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Não são os robôs humanoides: a verdadeira revolução das máquinas acontece longe dos holofotes

Enquanto os humanoides chamam atenção com demonstrações impressionantes, uma transformação muito maior avança discretamente pelas fábricas e salas de aula. E seus efeitos podem chegar ao mundo inteiro.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Robôs que correm, lutam e imitam movimentos humanos costumam dominar as manchetes. Mas o verdadeiro salto tecnológico pode estar acontecendo longe dos palcos, em linhas de produção onde máquinas trabalham sem parar e estudantes aprendem a programar o futuro. A China está acelerando uma transformação industrial de enorme escala, e a grande questão já não é apenas o que essas máquinas conseguem fazer, mas quem continuará trabalhando ao lado delas.

O espetáculo dos humanoides esconde uma mudança muito maior

Não são os robôs humanoides: a verdadeira revolução das máquinas acontece longe dos holofotes
© Unsplash

A China transformou os robôs humanoides em uma espécie de vitrine tecnológica. Competições mostram máquinas correndo, lutando e executando movimentos cada vez mais sofisticados. É impressionante, mas essa é apenas a parte mais visível de uma revolução que já alcançou o cotidiano industrial.

Nas fábricas chinesas, milhões de robôs trabalham ao lado de seres humanos. Eles não precisam ter pernas, rostos ou aparência futurista. São braços mecânicos e sistemas automatizados capazes de soldar, pintar, transportar cargas, montar componentes e repetir tarefas durante horas.

Mais de dois milhões de robôs já trabalham nas fábricas do país, segundo a reportagem publicada pelo Ecuavisa com conteúdo da BBC Mundo. Além disso, mais da metade dos robôs industriais fabricados no planeta atualmente sai da China.

Essa capacidade é parte de uma estratégia maior. Pequim pretende colocar o país na vanguarda da inovação tecnológica e competir diretamente com os Estados Unidos em áreas decisivas para as próximas décadas.

E isso começa antes mesmo de o trabalhador entrar em uma fábrica.

No Instituto Técnico de Hangzhou, jovens estudam programação, inteligência artificial e robótica. Alguns aprendem a controlar máquinas industriais; outros desenvolvem instrumentos médicos robotizados. A ideia é preparar uma geração capaz não apenas de conviver com a automação, mas de criá-la, programá-la e aperfeiçoá-la.

As máquinas já estão aprendendo a fabricar outras máquinas

Uma das imagens mais reveladoras dessa transformação aparece em Chengdu, dentro das instalações da CRP Technology.

A empresa fabrica braços robóticos destinados a diferentes setores industriais. Dependendo da programação, essas máquinas podem trabalhar na produção de automóveis, equipamentos eletrônicos ou turbinas eólicas. A companhia afirma que um único braço pode ser adaptado para executar mais de 90% das tarefas repetitivas.

Mas a ambição vai além.

Engenheiros trabalham em máquinas que poderão participar da fabricação de outros robôs. Por enquanto, os protótipos ainda realizam atividades relativamente simples e precisam de supervisão humana. A direção, porém, está clara: desenvolver sistemas cada vez mais autônomos.

Essa corrida também responde a um problema demográfico.

A China está envelhecendo rapidamente. Estimativas oficiais mencionadas na reportagem indicam que, em 2035, mais de um terço da população chinesa terá mais de 60 anos. Paralelamente, o país pode perder dezenas de milhões de habitantes durante a próxima década.

A automação surge, portanto, não apenas como uma busca por produtividade, mas como uma possível resposta à futura escassez de trabalhadores.

O problema é que milhões de pessoas ainda dependem das fábricas

Não são os robôs humanoides: a verdadeira revolução das máquinas acontece longe dos holofotes
© Pexels

Existe uma contradição difícil de ignorar. Se a China precisa de robôs para compensar o envelhecimento populacional, uma automação rápida demais também pode eliminar empregos antes que essa escassez realmente aconteça.

