Os Estados Unidos estão descobrindo que a corrida pela inteligência artificial também tem um limite físico. Depois de anos incentivando a construção de enormes data centers, vários estados começaram a frear novos projetos diante da crescente resistência da população. No Texas, o governador Greg Abbott reconheceu que as próprias empresas do setor ajudaram a criar o problema. Enquanto isso, uma pesquisa mostra que 61% dos americanos não querem um desses complexos perto de casa.
Texas coloca até 1.800 projetos em espera

Em entrevista à emissora americana ABC, Abbott afirmou que as empresas responsáveis pela expansão dos data centers “basicamente cavaram a própria cova”. Segundo o governador republicano, milhares de projetos enfrentam agora obstáculos devido à reação das comunidades locais.
A mudança de postura chama atenção porque, há poucos meses, o discurso era completamente diferente.
Em novembro de 2025, Abbott apresentava o Texas como o “epicentro do desenvolvimento da IA”. Na época, o governador anunciou ao lado do Google um investimento de US$ 40 bilhões em três grandes campus de servidores no estado.
Nove meses depois, o cenário mudou. Abbott determinou que reguladores estaduais analisem cada projeto antes de autorizar sua conexão à rede elétrica.
As empresas também terão que pagar integralmente pela infraestrutura necessária para suas operações. Além disso, o governador pediu a retirada gradual dos incentivos fiscais concedidos ao setor.
Segundo Abbott, as novas regras já interromperam até 1.800 projetos. Nem todos envolvem data centers, embora eles representem a maioria.
Consumo de energia virou uma das maiores preocupações
O crescimento acelerado dessas instalações está dificultando o planejamento da rede elétrica.
Abbott afirma que menos de 10% das empresas responderam a um pedido de informações destinado a calcular a futura demanda por eletricidade. Na prática, novos projetos surgem em uma velocidade que dificulta qualquer previsão de longo prazo.
Outro problema é a comunicação com as comunidades. Segundo o governador, empresas chegam a determinadas regiões sem explicar claramente o tamanho dos projetos, suas necessidades energéticas ou seus possíveis impactos locais.
Essa situação ajuda a explicar o aumento da rejeição.
Uma pesquisa recente do Annenberg Public Policy Center mostrou que 61% dos americanos são contrários à construção de um data center perto de suas casas. Em março, o índice era de 49%.
A oposição também ultrapassa divisões políticas. Entre democratas, chega a 69%. Entre republicanos, fica perto de 54%.
Rejeição aos data centers atravessa os EUA

O movimento não está restrito ao Texas.
Em Ohio, o ex-senador democrata Sherrod Brown investiu milhões em anúncios que apresentam seu adversário republicano Jon Husted como “a cara dos data centers”. Em Michigan, o republicano Mike Rogers passou a defender uma moratória de um ano para novos projetos.
Nova York aprovou uma moratória estadual de um ano. A Pensilvânia também endureceu suas condições em agosto, apesar de seu governador ter celebrado anteriormente um investimento de US$ 20 bilhões da Amazon no estado.
Até políticos de extremos diferentes concordam parcialmente sobre o assunto. Vivek Ramaswamy, candidato republicano ao governo de Ohio, defende uma pausa. Já Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez apresentaram uma proposta para congelar novas construções em nível federal.
EUA não podem simplesmente desligar a corrida da IA
Existe, porém, um enorme dilema. Os Estados Unidos dificilmente podem interromper completamente a construção dessas instalações.
Os investimentos em equipamentos de processamento de dados e software representam cerca de 4% do PIB americano e ajudam a sustentar o atual crescimento da indústria de inteligência artificial.
A questão também envolve a disputa tecnológica com a China. Ter capacidade computacional suficiente para treinar e operar modelos avançados tornou-se uma prioridade estratégica para Washington.
Os cinco maiores provedores de serviços em nuvem devem investir aproximadamente US$ 660 bilhões em infraestrutura neste ano, quase três vezes mais do que há dois anos.
A Casa Branca tenta, portanto, reduzir o conflito com as comunidades sem comprometer essa onda gigantesca de investimentos.
Donald Trump também entrou na discussão. Em entrevista a Michael Cohen, seu ex-advogado, o presidente afirmou que comunidades que rejeitam data centers estão cometendo um erro.
Segundo Trump, esses projetos geram empregos e movimentam grandes quantidades de dinheiro. Ele também rejeitou a ideia de que necessariamente prejudiquem a rede elétrica, argumentando que algumas empresas estão construindo suas próprias usinas de energia.
A expansão da IA nos Estados Unidos enfrenta, assim, uma contradição cada vez mais difícil de ignorar. O país quer liderar a corrida tecnológica mundial, mas os enormes centros necessários para alimentar essa revolução começam a encontrar resistência justamente nos lugares onde precisam ser construídos.
[ Fonte: El País ]