Voltar à Lua exige foguetes, módulos de pouso e trajes capazes de manter astronautas vivos a centenas de milhares de quilômetros da Terra. Mas existe um desafio menos espetacular e igualmente importante: depois de passar dias praticamente sem sentir o próprio peso, o corpo precisa voltar a sustentar-se e trabalhar. A China está estudando essa transição com um experimento que parece simples — até imaginar o que significa passar 30 dias sem colocar os pés no chão.
Durante um mês, os voluntários não podiam se levantar nem para ir ao banheiro
O último ser humano a caminhar na Lua deixou sua superfície em dezembro de 1972, durante a missão Apollo 17. Mais de meio século depois, a China pretende levar seus próprios astronautas ao satélite antes de 2030.
Para entender como o organismo pode reagir à viagem, pesquisadores chineses realizaram em 2026 um experimento chamado Dixing-3.
Os participantes foram separados em grupos e permaneceram deitados durante 15 ou 30 dias.
A regra era levada ao extremo: comer, dormir, tomar banho, urinar e defecar precisava ser feito sem ficar de pé.
A cama, nesse caso, funciona como uma espécie de laboratório gravitacional.
Em parte dos testes, os voluntários permaneceram com a cabeça aproximadamente 6° abaixo dos pés. Essa posição redistribui os fluidos corporais em direção à parte superior do organismo e reduz a carga normalmente exercida sobre músculos e ossos das pernas.
Não é o mesmo que viajar pelo espaço, mas permite reproduzir na Terra alguns efeitos fisiológicos associados a longos períodos de microgravidade.
O Dixing-3 acrescentou outra variável: posições nas quais a cabeça ficava elevada. O objetivo era investigar condições relacionadas à gravidade reduzida e, principalmente, como o corpo reage ao passar de um nível gravitacional para outro.
É justamente essa transição que pode se tornar crítica quando uma tripulação chegar à Lua.
O problema começa quando os astronautas precisam voltar a usar as pernas
Durante grande parte de uma viagem espacial, os astronautas ficam praticamente em microgravidade.
Nesse ambiente, o corpo começa a se adaptar. Músculos que normalmente trabalham contra a gravidade são menos exigidos, ossos podem perder densidade e o sistema cardiovascular também passa por alterações.
Então chega o pouso.
Na Lua, a gravidade é aproximadamente um sexto da terrestre. Ainda é pequena, mas subitamente o corpo precisa novamente sustentar peso.
E isso acontece justamente quando os astronautas precisam sair da nave, caminhar, manipular equipamentos e realizar tarefas potencialmente complexas sobre uma superfície extraterrestre.
Segundo o Centro de Astronautas da China, as contramedidas avaliadas no Dixing-3 apresentaram efeitos positivos nos sistemas muscular, ósseo e cardiovascular. Resultados científicos detalhados, porém, ainda não foram publicados, portanto não é possível avaliar completamente a eficácia dessas estratégias.
A experiência também pode ajudar a compreender missões muito mais longas em órbita.
A China mantém pesquisas sobre permanências prolongadas no espaço, incluindo experimentos destinados a avaliar como o organismo reage quando a exposição à microgravidade deixa de durar alguns meses e se aproxima de um ano.
Deitar voluntários para estudar o espaço é uma técnica usada há décadas
O Dixing-3 não surgiu do nada.
A China realiza experimentos de repouso prolongado desde 2007. Em 2019, o Dixing-2 levou 36 homens a participar de um protocolo que chegou a 90 dias, também utilizando inclinação de 6° com a cabeça para baixo.
NASA e Agência Espacial Europeia recorrem a estudos semelhantes.
A vantagem é permitir que pesquisadores investiguem em solo fenômenos relacionados à perda muscular, redução da densidade óssea e alterações cardiovasculares sem precisar enviar todos os participantes ao espaço.
Enquanto esses experimentos avançam, a China desenvolve a infraestrutura necessária para seu projeto lunar: o foguete Long March-10, a nave tripulada Mengzhou, o módulo de pouso Lanyue e o traje lunar Wangyu.
A NASA também trabalha para devolver astronautas à superfície lunar com o programa Artemis.
A nova corrida lunar, portanto, não acontece apenas em plataformas de lançamento.
Antes de descobrir como viver e trabalhar na Lua, as agências espaciais precisam descobrir como fazer um corpo adaptado à ausência de peso voltar rapidamente a ficar de pé.
E, por mais estranho que pareça, uma das maneiras de preparar humanos para caminhar em outro mundo é começar impedindo-os de caminhar aqui na Terra.