Cerca de 120 milhões de pessoas ainda trabalham no setor manufatureiro chinês. Uma substituição acelerada poderia atingir justamente uma das bases sociais e econômicas que sustentaram o crescimento do país nas últimas décadas.

A fabricante de veículos elétricos Leapmotor oferece uma prévia desse equilíbrio delicado. Em sua fábrica de Hangzhou, robôs participam de praticamente todas as etapas da montagem.

Em áreas como estampagem, soldagem e pintura, a automação já se aproxima de 100%. Ainda assim, trabalhadores humanos continuam aparecendo no fim da linha para realizar inspeções e outras tarefas.

Isso pode não durar para sempre.

As máquinas têm uma vantagem evidente: podem operar continuamente. Por outro lado, precisam de manutenção, inspeções e reparos. O cenário mais provável, ao menos inicialmente, não é uma fábrica completamente sem pessoas, mas uma indústria na qual o tipo de trabalho humano muda profundamente.

A vantagem que pode decidir a próxima corrida tecnológica

Não são os robôs humanoides: a verdadeira revolução das máquinas acontece longe dos holofotes
© Nova lv – Pexels

A China possui uma característica particularmente difícil de reproduzir: uma gigantesca cadeia industrial concentrada dentro do próprio país.

Motores, sensores, baterias, engrenagens, componentes eletrônicos e inúmeros outros elementos necessários para fabricar robôs estão disponíveis em enormes ecossistemas produtivos.

Em Shenzhen, por exemplo, uma empresa pode conseguir rapidamente praticamente tudo de que necessita para desenvolver uma máquina. Essa proximidade entre fornecedores, fabricantes, universidades e empresas de tecnologia reduz custos e acelera experimentos.

Mas existe uma divisão interessante nessa corrida.

A China ganhou enorme capacidade para fabricar o “corpo” das máquinas. Os Estados Unidos, por outro lado, continuam particularmente fortes no desenvolvimento do “cérebro”: inteligência artificial, software e modelos capazes de controlar sistemas cada vez mais sofisticados.

Essa distância também está diminuindo. Empresas chinesas de IA vêm desenvolvendo modelos competitivos, enquanto estratégias baseadas em código aberto ajudam a acelerar o ecossistema local.

Por isso, a próxima grande disputa tecnológica talvez não seja simplesmente descobrir quem possui o chatbot mais inteligente. Pode ser determinar quem conseguirá colocar inteligência artificial dentro de milhões de máquinas capazes de atuar no mundo físico.

O futuro pode chegar antes que os trabalhadores estejam preparados

Toda essa transformação acontece enquanto a economia chinesa enfrenta outros desafios, incluindo dificuldades no mercado imobiliário, dívidas de governos locais e consumo doméstico enfraquecido.

A automação pode aumentar a produtividade e ajudar o país a enfrentar o envelhecimento populacional. Mas também pode produzir novas tensões caso máquinas substituam trabalhadores mais rapidamente do que novos empregos sejam criados.

É justamente por isso que a educação técnica ganhou tanta importância.

Em Hangzhou, estudantes podem iniciar sua preparação tecnológica ainda na adolescência. A mensagem é simples: os empregos do futuro talvez não desapareçam completamente, mas provavelmente exigirão habilidades muito diferentes.

E esse pode ser o aspecto mais importante dessa revolução.

Os robôs que correm e lutam são fascinantes porque parecem saídos da ficção científica. Mas as máquinas capazes de soldar uma carroceria, montar componentes, produzir outros robôs e funcionar praticamente sem interrupção são aquelas que podem alterar silenciosamente a economia mundial.

A grande incógnita não é mais se essa transformação vai acontecer. Ela já começou. O que ninguém consegue responder com segurança é onde terminará a fronteira entre aquilo que será feito por pessoas e aquilo que ficará definitivamente nas mãos das máquinas.

[Fonte: ecuavisa]

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