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Ciência

A Antártida congelou por um motivo escondido sob a Terra: cientistas descobrem a origem da maior camada de gelo do planeta

Um novo estudo revela que a glaciação da Antártida não começou por causa de mudanças na atmosfera, mas devido a um gigantesco soerguimento tectônico ocorrido ao longo de milhões de anos. A descoberta ajuda a explicar por que o continente congelou quando a Terra ainda era muito mais quente do que hoje.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A Antártida se transformou em um imenso deserto de gelo cerca de 34 milhões de anos atrás, muito antes de o Ártico desenvolver suas grandes camadas de gelo. O mais surpreendente é que isso aconteceu em um período em que a temperatura média global era aproximadamente 5 °C superior à atual.

Agora, uma pesquisa liderada pela Universidade de Southampton, em parceria com instituições da Alemanha, dos Países Baixos e da Itália, aponta uma explicação inédita para esse fenômeno. Publicado na revista Science, o estudo conclui que a origem da glaciação estava nas profundezas da Terra e não nas mudanças da atmosfera.

O segredo da glaciação estava no interior da Terra

Gelo Do Planeta
© John Yunker – Unsplash

Os pesquisadores descobriram que a separação entre a Antártida e a África, iniciada durante o período Jurássico, desencadeou um gigantesco processo geológico que elevou lentamente a superfície da Antártida Oriental.

Esse movimento começou entre 201 e 143 milhões de anos atrás e continuou por cerca de 100 milhões de anos. Como resultado, grandes áreas do continente atingiram altitudes elevadas o suficiente para que a neve passasse a permanecer durante todo o ano.

Segundo Thomas Gernon, professor de Ciências da Terra da Universidade de Southampton e principal autor do estudo, a superfície da Antártida subiu gradualmente até alcançar uma altitude capaz de sustentar gelo permanente, mesmo enquanto os oceanos polares e o restante do planeta continuavam relativamente quentes.

Hoje, a camada de gelo da Antártida Oriental é a maior da Terra. Ela armazena água suficiente para elevar o nível global dos oceanos em cerca de 52 metros caso derreta completamente.

Ondas do manto moldaram a paisagem antártica

Para reconstruir essa história, a equipe utilizou modelos computacionais capazes de simular a evolução da Antártida Oriental ao longo dos últimos 100 milhões de anos.

As simulações indicam que correntes de rocha quente, conhecidas como “ondas do manto”, surgiram após a ruptura das placas tectônicas e empurraram lentamente a crosta terrestre para cima.

Esse processo formou uma extensa região elevada e contribuiu para o surgimento das montanhas Gamburtsev, uma cadeia montanhosa completamente escondida sob quilômetros de gelo.

Os modelos mostram que, há cerca de 45 milhões de anos, boa parte da paisagem já ultrapassava os 2 mil metros de altitude. Esse foi um ponto decisivo para a formação da camada de gelo.

Como a temperatura diminui aproximadamente 1 °C a cada 100 metros de elevação, essas regiões passaram a permanecer frias durante todo o ano, impedindo que a neve acumulada derretesse no verão.

Ao longo de milhões de anos, os glaciares cresceram e, há cerca de 34 milhões de anos, se uniram para formar o enorme manto de gelo que cobre a Antártida até hoje.

O efeito albedo acelerou o resfriamento do planeta

Depois que a camada de gelo começou a se expandir, entrou em ação outro mecanismo climático importante.

O gelo reflete uma parcela muito maior da luz solar de volta ao espaço do que superfícies escuras. Esse fenômeno, conhecido como efeito gelo-albedo, intensificou o resfriamento da região.

Segundo Philip Goodwin, físico do clima da Universidade de Southampton e coautor da pesquisa, esse processo reduziu a temperatura média global em cerca de 1 °C.

Ao mesmo tempo, o ar mais frio passou a reter menos vapor d’água, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa natural da Terra. Com menos vapor na atmosfera, o planeta perdeu parte desse isolamento térmico, favorecendo um resfriamento ainda maior.

Esses mecanismos trabalharam em conjunto para permitir que a camada de gelo avançasse das áreas montanhosas até alcançar toda a costa antártica.

A descoberta pode mudar o entendimento sobre as eras do gelo

Glaciares P
© Unsplash

Apesar do forte resfriamento na Antártida, o mesmo não ocorreu no Hemisfério Norte naquele período.

Segundo os pesquisadores, isso aconteceu porque as massas continentais da região ártica apresentavam altitudes menores, insuficientes para sustentar grandes camadas permanentes de gelo.

Para os autores, o estudo mostra que os processos geológicos internos desempenham um papel muito mais importante na evolução do clima terrestre do que se imaginava.

Em vez de serem apenas consequência das mudanças climáticas, as grandes glaciações também podem depender da forma como o relevo dos continentes evolui ao longo de dezenas de milhões de anos.

Essa nova compreensão pode ajudar os cientistas a reconstruir com maior precisão a história das antigas eras do gelo e a identificar possíveis pontos de inflexão que poderão influenciar o futuro do sistema climático da Terra.

 

[ Fonte: DW ]

 

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