Durante anos, a inteligência artificial apareceu cercada por previsões sobre empregos desaparecendo, máquinas substituindo pessoas e profissões inteiras sendo transformadas. Mas talvez a mudança mais imediata seja menos cinematográfica e muito mais cotidiana. Para Matías Juncos, especialista em aplicações e IA, ferramentas como o ChatGPT estão seguindo um caminho parecido com o da internet: começam opcionais, ganham espaço rapidamente e acabam se tornando difíceis de ignorar no trabalho.
A comparação com a internet ajuda a entender o que pode acontecer

Matías Juncos, cofundador da Futura e especialista em aplicações e inteligência artificial, analisou o avanço dessas ferramentas. Para ele, quem ainda observa a transformação de longe deveria começar a experimentar a tecnologia.
Sua comparação é com os primeiros anos da internet.
Houve uma época em que muitas atividades profissionais podiam ser realizadas normalmente sem conexão. Aos poucos, porém, a internet deixou de representar uma vantagem adicional e passou a fazer parte da infraestrutura básica de praticamente qualquer empresa.
Juncos acredita que a inteligência artificial está percorrendo um caminho semelhante. Em sua avaliação, dentro de um ou dois anos ela poderá estar presente de forma transversal nas empresas e em diferentes departamentos.
Isso não significa necessariamente que todos precisarão se tornar especialistas em modelos de linguagem ou programação.
A transformação pode ser muito mais simples: saber identificar tarefas que consomem tempo e entender quando uma ferramenta de IA pode ajudar a realizá-las com maior rapidez.
É justamente aí que surge uma interpretação diferente sobre o temor de perder o emprego.
O maior concorrente pode estar trabalhando na mesa ao lado

Uma das principais ideias defendidas pelo especialista é que a ameaça profissional não deveria ser resumida à disputa entre humanos e máquinas.
O risco pode aparecer na comparação entre duas pessoas que realizam funções semelhantes, mas utilizam recursos muito diferentes.
Imagine três funcionários trabalhando em um mesmo departamento. Dois começam a incorporar inteligência artificial para pesquisar, organizar informações, preparar documentos e automatizar atividades repetitivas. O terceiro continua executando tudo da maneira tradicional.
Com o tempo, a diferença de produtividade pode se tornar significativa.
Na visão de Juncos, portanto, não seria simplesmente a IA que substituiria determinados profissionais, mas outros profissionais que aprenderam a trabalhar com ela.
As tarefas administrativas e operacionais estão entre as mais expostas a essa transformação.
O especialista cita como exemplo a análise de propostas em uma licitação. Comparar preços, características e condições para depois preparar um relatório pode exigir bastante tempo. Com inteligência artificial e informações adequadas, parte desse trabalho pode ser acelerada consideravelmente.
Isso não implica o desaparecimento automático desses cargos. Significa que as funções podem mudar, enquanto algumas habilidades perdem importância e outras se tornam mais valorizadas.
Até quem trabalha com tecnologia está sentindo a mudança

Programadores também não estão fora dessa transformação.
Ferramentas especializadas, como Cursor, e modelos capazes de produzir e revisar código estão reduzindo a barreira técnica para determinadas tarefas de desenvolvimento. Atividades que antes exigiam conhecimentos específicos podem agora receber uma assistência significativa da inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, novas funções começam a surgir.
Esse movimento ajuda a explicar por que a educação também terá de acompanhar a mudança. Para Juncos, escolas poderiam oferecer oficinas e capacitações sobre IA, tratando esse conhecimento como uma competência cada vez mais útil para a vida adulta.
As universidades enfrentam um desafio ainda maior.
Se as ferramentas utilizadas pelas empresas mudam rapidamente, planos de estudo desenvolvidos para um mercado anterior podem envelhecer antes mesmo de alguns alunos concluírem seus cursos. Ciências da computação é um exemplo evidente, mas dificilmente será o único.
O impacto também chega ao setor público. Juncos considera que diversas tarefas realizadas pelo Estado poderiam ser automatizadas ou agilizadas, embora barreiras culturais ainda dificultem a adoção dessas tecnologias.
Mas diante de tantas plataformas diferentes, surge uma questão prática: por onde alguém que nunca utilizou IA deveria começar?
Uma ferramenta conhecida aparece como a porta de entrada

A recomendação de Juncos é direta: ChatGPT.
O especialista também mencionou alternativas como Claude, mas considera o ChatGPT uma opção acessível para quem está dando os primeiros passos, destacando particularmente suas capacidades de raciocínio. Ele reconhece, porém, que existem diferenças entre modelos e entre recursos gratuitos e pagos.
A ideia não é começar tentando automatizar uma empresa inteira.
Um usuário pode experimentar a tecnologia em tarefas simples: organizar informações, comparar alternativas, estruturar documentos, desenvolver ideias ou lidar com atividades repetitivas.
A pergunta deixa então de ser “o que a inteligência artificial consegue fazer?” e passa a ser algo muito mais concreto: qual parte da minha rotina poderia ser realizada melhor com sua ajuda?
Existe, porém, uma barreira que nenhum modelo consegue eliminar sozinho.
É o medo de começar.
O obstáculo mais difícil talvez não seja tecnológico
Juncos identifica diferenças geracionais na adoção da inteligência artificial. Profissionais mais jovens tendem a experimentar novas ferramentas com maior naturalidade, enquanto outros grupos podem apresentar mais resistência.
Para ele, superar essa barreira cultural será fundamental.
Esse cenário não elimina as discussões necessárias sobre limites, erros, privacidade ou uso responsável da inteligência artificial. Tampouco significa que qualquer resultado produzido automaticamente deva ser aceito sem revisão humana.
Mas a velocidade da transformação torna cada vez mais difícil simplesmente ignorá-la.
ChatGPT, Claude e outras ferramentas continuarão mudando. Algumas profissões serão profundamente alteradas, novas funções aparecerão e certas tarefas provavelmente perderão importância.
Por isso, talvez a questão central do mercado de trabalho não seja descobrir se uma máquina conseguirá fazer aquilo que fazemos hoje.
A pergunta mais urgente pode ser outra: o que acontecerá quando um profissional souber combinar suas próprias habilidades com IA enquanto outro decidir continuar trabalhando exatamente como antes?
[Fonte: TLS]