Pular para o conteúdo
Tecnologia

A China quer que seus robôs parem de apenas impressionar: por trás do espetáculo existe um plano muito maior

Entre danças, gols e demonstrações curiosas, a China exibe uma nova geração de robôs. Mas o que acontece longe dos holofotes revela uma ambição tecnológica muito maior.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Um pequeno robô veste a camisa de Lionel Messi e cobra um pênalti no ângulo. A poucos metros, outras máquinas dançam ao som de Michael Jackson diante de uma multidão com celulares nas mãos. Parece apenas uma gigantesca feira tecnológica feita para viralizar nas redes sociais. Só que, por trás dessas cenas, a China está testando algo muito mais ambicioso: transformar robôs em parte do cotidiano.

O espetáculo é apenas a parte mais visível

A China quer que seus robôs parem de apenas impressionar: por trás do espetáculo existe um plano muito maior
© Unsplash

A Conferência Mundial de Robótica de Pequim transformou a capital chinesa em uma enorme vitrine de máquinas capazes de despertar curiosidade quase instantaneamente. Os humanoides são as grandes estrelas e, como era de esperar, algumas demonstrações parecem ter sido cuidadosamente pensadas para conquistar o público.

Um pequeno robô vestido com a camisa da seleção argentina e o número 10 de Lionel Messi cobrou um pênalti no ângulo diante dos aplausos dos visitantes. Em outro espaço, máquinas da Unitree dançavam tanto músicas tradicionais chinesas quanto sucessos de Michael Jackson.

Mas os passos de dança escondem uma transformação bem mais relevante.

Enquanto seus robôs entretinham a plateia, a Unitree estreava na Bolsa de Xangai com uma valorização de 460%, após levantar o equivalente a US$ 904 milhões naquela que foi apresentada como a primeira oferta de ações de uma empresa do setor na China continental.

O entusiasmo dos investidores, porém, convive com uma dificuldade bastante concreta. A própria companhia reconheceu que a comercialização em grande escala ainda pode demorar. Um dos principais obstáculos está justamente em uma parte aparentemente simples da anatomia humana: as mãos.

Quando os robôs começam a trabalhar de verdade

Entre mais de 3 mil produtos apresentados por mais de 300 empresas, segundo os organizadores, uma mudança de prioridade fica evidente. Os robôs já não querem apenas impressionar visitantes. Agora precisam demonstrar que conseguem executar tarefas úteis.

Em um estande que reproduzia um supermercado, uma máquina colocava produtos dentro de uma sacola plástica, embora ainda encontrasse dificuldades para fechá-la. Outros modelos transportavam pacotes, dobravam roupas espalhadas por um cômodo ou até desempenhavam funções semelhantes às de agentes de trânsito.

A Hikrobot escolheu um cenário ainda mais cotidiano: um restaurante de fast-food depois da passagem dos clientes. Mesas estavam cobertas por bandejas, copos e embalagens usadas, enquanto robôs recolhiam os resíduos e tentavam levá-los até uma lixeira.

Parece uma tarefa simples para qualquer pessoa, mas ela revela alguns dos maiores desafios da robótica atual.

Wu Jiachun, representante da empresa, explicou que manipular objetos macios e conseguir distinguir lixo de pertences importantes, como um smartphone esquecido sobre uma mesa, continua sendo complicado.

Ainda assim, houve progresso. Segundo Wu, antes as máquinas hesitavam bastante e apresentavam baixa eficiência. Agora continuam mais lentas que uma pessoa, mas já conseguem realizar determinadas atividades com maior fluidez.

O preço também precisa cair. Atualmente, um equipamento da empresa custa mais de 200 mil yuans. A intenção é chegar perto de 100 mil yuans, aproximadamente US$ 14,8 mil. A comparação feita pela companhia é reveladora: esse valor seria semelhante ao salário anual de um trabalhador local do setor de serviços, enquanto o robô poderia operar durante 24 horas.

Uma pequena parte do corpo virou um enorme desafio

Curiosamente, algumas das demonstrações mais importantes da conferência não envolvem robôs completos.

Em diversos estandes, o destaque são mãos isoladas. Dedos, polegares, ganchos e pinças tentam agarrar objetos, pressionar botões e manipular materiais de diferentes formatos, tamanhos e texturas.

Não é um detalhe técnico menor.

Para que humanoides realmente deixem os laboratórios e passem a trabalhar em supermercados, hospitais, residências, fábricas ou centros logísticos, eles precisam interagir com ambientes projetados essencialmente para seres humanos.

Xu Xiaolan, presidente do Instituto Chinês de Eletrônica, afirmou durante o evento que os produtos de inteligência incorporada atravessam um momento decisivo, no qual precisam avançar dos testes em pequena escala para uma adoção muito mais ampla.

As apresentações com máquinas dançando, desfilando ou realizando movimentos complexos funcionam, portanto, como vitrines de tecnologias que posteriormente podem ser aplicadas ao turismo, transporte, comércio, logística e serviços domésticos.

Em entrevista ao China Electronics News, Xu afirmou que empresas chinesas já apresentaram mais de 300 modelos de humanoides, quantidade que representaria mais da metade do total mundial. Segundo ela, mãos robóticas desenvolvidas no país já alcançaram precisão de 0,1 milímetro.

Pequim deixou claro onde pretende chegar

Por trás dessa corrida existe uma estratégia nacional muito maior.

A robótica e a inteligência artificial ocupam uma posição cada vez mais importante nos planos tecnológicos de Pequim. Em 2024, o governo chinês colocou os robôs humanoides entre as chamadas “indústrias do futuro”, categoria destinada a setores ainda imaturos, mas considerados capazes de apresentar enorme potencial de crescimento.

Durante a abertura da conferência, o vice-ministro da Indústria, Xin Guobin, afirmou que o desenvolvimento do setor deverá avançar especialmente em direção às aplicações práticas, aos componentes essenciais e à chamada inteligência incorporada.

O governo pretende promover testes em situações reais envolvendo agricultura, saúde, cuidados com idosos e atendimento a emergências. A estratégia é colocar essas máquinas diante dos problemas do cotidiano para acelerar seu aperfeiçoamento.

Existe, entretanto, uma questão inevitável nessa transformação. Quanto mais eficientes, versáteis e baratos esses robôs se tornarem, maior será o debate sobre os impactos no mercado de trabalho. Xin defendeu que os ganhos de eficiência sejam conciliados com a proteção dos empregos.

Na conferência de Pequim, algumas máquinas ainda erram ao pegar o lixo, trabalham lentamente e enfrentam dificuldades para fechar uma simples sacola. Mas talvez seja justamente isso que torne esse momento tão importante: elas já não estão aprendendo apenas a impressionar uma plateia. Estão aprendendo a trabalhar.

[Fonte: Vanguardia]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados