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Tecnologia

A China já consegue fabricar carros para o mundo inteiro. O novo gargalo está em tirá-los do país

As exportações chinesas de automóveis cresceram tão rapidamente que surgiu um problema inesperado. Milhões de veículos precisam atravessar os oceanos, mas a infraestrutura disponível não acompanhou o mesmo ritmo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante anos, o desafio da indústria automobilística chinesa foi aumentar a produção, desenvolver veículos competitivos e conquistar mercados internacionais. Essa etapa avançou tão rapidamente que criou um obstáculo completamente diferente. As montadoras têm milhões de carros para enviar ao exterior, mas existe um limite físico difícil de contornar: todos eles precisam sair da China de alguma maneira. E a quantidade de navios especializados simplesmente não cresceu na mesma velocidade.

Em poucos anos, as exportações passaram de milhares para milhões de carros

Em 2019, a China exportava aproximadamente 600 mil automóveis por ano.

Agora, algumas estimativas apontam para um número quase difícil de comparar com aquele período.

A consultoria AlixPartners calcula que o país pode se aproximar de 10 milhões de veículos exportados em 2026, depois de ter enviado cerca de 7,1 milhões ao exterior em 2025.

O problema é que vender um carro em outro continente não significa apenas produzi-lo e encontrar um comprador.

Ele precisa ser transportado fisicamente.

Para isso, a indústria automobilística utiliza principalmente enormes navios conhecidos como Ro-Ro, abreviação de roll-on/roll-off. Eles funcionam como gigantescos estacionamentos flutuantes: milhares de veículos entram rodando no porto de origem e saem da mesma maneira no destino.

Só que a explosão das exportações chinesas aumentou drasticamente a procura por espaço nesses navios.

As empresas de transporte marítimo encomendaram novas embarcações nos últimos anos, mas a expansão da frota mundial não conseguiu acompanhar completamente o crescimento do comércio de automóveis.

O resultado é maior disputa por espaço e pressão sobre os custos de transporte.

E existe outro motivo para as fabricantes chinesas terem tanta urgência em encontrar esses navios.

Vender no exterior se tornou ainda mais importante para as montadoras chinesas

Enquanto as exportações avançam, o mercado doméstico enfrenta dificuldades.

Durante o primeiro semestre de 2026, as vendas totais de automóveis na China teriam caído mais de 20% em relação ao mesmo período do ano anterior, representando aproximadamente 2,5 milhões de veículos a menos.

Ao mesmo tempo, as exportações aumentaram cerca de 65%.

Os mercados internacionais passaram, portanto, a representar uma saída ainda mais importante para absorver a enorme capacidade produtiva da indústria chinesa.

Os veículos elétricos têm papel central nesse movimento. Segundo a Agência Internacional de Energia, suas exportações cresceram mais de 120% durante a primeira metade de 2026.

Mas quando não existe espaço suficiente nos navios Ro-Ro, as montadoras precisam improvisar.

Uma alternativa é colocar automóveis dentro de contêineres marítimos de 40 pés, geralmente acomodando entre dois e quatro veículos, dependendo das dimensões e do sistema de carregamento.

Outra envolve estruturas metálicas conhecidas como flat racks, que permitem transportar e até empilhar automóveis em navios de carga convencionais.

Funciona, mas adiciona etapas e complexidade à operação.

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© Rafael Peier – Unsplash

A BYD encontrou uma solução radical: ter seus próprios navios

Algumas fabricantes decidiram que depender apenas das companhias marítimas tradicionais já não era suficiente.

A BYD seguiu o caminho mais ambicioso: construir sua própria frota de transporte de automóveis.

Em 2025, a companhia completou uma primeira frota de oito navios Ro-Ro, cada um capaz de transportar entre aproximadamente 7.200 e 9.000 veículos.

Mas a expansão não deve parar aí.

Informações publicadas em setembro de 2026 indicam que a empresa encomendou outros dez navios, cada um com capacidade para cerca de 9.200 automóveis e entregas previstas entre 2027 e 2029.

Caso todos entrem em operação, a BYD poderá chegar a 18 embarcações com capacidade combinada superior a 130 mil veículos por viagem.

Estimativas da CarNewsChina indicam que isso poderia ampliar a capacidade anual de transporte internacional da montadora de aproximadamente um milhão para 2,5 milhões de carros.

O próximo desafio da indústria chinesa está fora das fábricas

A China expandiu sua capacidade de produção e exportação de automóveis tão rapidamente que o transporte marítimo especializado se transformou em um gargalo.

O país pode se aproximar de 10 milhões de veículos exportados em 2026, mas cada um deles precisa ocupar espaço em algum navio, contêiner ou estrutura de carga para alcançar mercados distantes.

A decisão da BYD de investir em uma frota própria mostra até onde essa transformação chegou.

Uma montadora que antes precisava dominar baterias, motores, software e linhas de produção agora também precisa pensar como uma empresa de logística marítima.

A expansão internacional dos carros chineses, portanto, está entrando em uma nova fase.

Fabricar milhões de veículos competitivos já não é o único desafio. Agora é preciso construir uma cadeia logística grande o suficiente para colocar todos eles no resto do mundo.

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