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Ciência

Cientistas encontram microplásticos em sedimentos de 200 anos antes da invenção do plástico. A explicação é surpreendente

Pesquisadores identificaram microplásticos em camadas de sedimentos datadas do século XVIII, muito antes da invenção do plástico moderno. Embora o resultado pareça impossível, a descoberta não indica uma falha na cronologia, mas revela um comportamento inesperado desses pequenos fragmentos no ambiente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Encontrar plástico em sedimentos formados quase dois séculos antes da criação do primeiro plástico sintético parece desafiar a lógica. No entanto, foi exatamente isso que pesquisadores observaram ao analisar amostras coletadas em três lagos da Letônia.

O estudo, publicado na revista Science Advances, reacendeu o debate nas redes sociais ao mostrar que microplásticos apareceram em camadas geológicas anteriores à invenção da baquelite, considerada o primeiro plástico totalmente sintético, desenvolvida em 1907. Em vez de apontar um erro na datação, a pesquisa revelou um fenômeno que pode mudar a forma como esses materiais são interpretados pela ciência.

Como microplásticos apareceram antes de o plástico existir?

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© Svetlozar Hristov / Getty Images

Para investigar o caso, os cientistas analisaram sedimentos do fundo de três lagos utilizando diferentes métodos independentes de datação.

Além disso, adotaram protocolos rigorosos para evitar qualquer contaminação durante a coleta e o processamento das amostras.

Mesmo após essas verificações, os microplásticos continuavam presentes em camadas formadas durante o século XVIII e o início do século XIX, muito antes da produção industrial de materiais plásticos.

A explicação encontrada foi bem menos extraordinária do que uma viagem no tempo.

Segundo os pesquisadores, os microplásticos produzidos pela atividade humana conseguem migrar lentamente através dos sedimentos ao longo dos anos. Dessa forma, partículas mais recentes acabam penetrando em camadas muito mais antigas.

O que essa descoberta significa para a geologia?

Os sedimentos funcionam como um grande arquivo natural da história da Terra.

Cada camada preserva informações sobre o ambiente existente no momento em que foi depositada, permitindo aos geólogos reconstruir acontecimentos ocorridos ao longo de milhões de anos.

Um dos exemplos mais conhecidos é a fina camada rica em irídio encontrada em diversas partes do planeta, considerada uma das principais evidências do impacto do asteroide que provocou a extinção dos dinossauros há cerca de 66 milhões de anos.

Por isso, muitos pesquisadores acreditavam que os microplásticos poderiam desempenhar um papel semelhante para marcar o início da intensa influência humana sobre o planeta.

Os microplásticos seriam uma marca do Antropoceno?

Microplásticos No Seu Corpo (2)
© Unsplash

Quando a pesquisa foi realizada, um dos principais debates da geologia envolvia a definição do chamado Antropoceno.

Esse termo foi proposto para designar uma nova época geológica caracterizada pelo enorme impacto das atividades humanas sobre os ecossistemas terrestres.

Como o plástico é um material inexistente na natureza e extremamente durável, muitos cientistas sugeriam que sua presença nas rochas poderia servir como um marcador confiável para indicar o início desse período.

O objetivo do estudo era justamente testar essa hipótese.

Os resultados, porém, mostraram o contrário.

Como os microplásticos conseguem migrar para camadas mais profundas do solo, eles deixam de representar um registro cronológico preciso.

Na prática, um pesquisador que analisasse esses sedimentos daqui a mil anos poderia concluir, de forma equivocada, que o plástico já existia quase 200 anos antes de sua invenção.

A decisão sobre o Antropoceno ganhou um novo capítulo

Poucas semanas após a publicação do estudo, a União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) rejeitou oficialmente a proposta de reconhecer o Antropoceno como uma nova época geológica.

A decisão não significa que a comunidade científica negue o enorme impacto causado pela humanidade.

O que a organização concluiu foi que ainda não existem evidências estratigráficas suficientemente consistentes para estabelecer um marco geológico oficial, incluindo o uso dos microplásticos como referência.

A descoberta muda a forma de interpretar os registros ambientais

O estudo mostra que os microplásticos continuam sendo importantes indicadores da contaminação causada pelas atividades humanas.

No entanto, eles não podem ser utilizados isoladamente para determinar a idade de uma camada de sedimentos.

A capacidade dessas partículas de atravessar lentamente o solo significa que futuras pesquisas precisarão considerar esse comportamento ao interpretar registros ambientais e reconstruir a história da presença humana no planeta.

Mais do que resolver um aparente paradoxo temporal, a descoberta revela que os microplásticos são ainda mais móveis e persistentes do que os cientistas imaginavam, ampliando as preocupações sobre seu impacto de longo prazo nos ecossistemas.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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