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Mundo

A disputa histórica que pode mudar o mapa do Reino Unido para sempre

Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte voltam a desafiar o poder de Londres. Apesar de compartilharem uma monarquia e uma bandeira, séculos de diferenças históricas mantêm aberta a possibilidade de uma profunda transformação territorial.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Reino Unido é uma das principais potências políticas e econômicas do planeta, mas existe uma particularidade que ainda causa confusão: Reino Unido, Grã-Bretanha e Inglaterra não são a mesma coisa.

O nome oficial do país é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Ele reúne quatro nações: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Já a Grã-Bretanha é a ilha formada pelas três primeiras.

Essa união levou séculos para assumir sua configuração atual. Agora, movimentos nacionalistas voltam a colocar em discussão uma pergunta que acompanha o país há décadas: esse mapa continuará existindo da mesma forma no futuro?

País de Gales manteve sua identidade mesmo após a conquista

Gales
© Catrin Ellis – Unsplash

A incorporação do País de Gales começou no século XIII, quando o rei Eduardo I da Inglaterra conquistou grande parte do território.

Séculos depois, durante o reinado de Henrique VIII, as leis aprovadas entre 1535 e 1542 completaram sua integração jurídica e administrativa com a Inglaterra.

Isso não significou o desaparecimento da identidade galesa.

A língua galesa, a literatura e diferentes tradições ajudaram a preservar uma forte identidade nacional mesmo após séculos de integração política.

Uma mudança importante ocorreu em 1999, com a criação de uma assembleia autônoma. Atualmente conhecida como Senedd, ou Parlamento galês, a instituição possui poderes sobre diversas áreas da administração local.

Questões como defesa e política externa, porém, continuam sob responsabilidade do governo britânico.

O partido nacionalista Plaid Cymru defende a independência. O apoio à separação ainda é menor do que o observado historicamente na Escócia, mas o tema deixou de ocupar apenas as margens do debate político.

Escócia já chegou muito perto de decidir seu futuro

A história escocesa é diferente.

Durante séculos, a Escócia foi um reino independente. Conflitos medievais contra a Inglaterra e personagens como William Wallace e Robert the Bruce continuam ocupando um espaço importante na memória nacional.

Em 1603, Inglaterra e Escócia passaram a compartilhar o mesmo monarca. Os dois países, entretanto, continuaram com parlamentos e sistemas jurídicos separados.

Isso mudou em 1707.

As chamadas Atos de União criaram o Reino da Grã-Bretanha, reunindo politicamente Inglaterra e Escócia.

Mesmo assim, os escoceses conservaram instituições próprias, incluindo seu sistema jurídico, educacional e religioso.

A criação do Parlamento escocês, em 1999, devolveu ao país parte importante de sua autonomia política.

Mas o grande momento do movimento independentista chegou em 2014.

Em 2014, 44,7% dos escoceses escolheram a independência

Escocia
© Stewart M – Unsplash

Naquele ano, a Escócia realizou um referendo para decidir se permaneceria no Reino Unido.

O resultado foi apertado, mas claro: 55,3% escolheram continuar na união, enquanto 44,7% votaram pela independência.

A questão poderia ter perdido força depois disso. O Brexit, porém, mudou novamente o cenário.

No referendo de 2016, a maioria dos eleitores escoceses votou pela permanência na União Europeia. Como o resultado geral do Reino Unido favoreceu a saída, a Escócia acabou deixando o bloco europeu mesmo tendo votado majoritariamente contra essa decisão.

Para os nacionalistas, o episódio reforçou um argumento central: decisões tomadas pelo conjunto do Reino Unido podem seguir uma direção diferente daquela escolhida pela maioria dos escoceses.

Irlanda do Norte é um caso completamente diferente

Falar em “independência” da Irlanda do Norte pode ser enganoso.

O principal objetivo dos nacionalistas irlandeses não é criar um novo Estado independente, mas reunificar o território com a República da Irlanda.

A configuração atual nasceu de um processo histórico turbulento.

A Irlanda passou a integrar formalmente o Reino Unido em 1801. Depois de décadas de movimentos nacionalistas e conflitos, grande parte da ilha deixou a união no início do século XX.

Em 1922 surgiu o Estado Livre Irlandês, antecessor da atual República da Irlanda.

Seis condados do norte, porém, permaneceram no Reino Unido, onde existia uma forte população unionista favorável à manutenção dos vínculos com Londres.

O Acordo de Sexta-Feira Santa deixou uma porta aberta

Depois de décadas de violência na Irlanda do Norte, o Acordo de Sexta-Feira Santa de 1998 estabeleceu uma estrutura política que ajudou a reduzir drasticamente o conflito.

O acordo também criou uma possibilidade decisiva para o futuro.

A Irlanda do Norte continuará fazendo parte do Reino Unido enquanto essa for a vontade da maioria de sua população. Caso haja evidências de que uma maioria prefere uma Irlanda unificada, existe um mecanismo para convocar uma consulta sobre a questão.

Isso torna o território constitucionalmente diferente da Escócia e do País de Gales.

O mapa do Reino Unido poderia realmente mudar

Os três movimentos compartilham críticas à concentração de poder em Westminster, mas seus objetivos e caminhos são diferentes.

A Escócia busca a possibilidade de realizar outro referendo de independência. No País de Gales, os nacionalistas ainda precisam ampliar consideravelmente o apoio popular ao projeto.

Na Irlanda do Norte, a discussão gira principalmente em torno de uma eventual reunificação com a República da Irlanda.

Qualquer mudança abriria questões enormes.

Moeda, dívida pública, fronteiras, cidadania, defesa e relações com a União Europeia precisariam ser negociadas. No caso escocês, até mesmo a localização de instalações militares britânicas poderia entrar na discussão.

O Reino Unido não surgiu de uma única decisão. Seu território atual é resultado de séculos de conquistas, uniões monárquicas, acordos parlamentares, guerras e divisões.

Agora, essas mesmas diferenças históricas continuam vivas.

E, se algum desses movimentos conseguir transformar apoio político em uma mudança constitucional concreta, o mapa que conhecemos como Reino Unido poderá não permanecer assim para sempre.

 

[ Fonte: Canal26 ]

 

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