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Tecnologia

A França apostou milhões em uma estrada solar e precisou repensar toda a tecnologia

Em 2016, uma ideia ambiciosa prometia transformar um espaço já existente em uma gigantesca usina de energia limpa. O conceito parecia simples: cobrir uma estrada com painéis solares e produzir eletricidade sem ocupar novas áreas. Mas a realidade do trânsito trouxe desafios que ninguém poderia ignorar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A aposta francesa parecia unir mobilidade e energia renovável em uma única infraestrutura. Poucos anos depois, porém, os resultados começaram a levantar dúvidas sobre o futuro da tecnologia.

Uma estrada diferente de todas as outras

Em dezembro de 2016, a França inaugurou um projeto considerado pioneiro no mundo. Em uma estrada departamental de Tourouvre-au-Perche, na Normandia, cerca de 2.800 metros quadrados de placas fotovoltaicas foram instalados sobre aproximadamente um quilômetro de pavimento.

A tecnologia, chamada Wattway, havia sido desenvolvida pela empresa francesa Colas em parceria com o Instituto Nacional de Energia Solar após cinco anos de pesquisas. A proposta era ousada: transformar a própria estrada em uma superfície capaz de produzir eletricidade.

As células de silício foram encapsuladas em uma resina especialmente desenvolvida para suportar a circulação de veículos, mantendo ao mesmo tempo aderência suficiente para funcionar como pavimento.

A lógica parecia difícil de contestar. Em vez de construir uma nova usina solar e ocupar terrenos adicionais, bastaria aproveitar quilômetros de estradas que já existiam.

O projeto recebeu cerca de 5 milhões de euros em investimentos públicos e chegou a alimentar uma expectativa ainda maior. A então ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal, chegou a defender a possibilidade de instalar até 1.000 quilômetros de estradas solares no país.

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© Iegor Gorodok – Shutterstock

Quando a teoria encontrou o trânsito

O problema é que uma estrada não se comporta como um telhado.

Painéis solares convencionais podem ser inclinados e posicionados para aproveitar melhor a luz do Sol. Na estrada francesa, as placas precisavam permanecer horizontais. Além disso, os veículos projetavam sombras, enquanto folhas, poeira e outros resíduos cobriam a superfície.

Havia ainda outro inimigo particularmente difícil: o peso.

A estrada ficava em uma região rural atravessada diariamente por tratores, colheitadeiras e outros equipamentos agrícolas pesados. A passagem constante desses veículos submetia as placas a um nível de pressão e desgaste que acabou provocando danos.

Os resultados também ficaram muito abaixo das expectativas. No primeiro ano completo, a instalação produziu 149.459 kWh, pouco mais da metade dos 790 kWh diários que haviam sido projetados.

A produção caiu para 78.397 kWh em 2018 e chegou a aproximadamente 37.900 kWh apenas nos primeiros seis meses de 2019.

Os números financeiros acompanharam a queda. A previsão inicial de aproximadamente 10.500 euros anuais em receitas com eletricidade acabou dando lugar a apenas 4.550 euros em 2017 e 3.100 euros em 2018.

O projeto começou a ser desmontado

Em maio de 2019, a situação já era difícil de esconder. Cerca de 100 metros do trecho estavam tão deteriorados que precisaram ser retirados. Juntas haviam sido danificadas, placas se soltavam e a resina apresentava problemas.

Até o ruído provocado pelo pavimento se tornou um inconveniente, levando à redução do limite de velocidade naquele trecho para 70 km/h.

Naquele mesmo ano, Étienne Gaudin, responsável pela Wattway, reconheceu que o modelo instalado em Tourouvre não estava suficientemente desenvolvido para o tráfego interurbano e não seria comercializado daquela maneira.

A empresa mudou de estratégia. Em vez de transformar grandes trechos de rodovias em usinas solares, passou a trabalhar com módulos menores, de aproximadamente 3 a 12 metros quadrados, destinados a aplicações específicas, como câmeras de vigilância, abrigos de ônibus e pontos de carregamento para bicicletas elétricas.

Mesmo nessas aplicações, a eletricidade produzida ainda podia custar entre cinco e seis vezes mais do que a gerada por painéis solares convencionais.

O capítulo final veio em maio de 2024. Cerca de sete anos e meio depois da inauguração, as últimas placas que permaneciam na estrada foram retiradas.

A experiência francesa não significa que toda forma de pavimento solar seja inviável. Mas o caso deixou uma lição importante: uma superfície pode parecer perfeita para instalar painéis quando está parada e, ao mesmo tempo, ser um dos ambientes mais difíceis possíveis quando precisa suportar diariamente carros, caminhões, sujeira e máquinas pesadas.

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