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Ciência

A Lua encolheu cerca de 45 metros — e suas falhas revelam um mundo ainda ativo

Um levantamento de mais de 10 mil falhas indica que o raio lunar diminuiu ao longo de centenas de milhões de anos, conforme seu interior perdeu calor e se contraiu.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A Lua parece imutável quando observada da Terra, mas sua superfície guarda sinais de uma transformação lenta. Um estudo publicado em 14 de outubro na revista The Planetary Science Journal estima que seu raio diminuiu aproximadamente 45 metros nos últimos 400 a 800 milhões de anos. O trabalho reúne milhares de estruturas geológicas que registram essa contração e ajuda a compreender como o satélite continua mudando, mesmo sem apresentar a dinâmica de placas tectônicas da Terra. 

O que significa dizer que a Lua está encolhendo

Enxofre Lunar 1
© Pexels – Pixabay

O número descreve uma redução no raio, a distância entre o centro da Lua e sua superfície. Portanto, não representa uma perda de apenas 45 metros em toda a largura do satélite: a diminuição correspondente no diâmetro seria aproximadamente o dobro.

Também não se trata de uma mudança rápida. Distribuída pelo intervalo analisado, a redução equivale a cerca de seis a 11 centímetros por milhão de anos, caso a velocidade tenha permanecido constante.

O estudo foi liderado por Thomas R. Watters, cientista emérito do Museu Nacional do Ar e Espaço do Smithsonian, com Maria Banks, Cole Nypaver e Mark Robinson. A equipe identificou mais de 10 mil falhas jovens distribuídas pela superfície lunar.

O comunicado do Smithsonian sobre a pesquisa destaca que essas estruturas oferecem uma estimativa da contração associada ao resfriamento do interior lunar.

O resfriamento deixa marcas na crosta

A Lua começou sua história muito mais quente. Ao longo do tempo, perdeu parte dessa energia, e seu interior se contraiu. A camada externa precisou se acomodar a um corpo que diminuía de volume.

A NASA costuma comparar esse processo às rugas de uma uva que se transforma em passa. A diferença é que a crosta lunar é rígida e quebradiça. Quando sofre compressão, pode se romper em vez de simplesmente dobrar.

Assim se formam falhas nas quais um bloco de material é empurrado sobre outro. Na superfície, elas aparecem como pequenas escarpas, semelhantes a degraus no terreno.

Essas marcas preservam informações sobre forças que atuaram no satélite. Seu tamanho e sua distribuição ajudam os pesquisadores a investigar a evolução térmica da Lua e as condições de seu interior em diferentes momentos.

As imagens orbitais ajudam a reconstruir essa história

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© NASA

Grande parte desse conhecimento depende de observações feitas pela Lunar Reconnaissance Orbiter, a LRO. A missão permite examinar detalhes do relevo lunar e localizar estruturas que seriam difíceis de reconhecer a partir da Terra.

As imagens também conectam diferentes gerações da exploração espacial. Algumas escarpas já eram conhecidas pelos astronautas das missões Apollo. Na Apollo 17, por exemplo, Eugene Cernan e Harrison Schmitt precisaram conduzir o veículo lunar por um caminho sinuoso para atravessar a escarpa Lee-Lincoln.

Comparar fotografias de uma mesma região em momentos diferentes pode ajudar a procurar sinais de movimentos recentes. Trilhas deixadas por blocos e deslizamentos também fornecem pistas sobre possíveis episódios de instabilidade.

O resultado é uma investigação que combina formas visíveis na paisagem com informações sobre o comportamento do terreno.

A contração pode produzir terremotos lunares

A formação ou o deslocamento de falhas pode liberar energia e provocar sismos. Mas o encolhimento é apenas uma das fontes de tremores na Lua.

Segundo a explicação da NASA sobre os terremotos lunares, também existem eventos profundos associados às forças gravitacionais da Terra. Impactos de meteoroides produzem vibrações, enquanto a expansão e a contração de rochas durante as mudanças de temperatura podem gerar tremores muito superficiais.

Os sismômetros instalados pelos astronautas Apollo revelaram essa diversidade de eventos. Os registros permitiram investigar um ambiente que parecia silencioso e estático.

A atividade ligada à contração ocorre quando tensões acumuladas encontram uma forma de se liberar na crosta. Isso mostra que um mundo sem placas tectônicas semelhantes às terrestres ainda pode apresentar deformações e movimentos sísmicos.

Por que isso importa para futuras instalações

A redução de tamanho é imperceptível na escala de uma vida humana. Para a exploração, o interesse está nos efeitos locais das falhas e dos tremores sobre o terreno.

Um estudo divulgado em 2024 analisou a região do polo sul lunar e encontrou evidências de falhas próximas de áreas consideradas para pousos. Os pesquisadores também modelaram a estabilidade de encostas e identificaram locais suscetíveis a deslizamentos, inclusive sob vibrações relativamente fracas.

Algumas dessas áreas ficam em regiões permanentemente sombreadas, importantes para a investigação de recursos como gelo.

A NASA explica que o risco sísmico precisa entrar no planejamento de instalações lunares. A escolha de uma localização depende também da estabilidade do solo e das estruturas geológicas próximas, além de fatores como iluminação e acesso a recursos.

Ainda faltam medições para avaliar os riscos

Os dados disponíveis permitem reconhecer atividade e modelar seus possíveis efeitos, mas deixam perguntas sobre frequência, localização e intensidade dos eventos.

No estudo do polo sul, por exemplo, os pesquisadores trabalharam com uma região de possíveis localizações para o epicentro de um dos sismos registrados pelas Apollo. A rede limitada de instrumentos impediu determinar um único ponto com precisão.

Por isso, os cientistas defendem novas medições sísmicas em diferentes partes da Lua. Conhecer melhor esses movimentos ajudará a investigar seu interior e a planejar operações na superfície. O encolhimento revela um satélite que continua evoluindo; acompanhar essa evolução será parte do trabalho de aprender a permanecer nele.

 

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