virada ocorreu em 1938, quando o presidente Franklin D. Roosevelt criou a Civil Aeronautics Authority, antecessora da atual Administração Federal de Aviação (FAA). A partir daí, o setor passou a padronizar operações e estabelecer investigações sistemáticas.
No fim do século XX, a abordagem evoluiu: em 1997, nasceu o Commercial Aviation Safety Team (CAST), um grupo que reúne empresas aéreas, sindicatos, NASA e órgãos reguladores. O princípio básico era simples e radical: não existe concorrência em segurança. As companhias passaram a compartilhar dados abertamente, analisando tendências e riscos potenciais antes que se transformassem em acidentes.
O poder dos dados e da transparência

Hoje, cada voo comercial gera milhares de pontos de dados — velocidade, altitude, desempenho de motores, desvios de rota, e muito mais. Essas informações, antes usadas apenas para investigações pós-acidente, agora servem para prevenir falhas.
Cientistas de segurança aérea utilizam esses registros para identificar padrões de risco — por exemplo, aproximações de pouso com velocidade excessiva ou ângulos incorretos. Se um comportamento perigoso se repete, ele é detectado antes de causar uma tragédia.
Além disso, pilotos, controladores e técnicos podem relatar incidentes de forma anônima, sem punições. Esse modelo de confiança é essencial: sem medo de retaliação, os profissionais informam problemas com mais frequência, permitindo uma análise sistêmica e preditiva.
O resultado? A aviação se tornou o exemplo mais bem-sucedido de como dados e cooperação podem salvar vidas.
O que a IA pode aprender com os céus
A inteligência artificial vive hoje um momento parecido com o da aviação em seus primeiros anos: um avanço tecnológico rápido, adoção global e riscos imprevisíveis. Desde carros autônomos e diagnósticos médicos até sistemas judiciais e contratações, a IA já demonstrou poder — e perigo.
As empresas de tecnologia tentam criar mecanismos de segurança, mas agem de forma isolada e reativa, reagindo apenas depois que ocorrem erros graves. Higgins propõe que o setor crie um “CAST da IA” — uma organização neutra que reúna empresas, universidades e órgãos reguladores para coletar dados, compartilhar incidentes e identificar riscos de maneira colaborativa.
Ele sugere ainda a criação de um botão universal de reporte em todas as interfaces de IA, permitindo que usuários denunciem respostas alucinatórias, vieses ou comportamentos perigosos. Esses dados seriam centralizados e analisados, de modo semelhante ao que ocorre com os relatórios de voo.
Segurança através da colaboração
A grande lição da aviação é que a segurança não se constrói em segredo. Ela nasce da transparência, da análise coletiva de falhas e da disposição para aprender com os erros. Se a indústria da IA adotar princípios semelhantes — dados abertos, cooperação e foco na prevenção —, poderá evitar desastres antes que aconteçam.
Como conclui Higgins, “a aviação levou um século para se tornar quase infalível. Se a IA aprender com esse modelo, pode alcançar segurança em muito menos tempo — e salvar vidas no processo.”