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Ciência

IA criada para explorar Marte faz descoberta surpreendente escondida no fundo do oceano

Uma tecnologia desenvolvida para analisar outro planeta acabou revelando estruturas que permaneceram invisíveis por décadas sob os oceanos. A descoberta pode mudar a forma como exploramos o fundo do mar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Grande parte do nosso planeta continua praticamente desconhecida. Embora satélites tenham transformado o estudo da superfície terrestre, os oceanos ainda escondem paisagens inteiras que nunca foram observadas em detalhes. Agora, uma equipe internacional encontrou uma maneira curiosa de acelerar essa exploração: adaptar uma inteligência artificial criada para procurar crateras em Marte. O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores e abriu uma nova fronteira para o estudo da geologia submarina.

Um algoritmo espacial acabou olhando para o fundo do mar

A maior parte da atividade vulcânica da Terra acontece longe dos nossos olhos, sob milhares de metros de água. Mapear esse ambiente é uma tarefa complexa, cara e extremamente demorada, já que depende de campanhas oceanográficas, embarcações especializadas e equipamentos de alta precisão.

Foi justamente para contornar essa limitação que pesquisadores decidiram recorrer à inteligência artificial. Em vez de criar um sistema do zero, eles adaptaram um algoritmo originalmente desenvolvido para identificar crateras de impacto na superfície de Marte.

A lógica fazia sentido. Tanto crateras quanto caldeiras vulcânicas apresentam formas circulares ou semicirculares que podem ser reconhecidas em modelos digitais do relevo. No entanto, existia uma diferença importante: enquanto crateras costumam aparecer como depressões em terrenos relativamente planos, caldeiras submarinas normalmente surgem sobre grandes montanhas vulcânicas escondidas sob o oceano.

Por isso, o algoritmo precisou ser modificado para reconhecer não apenas cavidades, mas também elevações associadas a estruturas vulcânicas.

Os pesquisadores utilizaram mapas batimétricos globais — representações do relevo do fundo dos oceanos — concentrando a busca em aproximadamente 43 mil montes submarinos já catalogados. A estratégia permitiu analisar áreas gigantescas em um tempo muito menor do que seria possível utilizando apenas métodos convencionais.

Os resultados mostraram que boa parte do relevo submarino ainda guarda estruturas que nunca haviam sido oficialmente identificadas.

Fundo Do Oceano2
© Verolino et al., Commun. Earth Environ., 2026

Da inteligência artificial à confirmação dos vulcões ocultos

Apesar da eficiência da IA, o trabalho não terminou quando o algoritmo concluiu sua análise.

Inicialmente, o sistema identificou mais de 87 mil possíveis formações circulares espalhadas pelos oceanos. Em seguida, filtros geomorfológicos eliminaram a maior parte dos falsos positivos, reduzindo essa lista para pouco mais de 500 candidatos.

Foi então que entrou o trabalho dos especialistas. Os pesquisadores analisaram individualmente cada estrutura para separar possíveis caldeiras vulcânicas de formações semelhantes, como atóis, áreas de erosão, deslizamentos submarinos e outras depressões naturais.

Após essa etapa, o estudo confirmou 78 estruturas vulcânicas compatíveis com caldeiras submarinas. Dessas, apenas cinco já eram conhecidas pela comunidade científica. As outras 73 passaram a integrar o mapa global dessas formações.

Segundo os autores, isso representa um crescimento superior a 150% no número de caldeiras submarinas registradas mundialmente.

Essas estruturas não são apenas curiosidades geológicas. Grandes caldeiras podem indicar antigos episódios vulcânicos extremamente intensos e ajudam cientistas a compreender melhor a evolução da crosta terrestre, além de orientar futuras pesquisas sobre riscos geológicos e ecossistemas de águas profundas.

O fundo dos oceanos ainda guarda muitos mistérios

A distribuição das novas descobertas também chamou atenção dos pesquisadores.

Embora algumas caldeiras tenham sido encontradas próximas a dorsais oceânicas e arcos vulcânicos já conhecidos, a maioria apareceu em regiões intraplaca — áreas consideradas menos óbvias para esse tipo de atividade geológica.

Isso sugere que o relevo submarino ainda pode esconder inúmeras estruturas semelhantes que permanecem desconhecidas simplesmente porque nunca foram analisadas com ferramentas adequadas.

Os próprios pesquisadores destacam que a inteligência artificial não substitui expedições científicas nem confirma, sozinha, a existência de vulcões ativos. O algoritmo funciona como uma ferramenta de triagem extremamente eficiente, indicando onde vale a pena concentrar futuras missões oceanográficas.

À medida que novos mapas batimétricos de alta resolução forem produzidos, o método poderá ser reaplicado para encontrar ainda mais estruturas ocultas.

A descoberta mostra que compreender melhor a Terra pode depender, curiosamente, de tecnologias desenvolvidas para explorar outros planetas. E também reforça uma realidade fascinante: mesmo após séculos de pesquisas, o fundo dos oceanos continua sendo uma das regiões menos conhecidas do planeta.

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