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Tecnologia

Leão XIV fez um alerta sobre o avanço da tecnologia — e a imagem que usou para descrever o futuro é inquietante

Durante um encontro no Vaticano, Leão XIV voltou a colocar a tecnologia no centro de uma discussão maior. Para o pontífice, progresso sem pessoas pode deixar consequências profundas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Inteligência artificial, automação e digitalização avançam em uma velocidade difícil de acompanhar. Mas, para Leão XIV, a discussão mais importante não está apenas na capacidade das novas ferramentas. O verdadeiro teste começa quando se pergunta quem se beneficia delas e quem pode ficar para trás. Neste sábado (12), o papa retomou essa preocupação no Vaticano e utilizou uma metáfora poderosa para explicar o que pode acontecer quando inovação e dignidade humana seguem caminhos diferentes.

O problema não é simplesmente aceitar ou rejeitar a tecnologia

Leão XIV fez um alerta sobre o avanço da tecnologia — e a imagem que usou para descrever o futuro é inquietante
© YouTube

Leão XIV recebeu no Palácio Apostólico participantes do encontro “Fratelli tutti: Diálogo Socioambiental Norte-Sul”, iniciativa que reúne representantes de diferentes setores das Américas.

O evento é promovido pela Comissão Pontifícia para a América Latina, pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM) e pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB). Entre os participantes estão representantes de organismos internacionais, empresas, sindicatos, universidades e organizações sociais.

Foi nesse contexto que o pontífice voltou a abordar a relação entre desenvolvimento tecnológico e sociedade.

Para Leão XIV, a discussão não deveria ser reduzida a escolher entre aceitar ou rejeitar determinadas ferramentas. A questão mais profunda é decidir que tipo de humanidade será construída a partir delas e qual espaço cada pessoa terá nesse futuro.

A tecnologia, portanto, não aparece necessariamente como inimiga.

O problema surge quando o progresso deixa de melhorar concretamente a vida das pessoas, aumenta desigualdades ou contribui para marginalizar comunidades que já possuem menos recursos para acompanhar as transformações.

Foi então que o papa resumiu seu alerta de maneira contundente: se a tecnologia deixar de estar a serviço das pessoas, o resultado poderá ser um mundo em ruínas.

Mas a metáfora das “ruínas” não foi usada apenas para falar de máquinas.

O avanço pode construir um futuro impressionante e ainda deixar pessoas para trás

Leão XIV relacionou sua reflexão à encíclica Magnifica Humanitas, publicada neste ano e dedicada à proteção da pessoa humana em tempos de inteligência artificial.

O documento reconhece que a tecnologia contribuiu historicamente para melhorar as condições de vida, mas destaca que digitalização, robótica e IA atingiram uma escala capaz de influenciar decisões, relações sociais e até a forma como as pessoas imaginam o futuro.

Durante o encontro deste sábado, o pontífice retomou essa preocupação.

Segundo ele, as “ruínas” aparecem quando o progresso deixa de servir ao indivíduo, quando o trabalho perde dignidade, comunidades inteiras ficam marginalizadas ou quando a tecnologia amplia justamente as divisões que deveria ajudar a superar.

Essa última ideia ganha especial relevância em um momento no qual a inteligência artificial começa a modificar profissões, educação, comunicação e diferentes setores da economia.

O desafio, na visão apresentada pelo papa, não está apenas nos laboratórios ou nas empresas responsáveis por desenvolver novas ferramentas.

Ele envolve escolas, meios de comunicação, instituições públicas, comunidades locais e todos os espaços nos quais essas transformações acabam interferindo na vida cotidiana.

E existe outro elemento fundamental: nenhuma instituição conseguiria enfrentar sozinha uma transformação dessa magnitude.

Empresas, governos e sociedade terão de sentar à mesma mesa

Leão XIV fez um alerta sobre o avanço da tecnologia — e a imagem que usou para descrever o futuro é inquietante
© Werner Pfennig – Pexels

Leão XIV defendeu uma responsabilidade compartilhada diante das mudanças sociais e tecnológicas.

Isso significa reunir conhecimentos, capacidades e recursos de diferentes setores em torno de um objetivo comum, em vez de deixar decisões sobre o futuro concentradas apenas nas mãos de quem controla determinada tecnologia.

O próprio diálogo, porém, não seria suficiente.

Para o pontífice, conversar verdadeiramente exige continuar negociando mesmo quando aparecem interesses incompatíveis e quando determinadas decisões obrigam as partes envolvidas a fazer concessões concretas. Ele defendeu, nesse sentido, uma cultura de negociação capaz de encontrar caminhos mesmo diante de diferenças profundas.

Há também uma preocupação sobre como medir o sucesso desses acordos.

Em vez de considerar apenas quantas instituições apoiaram determinada decisão, Leão XIV sugeriu observar seu impacto sobre aqueles que possuem menos poder para defender seus próprios interesses.

É uma mudança importante de perspectiva.

Uma tecnologia pode ser extremamente eficiente, aumentar produtividade e movimentar bilhões enquanto, ao mesmo tempo, cria consequências sociais que não aparecem imediatamente nos indicadores econômicos.

Por isso, a dignidade humana deveria continuar sendo protegida justamente nos lugares considerados símbolos do progresso.

A pergunta sobre o futuro deixou de ser apenas tecnológica

A mensagem de Leão XIV não propõe interromper o desenvolvimento tecnológico. A própria Magnifica Humanitas reconhece as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias, ao mesmo tempo em que pede mecanismos de governança, responsabilidade e transparência para lidar com seus riscos.

O alerta está em outra direção.

Quanto mais poderosas forem as ferramentas construídas pela humanidade, mais importante se torna decidir para qual finalidade esse poder será utilizado.

Essa discussão ganha uma dimensão especialmente importante com a inteligência artificial. Empresas privadas e transnacionais possuem hoje recursos capazes de impulsionar tecnologias em uma escala que, em alguns casos, ultrapassa a capacidade de acompanhamento de governos e instituições tradicionais.

É nesse cenário que a imagem das ruínas utilizada pelo pontífice ganha força.

Uma sociedade tecnologicamente avançada não seria necessariamente uma sociedade melhor se o preço desse avanço fosse ampliar desigualdades, enfraquecer a dignidade do trabalho ou excluir aqueles que não conseguem acompanhar a transformação.

Por isso, Leão XIV encerrou sua reflexão com outra imagem: aquilo que a humanidade construir deveria funcionar como casa e abrigo para todos, começando justamente por quem mais precisa.

No fundo, seu alerta coloca uma pergunta simples diante de uma revolução extremamente complexa.

Não se trata apenas de descobrir até onde a tecnologia conseguirá chegar.

Trata-se de decidir quem queremos levar conosco quando ela chegar lá.

[Fonte: ansa]

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