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Tecnologia

A computação quântica parecia uma ameaça inevitável ao Bitcoin, mas surgiu um obstáculo

Durante anos, computadores quânticos foram apontados como uma ameaça capaz de abalar a segurança do Bitcoin. Novos cálculos, porém, colocam um obstáculo inesperado nesse cenário.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Existe uma pergunta que acompanha o Bitcoin praticamente desde que a computação quântica começou a avançar: o que aconteceria se uma máquina suficientemente poderosa conseguisse quebrar a criptografia que protege as moedas digitais? A hipótese já provocou alertas entre pesquisadores, investidores e desenvolvedores. Agora, dois trabalhos colocados lado a lado sugerem um cenário muito mais complexo e potencialmente tranquilizador, embora a discussão esteja longe de terminar.

O número que voltou a colocar a segurança do Bitcoin no centro da discussão

A computação quântica parecia uma ameaça inevitável ao Bitcoin, mas surgiu um obstáculo
© Pexels

A ameaça quântica ao Bitcoin está ligada principalmente à criptografia de curva elíptica utilizada em suas assinaturas digitais. Em teoria, uma máquina quântica suficientemente avançada poderia utilizar o algoritmo de Shor para resolver o problema matemático que protege determinadas chaves.

Isso permitiria, em certas circunstâncias, derivar uma chave privada a partir de informações públicas e comprometer fundos.

O novo capítulo dessa história surgiu com um estudo de pesquisadores de universidades chinesas. Eles calcularam os recursos necessários para resolver o chamado problema do logaritmo discreto em curvas elípticas de 256 bits.

O resultado chama atenção: seriam necessários aproximadamente 835 qubits lógicos.

A estimativa representa uma redução em relação a cálculos anteriores, que apontavam para 1.098 ou 1.175 qubits em determinadas configurações. Para a curva secp256k1, utilizada pelo Bitcoin, os pesquisadores também chegaram aos 835 qubits lógicos, além de estimarem um custo de aproximadamente 230,88 milhões de portas Toffoli.

À primeira vista, reduzir a quantidade de recursos necessários para um ataque parece uma péssima notícia.

Mas existe outro número que muda completamente a interpretação.

Uma possível barreira física aparece no caminho dos computadores quânticos

O físico Tim Palmer, da Universidade de Oxford, trabalha em uma formulação chamada Rational Quantum Mechanics. Entre as implicações discutidas a partir desse trabalho aparece uma hipótese especialmente relevante para a computação quântica em grande escala.

O investidor Fred Krueger relacionou publicamente essa pesquisa aos novos cálculos sobre criptografia e destacou uma possível limitação de aproximadamente 400 qubits coerentemente entrelaçados.

É justamente a diferença entre os dois números que despertou interesse.

Se quebrar uma curva criptográfica de 256 bits exigir cerca de 835 qubits lógicos, mas existir realmente uma barreira física fundamental próxima de 400 qubits entrelaçados de maneira coerente, um computador quântico capaz de executar esse ataque poderia enfrentar um obstáculo muito mais profundo do que simplesmente aumentar sua capacidade tecnológica.

Em outras palavras, não seria apenas uma questão de esperar computadores melhores.

A própria física poderia impor um limite.

Essa interpretação, entretanto, depende de condições importantes. A hipótese de Palmer não estabelece de maneira definitiva que nenhum sistema quântico possa ultrapassar esse patamar nem prova, isoladamente, que o Bitcoin esteja permanentemente protegido.

Por enquanto, trata-se de uma possibilidade teórica colocada em contraste com outra estimativa.

Qubits lógicos não são os mesmos qubits anunciados pelas empresas

Há ainda outro detalhe essencial para entender por que os números podem enganar.

Os 835 qubits mencionados no estudo são qubits lógicos, e não simplesmente qubits físicos.

Computadores quânticos reais sofrem com ruído e erros. Para construir um único qubit lógico confiável, protegido por sistemas de correção de erros, podem ser necessários muitos qubits físicos.

Isso significa que uma máquina capaz de realizar um ataque criptograficamente relevante teria de ser muito mais sofisticada do que um computador que simplesmente anunciasse possuir 835 qubits.

Os próprios pesquisadores reconhecem que algoritmos quânticos relevantes para a criptografia continuam enfrentando limitações relacionadas ao hardware, à correção de erros e à necessidade de manter taxas de erro suficientemente baixas.

Por isso, o cenário de um computador quântico roubando bitcoins não parece iminente.

Mas isso não significa que os desenvolvedores estejam ignorando o problema.

O Bitcoin já discute como se preparar para um futuro pós-quântico

A comunidade técnica vem explorando maneiras de tornar o protocolo mais resistente caso computadores criptograficamente relevantes realmente apareçam.

Uma dessas iniciativas é a BIP-360, proposta que apresenta um novo tipo de saída chamado Pay-to-Merkle-Root, ou P2MR. Seu objetivo é reduzir a exposição a determinados ataques quânticos de longa duração ao remover um caminho de gasto vulnerável relacionado à criptografia de curva elíptica.

A própria proposta deixa claro que isso não resolveria sozinho todos os possíveis ataques.

Uma proteção mais completa poderia exigir futuramente a introdução de esquemas de assinatura pós-quânticos. A ideia é permitir que o Bitcoin evolua gradualmente conforme o nível real da ameaça se torne mais claro.

Essa precaução é importante porque ainda existem muitas incógnitas.

Em março de 2026, um estudo do Google Quantum AI já havia reacendido a discussão ao apontar que os recursos necessários para atacar a criptografia utilizada pelo Bitcoin poderiam ser significativamente menores do que estimativas anteriores indicavam. Ainda assim, não existe atualmente uma máquina quântica capaz de executar esse tipo de ataque em condições reais.

A ameaça não desapareceu, mas a história ficou mais complicada

Declarar que o Bitcoin está definitivamente protegido contra computadores quânticos seria precipitado.

Os novos estudos não encerram o debate. Na verdade, acrescentam outra camada de incerteza.

De um lado, pesquisadores continuam encontrando maneiras de reduzir os recursos teóricos necessários para quebrar sistemas criptográficos. Do outro, existem hipóteses segundo as quais limitações fundamentais da própria física poderiam impedir computadores quânticos de alcançar a escala necessária.

Enquanto essa disputa acontece nos laboratórios, desenvolvedores do Bitcoin trabalham em alternativas para não depender de uma única aposta sobre o futuro.

Talvez essa seja a conclusão mais importante.

A segurança do Bitcoin diante da computação quântica não depende apenas de descobrir se uma máquina capaz de quebrar sua criptografia poderá existir. Existe também uma corrida para modificar as defesas antes que essa máquina apareça.

E, depois dos novos cálculos, uma ameaça que parecia depender apenas de tempo e avanços tecnológicos ganhou uma pergunta muito mais intrigante: e se houver uma barreira que nem mesmo os computadores quânticos consigam atravessar?

[Fonte: Criptonoticias]

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