Debaixo dos nossos pés existem enormes reservas de água que não aparecem em fotografias de satélite. Mesmo invisíveis, elas podem ser monitoradas do espaço por uma característica inesperada: seu peso. Cientistas da NASA utilizaram mais de duas décadas de medições gravitacionais para descobrir como essas reservas estão mudando. O resultado revelou que a atividade humana pode ter uma influência maior do que o clima em certas regiões — e nem sempre na direção esperada.
Satélites conseguem detectar mudanças na água sem enxergar uma única gota
Desde 2002, as missões GRACE e GRACE-FO, desenvolvidas com participação da NASA, acompanham pequenas variações no campo gravitacional terrestre.
Quando uma região perde ou acumula água, sua massa muda ligeiramente. Os satélites conseguem detectar essas diferenças e ajudar a estimar alterações nas reservas de água presentes em aquíferos, solos, lagos e geleiras.
Agora, pesquisadores do Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA e da Universidade de Maryland utilizaram dados coletados entre abril de 2002 e novembro de 2025 para produzir um mapa mais detalhado dessas transformações.
O estudo, publicado na revista PNAS, empregou um novo método de processamento que aumentou a resolução das análises entre cinco e dez vezes.
Antes, era difícil identificar tendências confiáveis em áreas inferiores a aproximadamente 150 mil quilômetros quadrados.
Com a nova abordagem, tornou-se possível investigar regiões menores e relacionar mudanças no armazenamento de água a atividades humanas específicas.
E foi justamente essa capacidade que revelou alguns dos resultados mais surpreendentes.
Em algumas regiões, a agricultura está esvaziando reservas subterrâneas
Os cientistas identificaram 40 regiões fora das áreas polares onde as alterações no armazenamento de água apresentam forte relação com atividades humanas.
Em quatro delas, uma variável ligada à ação humana explicou melhor as tendências observadas do que qualquer fator climático analisado.
Os exemplos mais preocupantes aparecem em grandes regiões agrícolas dependentes de irrigação.
O Vale Central da Califórnia, as Grandes Planícies do sul dos Estados Unidos, o estado mexicano de Chihuahua e o norte da Índia registraram perdas importantes.
Nessas áreas, períodos de seca aumentaram a necessidade de bombear água subterrânea para manter a produção agrícola.
No norte da Índia, a redução das reservas foi ainda mais intensa do que indicavam estimativas anteriores.
O Himalaia também apresentou um resultado revelador.
Embora o derretimento das geleiras receba grande atenção, ele explicou apenas cerca de 15% da perda de água identificada na região.
A maior parte foi associada principalmente à retirada de água subterrânea.
Mas nem todas as áreas agrícolas apresentaram o mesmo comportamento.

No Brasil e na África, os pesquisadores encontraram o fenômeno contrário
Em determinadas regiões, mudanças no uso do solo parecem estar contribuindo para aumentar a quantidade de água armazenada no subsolo.
Na África Subsaariana, áreas de savana transformadas em plantações de milheto, cultivado sem irrigação artificial, apresentaram elevação do nível da água subterrânea mesmo com chuvas abaixo do normal.
No Brasil, um fenômeno semelhante foi observado no Maranhão.
A expansão da soja sobre antigas áreas de florestas e vegetação arbustiva provavelmente favoreceu a recarga de aquíferos rasos.
Os pesquisadores consideram que diferenças no consumo de água pelas plantas e nas práticas de manejo do solo podem ajudar a explicar o resultado.
Isso não significa que substituir vegetação nativa por plantações seja ambientalmente positivo.
A conversão dessas áreas pode provocar perda de biodiversidade e outros impactos ecológicos.
O estudo mostra apenas que alterar a cobertura vegetal também modifica a maneira como a água circula e se acumula no solo.
Outras intervenções humanas produziram efeitos detectáveis.
A barragem de Boguchany, na Rússia, apresentou uma importante tendência de aumento no armazenamento de água. Já o canal de Karakum, no Turcomenistão, contribuiu para a infiltração de água desviada para irrigação.
A surpresa brasileira não muda o resultado mais preocupante do estudo
Apesar dos aumentos identificados em algumas regiões, o balanço global analisado pelos pesquisadores foi predominantemente negativo.
Em todos os continentes fora das regiões polares, com exceção da Austrália, as perdas de água superaram os ganhos.
Outro resultado chama atenção: estimativas anteriores da perda de água associada ao bombeamento subterrâneo eram, em média, 45% menores do que os novos cálculos.
Isso sugere que o esgotamento de aquíferos pode estar sendo subestimado em importantes regiões agrícolas.
Enquanto a irrigação intensiva retira água do subsolo em várias partes do planeta, determinadas mudanças agrícolas no Brasil e na África parecem favorecer a infiltração e a recarga de reservas subterrâneas.
O problema é que muitos aquíferos podem levar décadas ou séculos para recuperar a água perdida.
Compreender onde essas reservas estão diminuindo, onde estão aumentando e quais atividades explicam as mudanças será fundamental para administrar um recurso que, embora permaneça escondido sob a superfície, sustenta boa parte da agricultura mundial.