Durante anos, a corrida da inteligência artificial pareceu seguir uma regra relativamente simples: modelos melhores exigiam mais chips, mais data centers e investimentos cada vez maiores. Então surgiu uma empresa chinesa pouco conhecida e mostrou que essa equação talvez fosse mais complicada. A DeepSeek ganhou projeção mundial ao conseguir resultados surpreendentes com recursos aparentemente menores. Agora, porém, precisa provar que consegue transformar eficiência tecnológica em um negócio capaz de sobreviver à corrida global da IA.
A DeepSeek saiu do anonimato e abalou uma das certezas do setor

Fundada em 2023 por Liang Wenfeng, a DeepSeek permaneceu praticamente desconhecida fora dos círculos tecnológicos chineses até o início de 2025.
Tudo mudou quando seus modelos demonstraram capacidades avançadas de raciocínio e conseguiram competir, em determinadas tarefas, com sistemas desenvolvidos por grandes laboratórios americanos.
O detalhe mais importante estava nos bastidores. A empresa afirmava ter alcançado esses resultados utilizando infraestrutura e custos consideravelmente menores do que alguns concorrentes.
A notícia colocou em dúvida a ideia de que permanecer na fronteira da IA exigiria necessariamente investimentos gigantescos em capacidade computacional.
A reação chegou até Wall Street. Em janeiro de 2025, a Nvidia sofreu uma queda histórica e perdeu cerca de US$ 600 bilhões em valor de mercado em uma única sessão, enquanto investidores tentavam calcular as consequências daquela nova possibilidade.
Isso não significava que a DeepSeek tivesse ultrapassado empresas como OpenAI ou Anthropic em todas as capacidades. O que surpreendia era outra coisa: uma companhia chinesa muito jovem havia conseguido diminuir a distância tecnológica em condições particularmente difíceis.
E sua origem também estava longe do roteiro tradicional do Vale do Silício.
Antes da IA, Liang Wenfeng usava algoritmos para tentar vencer o mercado financeiro
Liang Wenfeng estudou engenharia da computação na Universidade de Zhejiang e construiu parte de sua carreira na High-Flyer, fundo quantitativo que empregava modelos matemáticos e grandes volumes de dados para identificar oportunidades financeiras.
Essa experiência colocou Liang em contato com sistemas computacionais de alto desempenho muito antes da criação da DeepSeek.
Em 2021, ele começou a adquirir milhares de GPUs da Nvidia para construir infraestrutura própria destinada à inteligência artificial. Dois anos depois nasceu a empresa.
Em vez de buscar imediatamente clientes e produtos comerciais, a DeepSeek concentrou seus primeiros esforços em pesquisa e desenvolvimento de modelos avançados.
Essa escolha ajudou a construir sua reputação, mas também levou a companhia diretamente para um dos principais campos da disputa tecnológica entre Washington e Pequim: os semicondutores.
Os Estados Unidos restringiram o acesso chinês a determinados chips avançados e tecnologias relacionadas à IA. Para empresas como a DeepSeek, isso significa trabalhar com limitações que muitos concorrentes americanos não enfrentam.
A resposta chinesa passa tanto pela utilização mais eficiente dos chips disponíveis quanto pelo desenvolvimento de alternativas domésticas.
É aí que empresas como Huawei ganham importância.
A próxima batalha da DeepSeek passa pelos chips que a China consegue produzir

A Huawei vem intensificando o desenvolvimento de processadores para inteligência artificial, uma peça fundamental para reduzir a dependência chinesa das GPUs americanas.
Mas um ecossistema de IA não depende apenas de um bom chip.
Ele exige fabricação de semicondutores, memória, redes, energia, centros de dados, software e capacidade para produzir modelos cada vez maiores. Empresas como SMIC, YMTC e CXMT ocupam posições importantes em diferentes partes dessa cadeia, enquanto Alibaba, Tencent e ByteDance desenvolvem seus próprios modelos e serviços.
A DeepSeek ocupa outro espaço: sua força está especialmente na pesquisa de modelos e métodos capazes de extrair mais desempenho da capacidade computacional disponível.
Agora, porém, a empresa precisa fazer algo diferente.
Depois de conquistar reconhecimento técnico, pretende transformar seus modelos em produtos capazes de gerar receitas. Entre as áreas exploradas estariam soluções para saúde e serviços jurídicos, além de agentes de IA destinados a automatizar processos empresariais.
Isso exige funcionários especializados, infraestrutura e quantidades crescentes de energia e processamento.
Em outras palavras, a eficiência que tornou a DeepSeek famosa não significa que crescer será barato.
Bilhões começaram a entrar e a DeepSeek agora precisa provar que sabe gastá-los
Segundo informações publicadas pelo jornal espanhol Expansión, a empresa fechou neste verão sua primeira rodada de financiamento, levantando US$ 7,4 bilhões e alcançando uma avaliação superior a US$ 50 bilhões.
Entre os investidores mencionados estão Tencent, JD.com, CATL e NetEase, além de um fundo estatal dedicado à inteligência artificial. Liang Wenfeng teria investido aproximadamente US$ 3 bilhões e continuaria controlando a companhia.
A DeepSeek estaria negociando ainda uma segunda rodada de aproximadamente US$ 8 bilhões, que poderia elevar sua avaliação para perto de US$ 74 bilhões.
Os números mostram como a empresa entrou em uma nova fase.
Criar um modelo capaz de impressionar especialistas é uma coisa. Manter serviços para milhões de usuários, conquistar empresas, contratar pesquisadores e financiar data centers é outra completamente diferente.
E é justamente essa transição que poderá determinar se a DeepSeek será lembrada como a companhia que provocou um enorme susto no mercado em 2025 ou como um dos pilares permanentes da indústria chinesa de inteligência artificial.
A DeepSeek virou uma peça importante de uma ambição muito maior da China
O verdadeiro significado da empresa talvez esteja além de seus próprios modelos.
A China tenta construir uma cadeia tecnológica progressivamente menos dependente de fornecedores estrangeiros. Huawei trabalha com infraestrutura e processadores. A SMIC fabrica semicondutores. YMTC e CXMT avançam no segmento de memórias. Alibaba, Tencent e ByteDance desenvolvem seus próprios ecossistemas de IA.
A DeepSeek acrescenta a essa estrutura uma empresa especializada justamente na fronteira dos modelos avançados.
Com apenas três anos de existência, ela já demonstrou que restrições de recursos podem estimular abordagens diferentes para obter eficiência. O desafio agora é descobrir até onde essa estratégia consegue chegar quando bilhões de dólares, milhões de usuários e interesses geopolíticos entram na equação.
A próxima grande conquista da DeepSeek, portanto, talvez não seja simplesmente lançar uma IA mais inteligente.
Será demonstrar que a China consegue transformar modelos competitivos, chips domésticos, infraestrutura própria e capital em um ecossistema capaz de disputar uma corrida que, até pouco tempo atrás, parecia dominada pelo Vale do Silício.
[Fonte: GA]