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Alergias estão aumentando entre crianças — e o excesso de higiene pode ser parte do problema

Crianças que crescem em ambientes urbanos têm menos contato com a diversidade de microrganismos encontrada na natureza. Pesquisadores investigam como essa mudança pode afetar o desenvolvimento do sistema imunológico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Álcool em gel nas mãos, brinquedos constantemente desinfetados e preocupação quando uma criança resolve brincar na terra. A higiene ajudou a prevenir inúmeras doenças infecciosas, mas cientistas investigam há décadas uma aparente contradição da vida moderna.

Enquanto algumas infecções diminuíram, alergias, asma e outros distúrbios imunológicos se tornaram mais comuns em muitas populações. Uma das possíveis explicações envolve justamente a redução do contato, principalmente durante a infância, com a enorme diversidade de microrganismos que sempre acompanhou nossa espécie.

Isso não significa que higiene provoque alergias ou que crianças precisem viver na sujeira. A questão é muito mais complexa.

O sistema imunológico precisa aprender o que é perigoso

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© Pexels

O corpo humano não evoluiu isolado dos microrganismos.

Durante milhares de anos, pessoas conviveram constantemente com bactérias, fungos, vírus e outros organismos presentes na terra, nos animais, nos alimentos e no próprio corpo.

Essa interação participa do desenvolvimento e da regulação do sistema imunológico.

Desde os primeiros anos de vida, nossas defesas precisam aprender a responder adequadamente a ameaças reais e, ao mesmo tempo, tolerar substâncias inofensivas.

Quando esse equilíbrio falha, o organismo pode reagir exageradamente a elementos que normalmente não representam perigo, como pólen, ácaros ou determinadas proteínas presentes nos alimentos.

É aí que entram as alergias.

A chamada “hipótese da higiene”

No fim da década de 1980, pesquisadores começaram a investigar uma ideia que ficou conhecida como hipótese da higiene.

A observação inicial era que crianças expostas a determinados ambientes e microrganismos pareciam apresentar menor incidência de algumas doenças alérgicas.

Desde então, a hipótese evoluiu.

Hoje, pesquisadores não acreditam simplesmente que “ser limpo demais causa alergia”. A discussão está mais relacionada à perda de diversidade microbiana e à redução do contato com determinados microrganismos importantes para o desenvolvimento das respostas imunológicas.

Nesse sentido, ambientes urbanos podem desempenhar um papel.

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© Pexels

Crianças que vivem em grandes cidades geralmente têm menos contato com solo, vegetação, animais e ambientes rurais.

Ao mesmo tempo, passam grande parte do dia em espaços fechados e entram em contato com uma comunidade microbiana diferente daquela encontrada na natureza.

Estudos envolvendo crianças que crescem em fazendas, por exemplo, encontraram em algumas populações menores taxas de determinadas doenças alérgicas.

Isso levou pesquisadores a investigar se a exposição precoce a uma maior diversidade de microrganismos poderia ajudar o sistema imunológico a desenvolver mecanismos de tolerância.

A microbiota intestinal também pode fazer parte dessa história.

O intestino pode ajudar a explicar essa relação

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© Unsplash

Trilhões de microrganismos vivem no sistema digestivo humano e participam de diferentes processos metabólicos e imunológicos.

A composição dessa microbiota começa a ser formada muito cedo e pode ser influenciada por alimentação, ambiente, medicamentos, contato com animais e vários outros fatores.

Algumas pesquisas associam menor diversidade microbiana intestinal a alterações inflamatórias e maior risco de determinadas doenças alérgicas.

Mas isso não significa que exista uma única bactéria capaz de prevenir alergias. O microbioma é extremamente complexo, e os cientistas ainda tentam entender quais alterações realmente causam problemas e quais são apenas consequências de outros fatores.

O problema não é simplesmente “limpar demais”

Abandonar hábitos básicos de higiene seria uma conclusão perigosa.

Lavar as mãos em momentos importantes, manter água e alimentos seguros e higienizar superfícies contaminadas continuam sendo medidas fundamentais para prevenir infecções.

A diferença está entre higiene direcionada e a tentativa de esterilizar constantemente todo o ambiente.

O uso indiscriminado de produtos antibacterianos em situações nas quais água e sabão ou uma limpeza comum seriam suficientes provavelmente não oferece benefícios adicionais para uma criança saudável.

Além disso, alergias não podem ser explicadas apenas pela higiene.

Poluição, alimentação e estilo de vida também entram na equação

A urbanização trouxe várias mudanças simultâneas.

Crianças podem ter menos contato com ambientes naturais, mas maior exposição à poluição atmosférica. Dietas também mudaram, com maior presença de alimentos ultraprocessados e menor consumo de fibras em algumas populações.

Uso de antibióticos, tipo de parto, alimentação nos primeiros meses de vida, genética, exposição à fumaça e características ambientais também podem influenciar o desenvolvimento imunológico.

Por isso, cientistas atualmente preferem uma visão mais ampla do problema em vez da explicação simples de que “somos limpos demais”.

Crianças podem — e devem — ter contato com a natureza

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Não existe motivo para entrar em pânico quando uma criança brinca na terra, toca plantas ou passa tempo em ambientes naturais.

Atividades ao ar livre oferecem vários benefícios e também aumentam o contato com uma diversidade ambiental que praticamente desaparece quando a infância acontece exclusivamente entre espaços fechados.

Conviver com animais também tem sido estudado como um possível fator relacionado ao desenvolvimento imunológico, embora isso não signifique que famílias devam adotar um animal especificamente para prevenir alergias.

A ideia central é encontrar equilíbrio.

A higiene moderna continua sendo uma das maiores conquistas da saúde pública. Mas higiene não significa esterilidade.

Nosso sistema imunológico evoluiu em um planeta repleto de microrganismos. Entender como recuperar parte dessa convivência sem abrir mão da proteção contra doenças infecciosas pode ser uma das chaves para explicar — e talvez reduzir — o crescimento das alergias na infância.

 

[ Fonte: Diario Ok ]

 

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