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Ciência

Existe um plano para resfriar a Terra tornando as nuvens mais brilhantes. Cientistas alertam que ele também pode dar errado

Um estudo propõe reduzir a intensidade do El Niño refletindo parte da luz solar com o chamado "branqueamento de nuvens marinhas". Embora os resultados em modelos climáticos sejam promissores, especialistas alertam que a geoengenharia solar ainda envolve grandes incertezas científicas e riscos políticos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Com o aquecimento global intensificando eventos climáticos extremos, pesquisadores buscam alternativas para reduzir seus impactos. Entre elas está uma proposta controversa: tornar as nuvens mais refletivas para diminuir a quantidade de luz solar que aquece os oceanos.

Um novo estudo publicado na revista Science Advances indica que essa estratégia poderia enfraquecer futuros episódios de El Niño antes que eles atinjam sua máxima intensidade. Apesar do potencial, os próprios cientistas ressaltam que a técnica ainda levanta dúvidas sobre seus efeitos ambientais e sua viabilidade política.

Como o El Niño influencia o clima do planeta

Cientistas alertam sobre o clima há décadas — agora um estudo expõe um problema mais delicado nessa comunicação
© pexels

O El Niño é um fenômeno climático natural que surge periodicamente no Oceano Pacífico tropical.

Ele ocorre quando os ventos alísios enfraquecem, permitindo que águas mais quentes avancem em direção à costa da América do Sul. Essa mudança altera a circulação atmosférica e influencia o clima em praticamente todo o planeta.

Entre as consequências estão temperaturas globais acima da média, secas prolongadas em algumas regiões, chuvas intensas e enchentes em outras, além do aumento da atividade de ciclones no Pacífico.

Quando coincide com o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, um episódio intenso de El Niño pode causar prejuízos econômicos de centenas de bilhões de dólares.

O que é o branqueamento de nuvens marinhas

Os pesquisadores analisaram uma técnica conhecida como Marine Cloud Brightening (MCB), ou branqueamento de nuvens marinhas.

A ideia consiste em pulverizar pequenas gotículas de água do mar sobre nuvens oceânicas. Essas partículas aumentam a capacidade das nuvens de refletir a luz solar de volta ao espaço, reduzindo a quantidade de calor absorvida pela superfície do oceano.

Diferentemente de outras propostas de geoengenharia solar, como a injeção de aerossóis na estratosfera, o MCB poderia ser aplicado de forma regional, concentrando seus efeitos sobre áreas específicas, como o Pacífico tropical.

Até o momento, os testes realizados com essa tecnologia ocorreram apenas em pequena escala.

Incêndios na Austrália ofereceram uma pista inesperada

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© Matt Howard – Unsplash

Como ainda existem poucos experimentos de grande porte, os pesquisadores recorreram a um fenômeno natural que produziu um efeito semelhante.

Durante a temporada histórica de incêndios florestais na Austrália entre 2019 e 2020, milhões de toneladas de fumaça alcançaram a atmosfera.

Estudos anteriores indicaram que parte dessas partículas refletiu a luz solar e contribuiu para o desenvolvimento de um raro episódio de La Niña de três anos consecutivos, fase oposta ao El Niño.

Com base nesse evento, os cientistas criaram modelos computacionais para simular como o branqueamento de nuvens poderia influenciar grandes episódios históricos de El Niño.

Os resultados mostraram que reduzir a radiação solar incidente sobre o Pacífico poderia diminuir significativamente a intensidade do fenômeno e seus impactos em escala global.

A geoengenharia ainda desperta muitas dúvidas

Durante décadas, propostas de geoengenharia foram discutidas principalmente como formas de resfriar todo o planeta para compensar o aquecimento causado pelas atividades humanas.

O novo estudo sugere uma abordagem diferente: utilizar essas técnicas apenas em regiões estratégicas para reduzir eventos climáticos específicos, como o El Niño.

Segundo Katherine Ricke, climatologista da Universidade da Califórnia em San Diego e uma das autoras da pesquisa, essa estratégia poderia evitar parte dos efeitos acumulados entre o El Niño e o aquecimento global.

Mesmo assim, ela reconhece que ainda são necessários muitos estudos antes de qualquer aplicação prática.

O maior desafio pode ser político, e não tecnológico

Embora a proposta seja considerada cientificamente plausível, diversos especialistas alertam que seus riscos continuam desconhecidos.

Andrew Dessler, professor de Ciências Atmosféricas da Universidade Texas A&M, considera que a hipótese faz sentido do ponto de vista científico, mas acredita que sua implementação poderia gerar enormes conflitos internacionais.

Segundo ele, os modelos climáticos ainda possuem limitações importantes. Alterar deliberadamente o clima pode produzir efeitos inesperados e até criar problemas maiores do que aqueles que se pretende resolver.

Além dos riscos ambientais, existe a questão da governança global. Caso uma intervenção regional provocasse impactos negativos em outro país, poderiam surgir disputas diplomáticas ou até conflitos internacionais.

Uma tecnologia que pode se tornar necessária no futuro

Os autores enfatizam que o estudo não representa uma recomendação para colocar essa tecnologia em prática imediatamente.

O objetivo é compreender melhor quais ferramentas poderão estar disponíveis caso o aquecimento global continue se intensificando nas próximas décadas.

Para os pesquisadores, a prioridade continua sendo reduzir as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis. Ainda assim, eles defendem que investigar soluções como a geoengenharia solar pode ser importante caso o planeta enfrente cenários climáticos cada vez mais extremos.

Se um dia técnicas como o branqueamento de nuvens forem consideradas viáveis, será necessário comprovar sua segurança científica e estabelecer regras internacionais claras antes de qualquer aplicação em larga escala.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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