A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma corrida entre empresas de tecnologia. Agora, ela ocupa discursos de chefes de Estado, negociações diplomáticas e debates sobre quem estabelecerá as regras para uma transformação capaz de alterar economias inteiras. Na Assembleia Geral da ONU, a China aproveitou esse cenário para apresentar sua visão e defender um princípio que pode se tornar uma das grandes disputas tecnológicas dos próximos anos.
A China quer que a IA seja tratada como uma questão global
O vice-presidente chinês Han Zheng subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas neste sábado, 26 de setembro, representando Pequim e levando um discurso que foi muito além das questões tradicionais de política externa.
A inteligência artificial ganhou espaço importante em sua intervenção.
Han defendeu que o desenvolvimento da tecnologia seja orientado ao bem comum, colocando as pessoas no centro e evitando que os benefícios da nova geração de sistemas inteligentes permaneçam concentrados em um pequeno grupo de países ou empresas.
A posição não surgiu repentinamente. A China vem defendendo na ONU uma governança internacional para a IA baseada em normas compartilhadas, mecanismos de responsabilidade e maior participação dos países em desenvolvimento. Documentos apresentados anteriormente pelo país também propõem reduzir a distância tecnológica entre Norte e Sul Global.
O ponto central é significativo: Pequim tenta enquadrar a inteligência artificial não apenas como uma vantagem competitiva, mas como uma tecnologia que deveria produzir benefícios distribuídos internacionalmente.
Esse discurso aparece justamente quando o controle da IA está se tornando uma das principais áreas de competição entre China e Estados Unidos.
Por trás do discurso existe uma disputa tecnológica gigantesca

Falar em inteligência artificial para o “bem comum” pode parecer uma declaração genérica, mas o contexto internacional torna a mensagem muito mais relevante.
China e Estados Unidos competem pelo desenvolvimento dos modelos mais avançados, pelo acesso aos chips necessários para treiná-los e pela infraestrutura de computação capaz de sustentar sistemas cada vez maiores.
Nas últimas semanas, Pequim voltou a pedir uma abordagem aberta e inclusiva para a tecnologia e criticou restrições capazes de aprofundar divisões entre países. Ao mesmo tempo, autoridades chinesas reconheceram riscos associados à IA, incluindo desinformação e conteúdos sintéticos capazes de provocar problemas políticos e sociais.
Há outro detalhe importante.
Poucos dias antes do discurso de Han na ONU, Xi Jinping esteve em Washington para uma reunião com Donald Trump. Durante o encontro, o presidente chinês afirmou que Estados Unidos e China, como duas potências da inteligência artificial, possuem responsabilidade especial sobre o futuro dessa tecnologia. Xi também defendeu que sistemas avançados permaneçam sob controle humano.
Washington e Pequim concordaram ainda em estabelecer um canal bilateral para discutir riscos e benefícios relacionados ao que os Estados Unidos passaram a chamar de “superinteligência”.
Ou seja, existe competição, mas também cresce a percepção de que algumas questões relacionadas à IA podem exigir algum nível de coordenação entre as duas maiores potências tecnológicas.
Pequim também quer uma ONU mais presente nas regras da inteligência artificial
Outro elemento importante da posição chinesa é o papel reservado às Nações Unidas.
A China defende que a organização tenha posição central na governança mundial da inteligência artificial. Essa visão inclui a criação de regras internacionais, padrões técnicos e mecanismos capazes de permitir que países com menor capacidade tecnológica participem da transformação.
Essa discussão está longe de ser puramente teórica.
Um relatório da própria ONU já alertou que os benefícios econômicos e sociais da inteligência artificial não serão distribuídos automaticamente de maneira equilibrada. Sem políticas internacionais e investimentos, existe o risco de que a tecnologia amplie desigualdades entre países que possuem infraestrutura computacional avançada e aqueles que sequer conseguem acessar esses recursos em escala suficiente.
A China tenta ocupar espaço justamente nessa lacuna.
Em seu plano de cooperação internacional para IA, Pequim propôs ampliar infraestrutura digital, treinamento profissional e aplicações em áreas como agricultura, indústria, educação, meio ambiente e combate às mudanças climáticas, com atenção especial ao Sul Global.
Mas existe uma camada política inevitável nessa proposta.
Quanto maior for o papel das Nações Unidas na definição das regras, menor será a capacidade de qualquer potência ou bloco econômico estabelecer sozinho os padrões tecnológicos globais.
A inteligência artificial virou mais uma peça de uma disputa muito maior
O discurso de Han Zheng também abordou comércio internacional, conflitos armados e segurança global.
O vice-presidente chinês criticou barreiras comerciais e interrupções nas cadeias internacionais de fornecimento, além de rejeitar o que descreveu como confrontação entre blocos. Também defendeu soluções diplomáticas para disputas internacionais e voltou a apresentar a China como defensora do multilateralismo.
É nesse cenário que a inteligência artificial ganha outra dimensão.
Chips, centros de dados, modelos avançados, energia e infraestrutura digital já fazem parte da competição econômica entre as grandes potências. Quem estabelecer padrões técnicos e regulatórios poderá exercer influência sobre mercados muito além de suas próprias fronteiras.
Por isso, quando Pequim fala em uma IA “orientada ao bem”, a discussão não envolve apenas como algoritmos serão utilizados.
Também envolve quem terá acesso à tecnologia, quem estabelecerá suas regras e qual será o papel de países que hoje estão fora do centro da corrida tecnológica.
A batalha pela próxima geração da inteligência artificial está acontecendo nos laboratórios e nos centros de dados. Mas o discurso chinês na ONU mostra que outra parte igualmente importante dessa disputa já chegou às mesas da diplomacia internacional.
[Fonte: NN]