Quando o metaverso deixou de parecer o futuro inevitável da tecnologia, Mark Zuckerberg decidiu mudar radicalmente o rumo da Meta. A nova aposta foi clara e quase total: inteligência artificial. Infraestrutura bilionária, corrida agressiva por talentos e um nome escolhido para simbolizar essa virada. Mas apenas seis meses depois, o experimento começa a revelar fissuras internas que podem custar caro.
Uma contratação para redefinir o futuro da Meta

Zuckerberg vem repetindo há meses que a inteligência artificial é “a tecnologia mais importante da nossa era”. Para ele, isso se traduziu em uma guinada estratégica dentro da Meta. Após o fracasso relativo do metaverso, a empresa passou a canalizar bilhões de dólares para data centers, chips especializados e equipes dedicadas à IA de ponta.
O movimento mais simbólico dessa ofensiva foi a contratação de Alexandr Wang, fundador da Scale AI. Jovem, bilionário e bem conectado no Vale do Silício, Wang foi escolhido para comandar o recém-criado Meta Superintelligence Lab, responsável por desenvolver modelos de IA de “fronteira”. O custo da operação — entre salário, bônus e incentivos — teria chegado a cerca de US$ 10 milhões.
A urgência por trás da aposta
O contexto explica a pressa. Em 2024 e 2025, a Meta ficou atrás de rivais como OpenAI e Google no desenvolvimento de modelos avançados. Embora os modelos LLaMA tenham gerado interesse, internamente eles foram vistos como insuficientes para reposicionar a empresa na liderança do setor.
Havia também problemas estruturais: equipes fragmentadas, disputas internas entre pesquisadores e ausência de uma visão clara de longo prazo para a IA. A resposta de Zuckerberg foi concentrar decisões e apostar em um líder externo, capaz de imprimir velocidade e ambição ao projeto.
Microgestão e choque de culturas
Na prática, a integração de Wang à Meta não foi tranquila. Fontes internas relatam que o novo chefe de IA passou a se queixar, em conversas privadas, do estilo de gestão extremamente centralizador de Zuckerberg. O CEO acompanha de perto decisões técnicas, prioridades de produto e até a organização dos times.
Dentro da empresa, esse comportamento ganhou um apelido irônico: o “Olho de Sauron”. Quando Zuckerberg fixa sua atenção em um projeto, tudo passa a girar em torno dele. Para alguns veteranos, esse método já foi responsável por acertos estratégicos no passado. Para outros, hoje ele gera desgaste e paralisa iniciativas.
Wang, acostumado à autonomia de uma startup, encontrou uma realidade diferente em uma megacorporação onde quase tudo exige validação direta do fundador.
Liderança sob questionamento

As tensões não se limitam ao estilo de comando. Parte dos funcionários questiona se Wang tem experiência suficiente para liderar uma operação de IA do tamanho e da complexidade da Meta. A Scale AI se destacou pelo fornecimento de dados rotulados para treinar modelos — não pela criação dos próprios modelos de linguagem.
Agora, Wang precisa coordenar equipes que tentam competir com os sistemas mais avançados do mundo. As dúvidas aumentaram após a saída de Yann LeCun, cientista-chefe de IA da Meta e vencedor do Prêmio Turing. Colocado sob a supervisão de Wang, LeCun discordava abertamente da aposta excessiva em grandes modelos de linguagem e deixou a empresa há cerca de um mês.
Para muitos, sua saída simboliza a troca da pesquisa de longo prazo por resultados rápidos e visíveis.
Pressão máxima e produtos apressados
O clima de urgência se espalhou por outras áreas. Nat Friedman, ex-CEO do GitHub, também enfrentou pressões ao liderar a integração da IA nos produtos da Meta. O lançamento acelerado da plataforma Vibes, focada em vídeos gerados por IA, gerou insatisfação interna.
A diretriz vinda do topo é clara: chegar antes dos concorrentes, mesmo que isso signifique lançar produtos inacabados. O resultado tem sido uma sequência de reorganizações, demissões pontuais e um ambiente descrito por funcionários como instável.
Bilhões em jogo e pouco espaço para erro
O pano de fundo financeiro amplifica o risco. A Meta elevou seus gastos de capital a níveis históricos, financiando centros de dados, chips e infraestrutura com uma combinação de caixa e dívida. Investidores acompanham com cautela a redução da liquidez, enquanto Zuckerberg insiste que o maior erro seria investir pouco.
Nesse cenário, o sucesso ou fracasso da parceria entre Zuckerberg e Wang pode definir o futuro da empresa. O laboratório de superinteligência prepara um novo modelo de IA desenvolvido do zero, com lançamento previsto para os próximos meses.
Se funcionar, a Meta pode recuperar prestígio tecnológico. Se falhar, a tensão interna pode resultar em nova fuga de talentos — e em um duro recado dos acionistas após mais uma aposta bilionária que não entregou o prometido.
[ Fonte: GenBeta ]