Durante muito tempo, acreditou-se que Marte havia perdido completamente uma das características que ajudam a proteger planetas como a Terra. No entanto, uma nova pesquisa baseada em dados coletados ao longo de mais de uma década mostra que parte desse antigo sistema continua funcionando, ainda que em uma escala muito menor. A descoberta não apenas explica um fenômeno observado na atmosfera marciana, como também oferece pistas importantes sobre o passado e a evolução do planeta vermelho.
Pequenas regiões de Marte ainda preservam um antigo legado magnético
Atualmente, Marte não possui um campo magnético global como o da Terra, responsável por desviar boa parte das partículas carregadas vindas do Sol. Esse escudo desapareceu há bilhões de anos, deixando o planeta muito mais vulnerável à ação constante do vento solar.
Apesar disso, algumas áreas da crosta marciana conservaram vestígios desse antigo magnetismo. Essas regiões foram formadas quando rochas vulcânicas esfriaram e solidificaram, registrando o campo magnético existente na época. Hoje, elas funcionam como pequenas “ilhas magnéticas”, capazes de interagir com o ambiente espacial ao redor.
Essas estruturas locais alteram a trajetória das partículas carregadas que chegam do Sol e, em determinadas condições, fazem surgir auroras localizadas na atmosfera de Marte. Diferentemente das impressionantes luzes polares terrestres, essas auroras aparecem apenas em regiões específicas, principalmente no hemisfério sul do planeta, onde a magnetização da crosta é mais intensa.
Agora, um estudo publicado na revista Nature Communications revelou que essas pequenas estruturas fazem muito mais do que simplesmente desviar partículas. Os pesquisadores descobriram que elas reproduzem, em miniatura, o mesmo mecanismo físico responsável pela formação das auroras na Terra.
Na Terra, esse processo ocorre por meio da reconexão magnética, quando as linhas do campo magnético terrestre interagem com aquelas transportadas pelo vento solar. Essa interação cria um ciclo que acelera elétrons em direção à atmosfera, produzindo as famosas luzes polares.
Segundo os cientistas, algo muito semelhante acontece sobre determinadas regiões magnetizadas de Marte. As linhas de campo magnético se conectam, se reorganizam e voltam a se fechar, permitindo que elétrons ganhem energia suficiente para gerar auroras na atmosfera marciana.
Uma versão reduzida do fenômeno terrestre pode ajudar a explicar o passado de Marte
A equipe analisou detalhadamente observações realizadas pela sonda MAVEN em 25 de fevereiro de 2017, quando a nave sobrevoava uma das áreas mais magnetizadas do planeta, próxima à região que separa o lado iluminado do lado noturno.
Os instrumentos registraram correntes elétricas alinhadas ao campo magnético, movimentação do plasma na ionosfera e elétrons acelerando em direção à atmosfera. Quando essas informações foram reunidas, os pesquisadores perceberam que todas se encaixavam no mesmo modelo físico utilizado para explicar as auroras da Terra.
A principal diferença está no tamanho do fenômeno. Enquanto o processo terrestre pode se estender por cerca de uma hora e envolver enormes quantidades de energia, a versão marciana é aproximadamente vinte vezes menor. As estimativas indicam que todo o ciclo ocorre em apenas dois minutos e meio, além de apresentar uma diferença de potencial cerca de mil vezes inferior à observada normalmente nos polos terrestres.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas combinaram dados do magnetômetro, do analisador de elétrons do vento solar e do instrumento STATIC, responsável por medir o movimento e a composição dos íons presentes na atmosfera marciana.
Embora o trabalho tenha como base um evento especialmente detalhado e outros seis episódios com características semelhantes, os autores destacam que nem todas as auroras de Marte necessariamente surgem pelo mesmo mecanismo. Ainda assim, a descoberta oferece uma nova estrutura teórica para compreender fenômenos que, até agora, eram estudados separadamente.
Os resultados também reforçam o legado da missão MAVEN. Embora a NASA tenha encerrado oficialmente a missão em 2026, após perder contato definitivo com a sonda, os mais de onze anos de observações continuam produzindo informações valiosas. Além de ampliar o conhecimento sobre as auroras marcianas, o estudo ajuda os pesquisadores a entender como Marte perdeu grande parte de sua atmosfera e mostra que mecanismos antes considerados exclusivos de planetas com campos magnéticos globais também podem existir em regiões muito menores. No fim, a descoberta responde à pergunta levantada pelo título: Marte realmente perdeu seu grande escudo magnético, mas partes de sua crosta ainda conseguem reproduzir, em pequena escala, o processo que dá origem às auroras.