Algumas palavras carregam uma identidade cultural tão forte que raramente questionamos de onde vieram. Anime, cosplay e aidoru parecem exemplos óbvios de termos criados no Japão e posteriormente exportados para o planeta. A realidade, porém, é mais curiosa. Por trás deles existe uma mistura de inglês, adaptações fonéticas, abreviações e novos significados que mostra como os idiomas transformam aquilo que recebem.
As palavras também viajam e raramente voltam iguais
A linguística chama de empréstimo lexical um fenômeno absolutamente cotidiano: um idioma incorpora palavras provenientes de outro. O português está repleto delas, assim como o espanhol citado no artigo original. Termos relacionados à tecnologia, esportes, gastronomia e entretenimento atravessam fronteiras constantemente.
O interessante começa quando essas palavras chegam ao destino. Elas não precisam permanecer intactas.
A pronúncia pode mudar para se adaptar aos sons disponíveis no novo idioma. A grafia também pode ser modificada. Palavras muito longas podem ser encurtadas e, em determinados casos, até o significado original acaba transformado.
O japonês oferece um terreno particularmente interessante para observar esse fenômeno. Atualmente, grande parte de seus empréstimos estrangeiros vem do inglês. Basta observar anúncios, produtos e vitrines no Japão para perceber a presença de termos com raízes anglófonas.
Mas os japoneses não se limitam a importar palavras. Muitas vezes, adaptam, combinam ou reinterpretam esses elementos até que adquiram uma identidade própria.
É justamente isso que aconteceu com três termos hoje associados quase automaticamente à cultura japonesa.
Anime começou sua viagem com uma palavra bem mais longa

Talvez o caso mais surpreendente seja também o mais conhecido.
A palavra anime tem sua origem relacionada ao inglês animation. Quando o termo foi incorporado ao japonês, por volta da década de 1960, precisou passar por uma adaptação fonética, tornando-se animeeshon. Com o uso cotidiano, porém, os falantes fizeram algo bastante comum: encurtaram a palavra.
Sobrou anime.
Mas a transformação não terminou aí.
No Japão, o termo pode ser empregado para falar de animação de maneira mais ampla. Quando atravessou novamente as fronteiras japonesas, entretanto, ganhou um sentido muito mais específico. Em diversos países, anime passou a designar principalmente as produções de animação japonesas.
O resultado é uma espécie de viagem de ida e volta. Uma palavra inglesa entrou no japonês, mudou de pronúncia, ficou mais curta e depois retornou ao cenário internacional carregando uma identidade cultural completamente diferente.
Hoje, anime representa muito mais que uma simples abreviação. Para milhões de fãs, o termo identifica uma indústria, uma estética e um universo cultural.
E com cosplay, a transformação foi ainda mais criativa.
Cosplay nasceu no Japão, mas suas peças vieram do inglês

À primeira vista, cosplay poderia parecer simplesmente outra palavra inglesa importada pelos japoneses. Só que ela não existia dessa maneira.
O termo foi criado no Japão por Nobuyuki Takahashi em 1983. Enquanto preparava um artigo para a revista My Anime, Takahashi precisava descrever a prática de pessoas que utilizavam fantasias e interpretavam personagens. A solução foi combinar partes de duas palavras inglesas: costume e play.
Assim nasceu cosplay.
A palavra se popularizou entre fãs de mangás e animes e, posteriormente, acompanhou a expansão internacional da cultura pop japonesa.
Hoje existem competições, eventos e comunidades de cosplay em diferentes continentes. A palavra tornou-se tão internacional que sua história original quase desapareceu do uso cotidiano.
Ela apresenta, portanto, um paradoxo interessante: cosplay foi efetivamente criado no Japão, mas nasceu a partir de materiais linguísticos importados do inglês.
O terceiro exemplo segue outro caminho. Em vez de combinar ou encurtar palavras, o japonês praticamente preservou o som original e transformou aquilo que ele representava.
Aidoru mudou menos na forma e muito mais no significado
Aidoru deriva da palavra inglesa idol. A transformação fonética é relativamente fácil de perceber quando os dois termos são pronunciados.
O salto mais importante aconteceu no significado.
Em inglês, idol pode indicar uma pessoa extremamente admirada. No contexto japonês, aidoru ganhou uma definição cultural bem mais específica: passou a identificar determinados jovens artistas e celebridades, como cantores e atores, cujas carreiras e imagens públicas são cuidadosamente desenvolvidas pela indústria do entretenimento.
Assim, os três casos representam mecanismos diferentes.
Anime surgiu de uma adaptação e posterior abreviação. Cosplay foi criado pela combinação de elementos ingleses. Aidoru manteve uma ligação evidente com sua palavra de origem, mas ganhou outro significado.
A parte mais fascinante veio depois.
O Japão transformou essas palavras e depois as devolveu ao mundo

Com a expansão internacional dos mangás, animes, videogames e da música japonesa, esses termos começaram uma nova viagem.
Outros idiomas passaram a incorporá-los não como palavras inglesas, mas como elementos associados diretamente ao Japão. O processo praticamente apagou uma parte de sua genealogia linguística.
Isso ajuda a explicar por que perguntar se anime, cosplay e aidoru são palavras japonesas produz uma resposta tão complicada.
De certa maneira, são. Foi no japonês que adquiriram as formas ou os significados responsáveis por sua popularidade atual. Mas suas raízes apontam para outro idioma.
A história mostra também que as línguas estão longe de ser sistemas fechados. Palavras circulam entre sociedades, são remodeladas pelos falantes e podem voltar ao cenário internacional tão diferentes que sua origem deixa de ser evidente.
Anime, cosplay e aidoru são exemplos especialmente visíveis porque acompanham alguns dos produtos culturais japoneses mais conhecidos do planeta.
E talvez seja justamente isso que torna sua trajetória tão interessante. Essas palavras não pertencem apenas à história de um idioma. Elas são resultado de encontros entre culturas que pegaram algo emprestado, transformaram esse material e acabaram criando algo que o restante do mundo decidiu adotar.
[Fonte: UM]