A maneira como o mundo mede o tempo pode passar por uma das maiores mudanças das últimas décadas. Depois de decidir encerrar gradualmente o uso do chamado segundo bissexto, especialistas em metrologia agora estudam substituí-lo por um ajuste muito maior: uma hora bissexta.
A proposta surge porque a Terra vem girando ligeiramente mais rápido do que o esperado nos últimos anos. Se essa tendência continuar, os responsáveis pelo Tempo Universal Coordenado (UTC) poderão ser obrigados a realizar, pela primeira vez na história, um segundo bissexto negativo — ou seja, remover um segundo do relógio oficial, algo que nunca aconteceu.
Para evitar os riscos dessa mudança inédita, autoridades internacionais pretendem discutir uma nova solução ainda este ano.
O que é o segundo bissexto?
Embora um dia tenha aproximadamente 86.400 segundos, a rotação da Terra não é perfeitamente constante.
Influências gravitacionais da Lua, do Sol e outros fatores naturais fazem com que o planeta acelere ou desacelere sua rotação em pequenas frações de segundo.
Para manter sincronizados o Tempo Universal Coordenado (UTC), baseado em relógios atômicos, e o tempo astronômico (UT1), em 1972 foi criado o segundo bissexto.
Sempre que a diferença entre esses dois sistemas cresce demais, um segundo extra é acrescentado ao relógio oficial.
Na prática, isso quase passa despercebido pela população, mas representa um enorme desafio para tecnologias que dependem de sincronização extremamente precisa.
O segundo bissexto virou um problema
Apesar de ter sido criado para corrigir pequenas diferenças, o segundo bissexto acabou gerando dores de cabeça para empresas de tecnologia.
Sistemas de GPS, bancos, bolsas de valores, serviços de internet e redes de telecomunicações precisam operar com precisão de frações de segundo.
Pequenas alterações inesperadas podem provocar falhas em softwares e servidores.
Um exemplo ocorreu em 2017, quando um problema relacionado ao segundo bissexto provocou interrupções no serviço de DNS da Cloudflare, afetando diversos sites ao redor do mundo.
Por esse motivo, durante a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM), realizada em 2022, representantes internacionais decidiram eliminar gradualmente o segundo bissexto e definir uma alternativa até 2035.
A Terra está girando mais rápido
Nos últimos anos, porém, surgiu um novo desafio.
Desde 2016, medições mostram que a Terra começou a completar algumas rotações ligeiramente mais rápido do que a média histórica.
Em 4 de julho de 2024, por exemplo, o planeta registrou o dia mais curto já medido, terminando sua rotação cerca de 1,66 milissegundo antes do esperado.
Em julho de 2025, outros dias excepcionalmente curtos também foram registrados.
Caso essa tendência continue, especialistas estimam que poderá ser necessário retirar um segundo do UTC já por volta de 2029, criando o primeiro segundo bissexto negativo da história.
A proposta é criar uma hora bissexta
Para evitar mudanças frequentes que afetam sistemas computacionais, especialistas passaram a discutir uma solução mais ampla.
Em vez de adicionar ou remover segundos periodicamente, a ideia seria permitir que a diferença entre o tempo atômico e a rotação da Terra aumentasse durante décadas.
Somente quando essa diferença se tornasse significativa seria feita uma correção muito maior, equivalente a uma hora inteira.
Como esse ajuste ocorreria com intervalos muito longos, governos, empresas e desenvolvedores teriam bastante tempo para adaptar seus sistemas.
Decisão pode sair ainda este ano
A proposta da hora bissexta deverá ser discutida durante a próxima reunião da Conferência Geral de Pesos e Medidas, marcada para outubro.
Segundo Patrizia Tavella, diretora do Departamento do Tempo do Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), existe um senso crescente de urgência entre os especialistas.
Ela afirmou que simulações indicam aproximadamente 30% de chance de um segundo bissexto negativo ser necessário antes de 2035. Após consultar empresas e organizações que dependem de sincronização precisa, a resposta foi praticamente unânime: até mesmo um risco de 10% já é considerado elevado demais.
Se a proposta avançar, o mundo poderá abandonar definitivamente um mecanismo utilizado há mais de cinco décadas e adotar uma nova forma de manter o tempo oficial sincronizado com os movimentos do planeta, reduzindo os impactos sobre a infraestrutura tecnológica moderna.