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Ciência

A empresa que quer transformar satélites em “Sóis” noturnos acaba de receber autorização

Uma tecnologia espacial promete transformar a noite em algo mais parecido com o dia. A proposta parece fascinante, mas especialistas já enxergam um risco inesperado.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Imagine olhar para o céu depois do pôr do sol e encontrar algo muito diferente das estrelas e planetas que normalmente aparecem. Uma empresa quer usar satélites para redirecionar a luz solar diretamente para a superfície da Terra durante a noite. A promessa é oferecer iluminação onde ela for necessária. O problema é que essa luz pode ser muito mais intensa do que parece — especialmente para quem tentar observá-la de perto.

Uma ideia que transforma satélites em espelhos

A proposta vem da startup californiana Reflect Orbital, que recebeu autorização da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) para testar seu primeiro satélite. O projeto, chamado Earendil-1, deverá carregar um enorme refletor de membrana com cerca de 18 metros.

A ideia é relativamente simples: aproveitar a luz do Sol mesmo depois que ela desapareceu do horizonte para determinada região e direcioná-la novamente para o solo.

O plano de longo prazo, porém, é muito mais ambicioso. A empresa pretende criar uma constelação de até 50 mil satélites equipados com espelhos, capazes de iluminar áreas de aproximadamente 5 quilômetros.

A intensidade prevista ficaria entre 0,8 e 2,3 lux. Para comparação, uma noite de Lua cheia costuma produzir algo entre 0,05 e 0,3 lux. Ou seja, a proposta não seria simplesmente criar um pequeno ponto luminoso no céu: dependendo da operação, a iluminação poderia ser várias vezes superior à de uma noite de Lua cheia.

A empresa argumenta que a tecnologia poderia ser útil em situações nas quais a iluminação noturna tenha valor prático, como operações de emergência, regiões remotas ou determinadas atividades que necessitem de luz depois do anoitecer.

Mas existe uma consequência que não aparece tão claramente nessa promessa: o mesmo espelho que pode iluminar uma área no chão também pode criar um objeto extremamente brilhante no céu.

O problema começa quando alguém aponta um telescópio

É justamente aí que surge uma das maiores preocupações entre astrônomos e especialistas em iluminação.

O brilho produzido pela luz solar refletida não seria comparável ao de uma estrela comum. O risco aumenta especialmente quando alguém tenta observar diretamente o satélite usando instrumentos ópticos capazes de concentrar ainda mais a luz.

Especialistas consultados pela imprensa americana alertaram que observar diretamente uma fonte solar refletida e muito intensa pode representar um perigo para a visão. A comparação com um eclipse solar ajuda a entender a preocupação: não é necessário que a luz pareça desconfortável para que exista risco de lesão ocular.

Para astrônomos amadores, o cenário pode ser ainda mais delicado. Um telescópio concentra a luz em uma pequena área e, se for apontado acidentalmente para um desses satélites enquanto o refletor estiver direcionado para a Terra, a intensidade observada pode ser potencialmente perigosa.

O problema não se limita aos olhos humanos. Uma constelação tão numerosa também poderia modificar significativamente a aparência do céu noturno.

Organizações ligadas à astronomia e à preservação dos céus escuros já demonstraram preocupação com a possibilidade de milhares de objetos brilhantes aparecerem no campo de visão de observadores e telescópios.

A empresa promete controle, mas os astrônomos querem previsibilidade

A Reflect Orbital afirma que seus satélites não permanecerão permanentemente iluminados. Segundo a empresa, será possível desligá-los, reduzir seu brilho ou alterar sua posição conforme necessário.

A companhia também afirma que cada operação de iluminação dependeria de solicitação e aprovação das autoridades responsáveis pela região.

Isso poderia reduzir parte dos impactos, mas não elimina todas as dúvidas.

Para quem observa o céu, um dos problemas é justamente saber quando e onde esses satélites estarão visíveis. Um objeto que aparece inesperadamente durante uma sessão de observação pode interferir em imagens astronômicas ou ser observado diretamente por acidente.

Além disso, a questão ambiental também entrou no debate. Grupos ligados à proteção do meio ambiente contestaram a autorização concedida ao protótipo e pediram uma avaliação mais cuidadosa antes da expansão da tecnologia.

O Earendil-1 será, portanto, muito mais do que uma demonstração tecnológica. Seu lançamento servirá para descobrir se é possível transformar a luz solar em iluminação noturna sem transformar também o céu em uma fonte permanente de poluição luminosa.

E há uma ironia no projeto: quanto melhor esses enormes espelhos forem capazes de refletir a luz do Sol, mais importante será garantir que ninguém esteja olhando diretamente para eles no momento errado.

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