Nem mesmo uma das regiões mais remotas da Terra escapou da poluição plástica. Cientistas detectaram pela primeira vez a presença de nanoplásticos em solos do interior da Antártida, reforçando a ideia de que essas partículas microscópicas conseguem alcançar locais extremamente isolados por meio da atmosfera ou da atividade humana.
Os resultados foram publicados na revista científica Scientific Reports e representam um novo alerta sobre a expansão da contaminação por plásticos em praticamente todos os ecossistemas do planeta.
Mais da metade das amostras continha nanoplásticos

A pesquisa foi realizada nos vales de Taylor e Wright, localizados nos Vales Secos de McMurdo, uma das áreas mais áridas e preservadas da Antártida.
Durante o verão antártico de 2023, os pesquisadores coletaram 13 amostras de solo superficial e outras quatro de camadas situadas a mais de 20 centímetros de profundidade.
Os resultados mostraram que 54% das amostras superficiais continham nanoplásticos acima do limite de detecção, com concentrações de até 295 nanogramas por grama de solo.
As partículas também apareceram em metade das amostras profundas, indicando que elas podem migrar verticalmente pelo solo ou permanecer enterradas ao longo do tempo.
O que são nanoplásticos?
Os nanoplásticos são fragmentos de plástico com diâmetro inferior a um micrômetro, ou seja, milhares de vezes menores que um grão de areia.
Por causa do tamanho extremamente reduzido, eles representam um risco potencialmente maior que os microplásticos.
Essas partículas conseguem permanecer suspensas no ar por longos períodos, viajar grandes distâncias, atravessar membranas celulares e ainda transportar outros contaminantes aderidos à sua superfície.
Por isso, cientistas consideram que compreender sua distribuição no ambiente é uma prioridade para avaliar possíveis impactos sobre os ecossistemas e a saúde.
Seis tipos diferentes de plástico foram identificados
A análise revelou uma mistura de materiais plásticos amplamente utilizados no cotidiano.
Entre eles estavam:
- polietileno;
- polipropileno;
- PET (polietileno tereftalato);
- poliestireno;
- PVC;
- partículas provenientes do desgaste de pneus.
O polipropileno respondeu por aproximadamente 42% da massa total detectada, seguido pelas partículas de desgaste de pneus, com quase 30%, e pelo polietileno, com cerca de 15%.
Segundo os pesquisadores, esse resultado demonstra que não se trata de uma contaminação isolada por um único tipo de plástico, mas de uma combinação de diferentes materiais presentes em um ambiente que até então não possuía registros desse tipo de poluição.
Como esses plásticos chegaram à Antártida?

Os autores apontam duas hipóteses principais.
A primeira envolve o transporte atmosférico de longa distância. Estudos anteriores já demonstraram que partículas com tamanho entre 100 e 1.000 nanômetros podem percorrer milhares de quilômetros carregadas pelos ventos, alcançando regiões remotas como os Alpes, a Groenlândia e agora também a Antártida.
A segunda possibilidade está relacionada às atividades humanas nas bases científicas instaladas no continente.
Próximas da área estudada estão instalações como a Estação McMurdo, a Base Scott e outras estruturas de apoio utilizadas por pesquisadores durante o verão antártico. Embora fiquem entre 100 e 120 quilômetros dos pontos de coleta, essas bases podem representar fontes locais de emissão de partículas plásticas.
Novas técnicas permitiram detectar a contaminação
Os pesquisadores destacam que a ausência de registros anteriores provavelmente não significava que os nanoplásticos não existiam na região.
Até recentemente, os métodos disponíveis tinham sensibilidade limitada para identificar partículas tão pequenas, especialmente em locais onde suas concentrações são extremamente baixas.
Neste estudo, a equipe utilizou uma técnica mais avançada baseada em espectrometria de massas com reação de transferência de prótons e dessorção térmica, capaz de detectar quantidades na escala de nanogramas.
Apesar dos resultados, os autores reconhecem algumas limitações. O número de amostras ainda é reduzido e o método utilizado pode não recuperar todas as partículas presentes no solo.
Mesmo assim, o estudo representa um importante ponto de partida para futuras pesquisas sobre a contaminação por nanoplásticos na Antártida e poderá servir de referência para discutir políticas de gestão de resíduos e normas ambientais nas estações científicas instaladas no continente.
[ Fonte: Infobae ]