Quem nunca teve a estranha sensação de que havia alguém por perto, mesmo sem enxergar ou ouvir qualquer sinal? Durante muito tempo, esse tipo de percepção foi associado à intuição ou até a explicações sobrenaturais. Agora, um estudo científico oferece uma resposta bem diferente. Pesquisadores identificaram um mecanismo do cérebro que permite detectar alterações quase imperceptíveis no ambiente, revelando uma habilidade que pode mudar a forma como entendemos os sentidos humanos.
O cérebro consegue perceber objetos próximos sem usar diretamente os cinco sentidos

Uma nova pesquisa indica que o cérebro humano possui uma capacidade pouco conhecida de identificar a presença de objetos próximos mesmo na ausência de referências visuais, auditivas ou de contato físico.
Os cientistas descrevem esse mecanismo como uma forma de percepção espacial inconsciente, relacionada ao funcionamento do sistema somatossensorial.
Em vez de depender apenas dos cinco sentidos tradicionalmente conhecidos, o cérebro interpreta pequenas alterações no ambiente que normalmente passam despercebidas pela consciência.
Entre esses sinais estão mudanças extremamente sutis na pressão do ar, na temperatura e na circulação do ambiente ao redor do corpo.
Depois de captadas pelos receptores sensoriais, essas informações são processadas pelo sistema nervoso central, que cria uma espécie de mapa espacial do ambiente.
Esse mecanismo permite antecipar a presença de obstáculos antes mesmo que ocorra qualquer contato físico.
Segundo os pesquisadores, trata-se de uma adaptação evolutiva que pode ter ajudado os seres humanos a se deslocarem com maior segurança em diferentes ambientes ao longo da história.
Experimentos mostraram que muitas pessoas conseguem detectar objetos no escuro
Para investigar essa capacidade, os pesquisadores realizaram uma série de testes envolvendo privação sensorial.
Os participantes permaneceram completamente vendados e utilizaram protetores auriculares para eliminar referências visuais e sonoras durante os experimentos.
Mesmo nessas condições, muitos conseguiram perceber corretamente quando havia objetos posicionados a menos de 50 centímetros do rosto.
Diversos voluntários relataram sentir que “havia algo ali” ou perceber uma alteração na densidade do ar diante deles, apesar de não conseguirem explicar exatamente como chegavam a essa conclusão.
Exames realizados por meio de ressonância magnética funcional mostraram que, durante essas tarefas, áreas cerebrais ligadas ao processamento espacial apresentavam maior atividade.
Esses resultados levaram os cientistas a descartar interpretações relacionadas a fenômenos paranormais.
Segundo os autores da pesquisa, as evidências apontam para um mecanismo biológico natural que apenas começou a ser compreendido com maior profundidade nos últimos anos.
Descoberta pode abrir caminho para novas tecnologias e tratamentos
Os pesquisadores acreditam que o estudo possui aplicações práticas bastante promissoras.
Uma das áreas que pode ser diretamente beneficiada é a reabilitação de pessoas com deficiência visual.
Ao compreender como o cérebro interpreta pequenas variações de pressão e temperatura para identificar obstáculos, especialistas poderão desenvolver novos métodos de treinamento para ampliar a mobilidade e a orientação espacial desses pacientes.
A pesquisa também pode contribuir para o desenvolvimento de interfaces entre cérebro e dispositivos eletrônicos.
Uma das possibilidades estudadas é criar equipamentos capazes de transformar a proximidade de objetos em estímulos facilmente interpretados pelo sistema nervoso, ampliando a percepção do ambiente de maneira natural.
Outro objetivo dos cientistas é investigar por que algumas pessoas parecem apresentar essa habilidade de forma mais desenvolvida do que outras.
Fatores genéticos, diferenças neurológicas e experiências individuais poderão ajudar a explicar essa variação, oferecendo novas pistas sobre o funcionamento da percepção humana.
Embora muitos ainda chamem essa capacidade de “sétimo sentido”, os pesquisadores ressaltam que ela não representa um novo sentido independente, mas sim uma sofisticada integração entre diferentes sistemas sensoriais que trabalham de maneira quase invisível para manter o cérebro constantemente informado sobre o espaço ao redor. A descoberta reforça o quanto ainda há para aprender sobre o funcionamento da mente humana e sobre habilidades que utilizamos todos os dias sem sequer perceber.
[Fonte: Cronista]