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Ciência

A crise de saúde mental já afeta mais de 1 bilhão de pessoas e virou um dos maiores desafios do planeta

Um novo levantamento internacional revelou números que estão alarmando especialistas em saúde pública. E os grupos mais afetados podem surpreender muita gente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, doenças cardíacas, câncer e problemas físicos dominaram o centro das preocupações globais em saúde. Mas um novo estudo internacional mostrou que outra crise vem avançando de forma muito mais silenciosa — e já provoca um impacto gigantesco na vida de milhões de pessoas. Transtornos mentais se tornaram hoje a principal causa de incapacidade no planeta, atingindo especialmente mulheres e adolescentes em uma escala que pesquisadores consideram cada vez mais difícil de ignorar.

Os transtornos mentais já superam doenças físicas em impacto global

A crise de saúde mental já afeta mais de 1 bilhão de pessoas e virou um dos maiores desafios do planeta
© Unsplash

Uma pesquisa publicada pela revista científica The Lancet revelou que cerca de 1,17 bilhão de pessoas convivem atualmente com algum tipo de transtorno mental no mundo.

O levantamento mostra que os problemas de saúde mental já representam mais de 17% de toda a incapacidade registrada globalmente, superando doenças cardiovasculares, câncer e enfermidades musculoesqueléticas.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e analisou dados de 204 países entre os anos de 1990 e 2023.

Os cientistas avaliaram os 12 transtornos mentais mais comuns em homens e mulheres distribuídos em 25 faixas etárias diferentes. O resultado revelou uma transformação preocupante nas últimas décadas.

Segundo os dados, o número de pessoas afetadas por doenças mentais praticamente dobrou desde 1990.

Grande parte desse crescimento está relacionada ao aumento expressivo dos casos de ansiedade e depressão, que se intensificaram ainda mais após a pandemia.

Os pesquisadores apontam que a prevalência do transtorno depressivo maior cresceu 24% desde 2019. Já os transtornos de ansiedade tiveram aumento superior a 47% no mesmo período.

Mas talvez o dado mais preocupante do relatório não esteja apenas no crescimento dos casos — e sim na enorme dificuldade de acesso ao tratamento.

A maioria das pessoas não recebe tratamento adequado

A crise de saúde mental já afeta mais de 1 bilhão de pessoas e virou um dos maiores desafios do planeta
© Unsplash

O estudo mostra que apenas 9% das pessoas que sofrem de ansiedade ou depressão recebem um nível minimamente adequado de atendimento em saúde mental.

Em países de baixa renda, o cenário é ainda mais crítico. Em cerca de 90 nações analisadas, menos de 5% dos pacientes conseguem acesso a tratamento considerado suficiente.

Entre os 204 países avaliados, apenas alguns poucos — como Austrália, Canadá e Países Baixos — apresentam cobertura superior a 30% no atendimento de pessoas com transtornos mentais.

Os pesquisadores alertam que o problema não está apenas na falta de infraestrutura médica, mas também na ausência histórica de investimento contínuo em saúde mental.

Em muitos lugares, consultas psiquiátricas, acompanhamento psicológico e tratamentos especializados continuam inacessíveis para grande parte da população.

Isso transforma o cuidado mental quase em um privilégio reservado para quem consegue pagar.

E os efeitos acabam aparecendo de forma mais intensa justamente em grupos considerados mais vulneráveis.

Mulheres e adolescentes concentram os números mais preocupantes

A pesquisa identificou que adolescentes entre 15 e 19 anos estão entre os grupos mais impactados pelos transtornos mentais atualmente.

Segundo os cientistas, essa faixa etária representa um período extremamente delicado do desenvolvimento humano, capaz de influenciar educação, relações sociais, carreira profissional e qualidade de vida futura.

A pesquisadora Alize Ferrari afirmou que os resultados mostram um pico importante da carga dos transtornos mentais justamente durante a adolescência.

Nessa fase, ansiedade e depressão aparecem como as doenças mentais mais frequentes.

Já na infância, predominam condições como transtorno do espectro autista, TDAH, transtornos de conduta e deficiência intelectual do desenvolvimento. Nesse grupo, os meninos aparecem mais afetados do que as meninas.

Mas o cenário muda significativamente na vida adulta.

Em 2023, aproximadamente 620 milhões de mulheres conviviam com algum transtorno mental no mundo, contra 552 milhões de homens.

Os pesquisadores associam essa diferença a fatores como violência doméstica, abuso sexual, discriminação de gênero e sobrecarga relacionada aos cuidados familiares.

Segundo os especialistas, mulheres frequentemente enfrentam múltiplas pressões emocionais e sociais simultaneamente, aumentando o risco de adoecimento psicológico ao longo da vida.

O estudo levanta um alerta que pode se tornar ainda maior nos próximos anos

Apesar da dimensão gigantesca dos números apresentados, os próprios autores reconhecem que o cenário real pode ser ainda mais amplo.

Isso porque 75 países — principalmente de baixa e média renda — não possuem dados próprios suficientemente completos sobre saúde mental. Em muitos casos, os pesquisadores precisaram trabalhar com projeções estatísticas e extrapolações.

Além disso, boa parte das pesquisas diagnósticas utilizadas foi realizada antes de 2019, o que significa que parte dos efeitos mais recentes da pandemia talvez ainda não esteja totalmente refletida nos números atuais.

Os cientistas também destacam que transtornos relacionados ao uso de substâncias ficaram fora da análise principal, o que pode ampliar ainda mais a dimensão do problema global.

Mesmo com essas limitações, o estudo reforça um ponto cada vez mais evidente para especialistas: saúde mental deixou de ser um tema secundário e passou a ocupar posição central nas discussões sobre qualidade de vida e saúde pública mundial.

E, diante do ritmo atual de crescimento, muitos pesquisadores acreditam que o verdadeiro impacto dessa crise silenciosa talvez ainda esteja apenas começando.

[Fonte: El nacional]

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